Mais um, Bahia

Eu sou Bahia. O time, o Esquadrão de Aço. A mascote é o super-homem tricolor, criado por Ziraldo, em 1979. Baêa! É assim que se grita (ou melhor, se gritava) na Fonte Nova. Eu era menino de tudo, menino pequeno em meados dos 1970, minha mãe me levava para a Fonte Nova, nas cadeiras numeradas, azuis, ao lado da geral, uma zorra. O Bahia tinha um timaço. Tinha o arqueiro Joel Mendes, a quem quis imitar, de manga comprida alaranjada, nas areias de Amaralina, onde meu irmão, craque de bola, fazia brilhar o Clube de Regatas Canadá, uma invenção a partir do nome do cursinho onde estudávamos, o Curso Canadá, em 1976, para fazer o vestibular do Colégio Militar de Salvador. Passamos, os dois, é bom que se diga. Eu queria ser o arqueiro Joel Mendes, goleiraço do Bahia, porque na linha eu era, como ainda sou, um quadrúpede de patas amarradas. Então, eu pulava na areia, fazia defesas no canto da trave de casca de côco e imitava os locutores do Campo do 4, na TV Aratu: “Seguuuuuuuura o arqueiro Joel Mendes”.

 

Tinha um ponta-direita, Gesum, baixo, veloz, furioso. Quando ele corria pela ponta, a torcida se levantava, histérica. Eu pulava na cadeira, puxava os cabelos (na época, os tinha em profusão) e gritava: “Cruza, porra, cruza!”. Minha mãe me puxava, jovem, linda, de cabelos presos. “Olha a boca, menino!”. Naquela época, não se falava palavrão na frente de mãe e pai, de jeito nenhum, levava era um tabefe nos beiços, mas no estádio eu aproveitava a balbúrdia para gritar uns “porras”, que na Bahia é vírgula, bem altos. Então, Gesum cruzava e Beijoca marcava. Beijoca, um trator de cem quilos de truculência e uma capacidade inata de estar sempre no lugar certo. Era um artilheiro com um encontro marcado com a bola. Gesum cruzava e lá estava Beijoca, aquela presença enorme e improvável na pequena área. Abria a defesa adversária com os braços e voava na bola, de cabeça, com os pés, os joelhos e a barriga. A Fonte Nova explodia. “Alalaô ôôô ôôô,  Gesum cruzou e Beijoca marcou”, cantava a torcida tricolor, no ritmo da marchinha carnavalesca, eu no meio, eu mais minha mãe, porque meu irmão era Vitória, sofria caladinho, no meio da folia do Bahia.

 

Tinha, também, Baiaco e Sapatão, na zaga. Douglas e Fito, no ataque. Depois, em 1988, aquele timaço campeão brasileiro, Bobô, Charles e companhia. Eu estava na Fonte Nova no primeiro jogo da decisão contra o Internacional de Porto Alegre, mais de 100 mil torcedores, o estádio tremia (mas só foi desabar 20 anos depois) de alegria. Eu assisti da tribuna da imprensa, lotada de penetras, quando apareceu um repórter da Zero Hora, protótipo do gaúcho tipo exportação: loiro, alto, sotaque exagerado, uma cuia de chimarrão na mão. Aquele calor da porra e o babaca chupando aquela urina quente só para se amostrar. Fez questão de comentar bem alto que era “impossível” o Inter perder para o Bahia. Foi 2 a 1 para o Esquadrão de Aço, de virada. O babaca saiu com o rabinho entre as pernas, mijando chimarrão frio.

 

Da última vez que estive na Fonte Nova, um jogo antes de o estádio ruir e matar sete torcedores na arquibancada, o Bahia empatou com o Atlético Goianiense, 1 a 1, com gol contra da zaga tricolor. Um jogo péssimo, de terceira divisão mesmo, que é onde o time se encontrava. Mas só sendo Bahia para entender aquilo lá, a Fonte Nova com 60 mil torcedores, gente de todas as idades, entoando o novo canto de guerra “Vumbora Baêa minha porra!”. Olhe só: “Minha porra!”. Fiquei emocionado. A meninada não precisava mais esconder o palavrão, cantava junto com os pais. “Cruza, porra!”. Mas Gesum não estava mais lá, muito menos o gordo Beijoca. Mas o Bahia subiu, vive aos trancos na segundona e, ainda assim, é capaz de surpreender, como no jogo contra o Corinthians, no último domingo.

 

Chegamos, então, ao fato revelador do preconceito eterno da imprensa do sul-maravilha contra o time nordestino, coisa que vai do repórter que cobre ao editor que edita, sem falar na torcida descarada dos locutores de todas as emissoras. Elias bate uma falta linda, dificílima, cruzada, na gaveta direita do gol do Corinthians. Um golaço, golaço, aos nove minutos do primeiro tempo, Pacaembu lotado, a Fiel toda lá, cantando, gritando, uma torcida da porra. Os tricolores espremidos num canto, incapazes quase de serem vistos e ouvidos, mas lá, na arquibancada. Um gol da porra! E me vem a primeira chamada, no UOL, ainda no domingo: Felipe falha e Bahia tira invencibilidade do Corinthians. Um dia depois, manchete na Folha de S.Paulo, copiada aqui e ali pela imprensa do sul: Bahia derruba invencibilidade do líder da Série B após falha do goleiro Felipe, torcedor do Vitória.

 

Quer dizer que Elias mete um golaço na gaveta do goleiro, uma falta batida com absoluta perfeição, e o Bahia ganhou porque o Corinthians foi vítima de uma falha? Vá pá porra, como se diz em Salvador! E os outros 81 minutos de jogo? Por que o Corinthians não virou para 10 a 1? Felipe não falhou nada, levou foi um golaço nas ventas, de cobertura, coisa linda de se ver. E o Bahia se manteve digno, cabeça erguida, diante de um Pacaembu estupefato, paralisado pela capacidade de reação de um time sofrido, espoliado, reduzido à sombra de seus dias de glória. Ali, no enclave tricolor onde meia dúzia de gatos pingados se acotovelava com bandeiras e cornetas, só dava para ler nos lábios da galera um trecho do hino do time: “Mais um, mais um Bahia, mais um, mais um título de glória!”. Há 18 anos o Bahia não perde para o Corinthians em São Paulo. Ou seja, em solo paulista, o Coringão é freguês!

 

O título de verdade, que deveria estar estampado em todos os jornais do dia seguinte, é este, do site oficial do Bahia (www.esporteclubebahia.com.br): Bahia derruba último invicto, mantém tabu e cala o Pacaembu.

 

E não se fala mais nisso.

 

Vumbora, Baêêêa minha porra!

 

 



Escrito por Ozzymandhas às 17h30
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Ana Lúcia, da Brasil Telecom

Os fatos relatados abaixo são reais e revelam o grau de precariedade ainda vigente nas relações de consumo no Brasil. Demonstram, no genérico, a forma mais explícita de desrespeito adotada pelas operadoras de telefonia do país, e, no particular, a desastrosa estratégia de assédio bolada pela Brasil Telecom para tentar manter os muitos clientes que, em Brasília, fogem dela para empresas melhores, mais eficientes e mais corretas no trato com os usuários.

 

Quarta-feira, 28 de maio, 10h09. Do outro lado da linha, o serviço automático de atendimento da Brasil Telecom, o 10314. Aperto as teclas que me mandam para ser atendido. Antes de me remeterem ao inferno de quase uma hora ao lado de uma atendente diabólica, me pedem para, ao final, dar uma nota sobre a qualidade do atendimento. Será a minha vingança, mas, por ora, voltemos ao começo. Disco todos os números e espero, finalmente, que um ser humano me atenda do outro lado. Quero cancelar uma linha de telefone fixo. Antes, contudo, vem uma musiquinha irritante, de três acordes, meio buzina, meio bateria eletrônica. Superposta a ela, começam as propagandas.

 

Primeiro, sobre o celular BrT, da empresa, cheio de facilidades para conferir e-mails ou faturas das contas. Mais música. Pedem para eu conferir as funções do menu do BrT Celular (eu nem tenho um) para “ficar por dentro” de muitas promoções “e muito mais” (o que será? Prefiro esperar o atendente). A musiquinha volta, infame. “A fim de conhecer mais pessoas?”, me pergunta a gravação do outro lado. Não, não estou, mas ela não me ouve. “Consulte o menu (do BrT Celular, claro) e cadastre o seu perfil”. E lá vem a musiquinha infernal. “Registrou um momento único? Mande um torpedo!”. Eu não mereço isso. “Quer ganhar prêmios todos os dias?”. Ué, quem não quer? Enquanto não sou atendido, descubro que basta enviar torpedos e trocar pontos por prêmios. Se eu tivesse um torpedo, começaria por apontar para o serviço de atendimento da Brasil Telecom. Mas continuo aguardando, paciente.

 

A musiquinha ganha fôlego. E tome propaganda. “Não consegue acompanhar notícias do dia-a-dia?”. Eu não consigo, ninguém consegue, mas descubro – oh! – que basta acessar o menu do BrT Celular para que o mundo se abra aos meus olhos. “E muito mais!”. Adoro isso. Aliás, descubro, ainda, que o expediente do torpedo é a maneira mais fácil e rápida de se comunicar “quando você não pode falar ou não quer falar”. Entenderam a sacada? Como pude viver até hoje sem perder uma hora da minha manhã ouvindo os reclames da Brasil Telecom? Depois, incrivelmente, a voz gravada me pergunta: “Cansado da musiquinha do seu celular?” Hahahahahahahaha! Esses caras do BrT Celular são uns pândegos!

 

São 10h21, Estou ouvindo propaganda há 10 minutos, e nem sei se estou pagando essa ligação. Preciso lembrar de perguntar ao atendente, se ele me atender, é claro. A musiquinha não pára. “Sua conta da Brasil Telecom tem selo de qualidade do Inmetro”. Já o serviço de atendimento... “Tem tudo para facilitar a sua vida”. Ok, ok, eu sei quando estão tirando sarro de mim. Mas não vou desistir. Acho que eles percebem o meu espírito perseverante porque, após um último informe sobre os serviços de convergência da empresa (“multiconferência com vídeo, áudio e web”), sou finalmente atendido por alguém em carne osso. O nome dela é Ana Lúcia. São 10h24.

 

Ana Lúcia é da infantaria do telemarketing da Brasil Telecom, percebo logo. Ela não quer saber de frescura nem de desculpa besta.

 

- Quer cancelar a linha? Por quê? Qual o motivo? Alguma coisa ocorreu?

 

Tento acalmá-la, digo que é por um motivo pessoal, preferi mudar de operadora. Ana Lúcia fica furiosa. Nem respira. Dispara uma metralhadora verbal que me deixa aturdido.

 

- É um motivo pessoal? Que motivo pessoal? Olha, o senhor está querendo cancelar uma linha econômica, um pacote excelente. Não quer transferir para outra pessoa? O senhor pode transferir para outra pessoa! Uma boa ação faz o mundo melhor!

 

São 10h28 e eu preciso trabalhar. Digo isso para Ana Lúcia, mas ela não foi treinada para ter piedade. Na Brasil Telecom a ordem, imagino, é nunca perder um cliente, nem que para isso seja preciso azucriná-lo, tomar-lhe o tempo de trabalho e deixá-lo plantado por uma hora apenas para cancelar uma linha. Ana Lúcia insiste, sabe que estou trocando a empresa dela por outra, quer saber o nome, quer saber o porquê dessa traição. Perco um pouco a paciência.

 

- Ana Lúcia, você pode, por favor, cancelar a minha linha, porque eu preciso trabalhar?

- Mas eu nunca disse que não podia, eu só quero saber por que o senhor quer cancelar a linha.

- Por um motivo pessoal, já disse.

- Mas qual motivo? O senhor trocou de operadora por que, afinal?

- Achei a logomarca da outra mais bonita.

 

Foi um erro. Jamais deveria ter usado de ironia com Ana Lúcia. Naquele momento, soube que tinha arranjado uma inimiga feroz dentro do sistema. Iniciei, então, uma batalha sinistra com a atendente da Brasil Telecom.

 

São 10h29. Ana Lúcia muda o tom de voz, torna-se fria, pragmática. Pede o meu número do CPF, a data de nascimento, o nome completo. Diz que vai “analisar” minha conta e pede para eu aguardar. Eu arrisco uma ofensiva.

 

- Você é Ana Lúcia de quê?

- É só Ana Lúcia, é meu nome de atendimento.



Escrito por Ozzymandhas às 10h53
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Ana Lúcia, da Brasil Telecom (cont.)

Silêncio do outro lado da linha. Ana Lúcia deve estar fazendo consultas no manual de atendimento. Tenta entender minha estratégia, descobrir o que está errado. Talvez até tenha chamado o supervisor. Passados seis minutos, tenho a impressão de que ela desligou. Arrisco-me de novo.

 

- Alô?

 

Ana Lúcia reaparece, tem a voz gélida. Põe em prática o tratamento dispensado pela empresa aos traidores.

 

- Aguarde mais um instante, por favor.

 

Eu aguardo. Estou disposto a não desistir. O funcionário da outra operadora, quando eu disse que iria cancelar o telefone fixo da Brasil Telecom, deu uma risadinha de dó. Segundo ele, ninguém estava conseguindo, só no Procon. Eu havia chegado até Ana Lúcia, não iria desistir agora. Fiquei aguardando. Iria aguardar até o outro dia, se necessário. Iria resistir. Ana Lúcia é o exército alemão, eu, Stalingrado. Mas não vai ser fácil.

 

- Senhor, estou verificando sua linha, ela tem muito mais economia em relação a qualquer operadora.

 

Ah, essa é Ana Lúcia. Incansável. Chego a admirá-la. Em outras circunstâncias, poderíamos mesmo ser amigos. Mas agora eu tenho que derrotá-la, e não vou abrir mão disso. Ela tenta me alertar para as “propagandas fantasiosas” das outras operadoras, do erro que estou cometendo ao abandonar a Brasil Telecom por outra empresa de “qualidade inferior”. Estranho, ela nem sabe qual é a outra empresa. Mas Ana Lúcia é assim, despreza detalhes bobos.

 

- Matematicamente falando, o senhor vai pagar excedente na outra operadora.

 

Ana Lúcia quer me enlouquecer, matematicamente falando. Mantenho a atitude, sei que ela está ferida por conta da minha ironia lá de cima, mas, principalmente, pela minha posição irredutível. Aproveito o momento de fraqueza dela. Em vão.

 

- Ana Lúcia, por favor, cancele a minha linha e me informe o número do protocolo.

- Então, continue aguardando. Mas deixe eu continuar falando sobre a sua linha.

 

Fecho os olhos. Do outro lado, Ana Lúcia recupera terreno. Fala da economia da qual estou abrindo mão, da qualidade do serviço (ela não sabe que, para instalar a linha lá em casa, passei um mês indo e vindo à Brasil Telecom). A certa altura, sai-se com essa.

 

- Trocar o certo pelo duvidoso é uma coisa incerta.

 

São 10h40. Começo a temer pela saúde mental de Ana Lúcia. Ela tem meus dados, meu endereço. Pode querer se vingar. Eu não devia ter feito aquela gracinha da logomarca. Nos cinco minutos seguintes, ela passa a alternar silêncios com um tenebroso “aguarde mais um pouco, por favor”. Às 10h45, ela tenta de novo.

 

- Tenho que preencher o espaço da justificativa para o cancelamento da sua linha. Coloco que foi porque o senhor achou a logomarca mais bonita mesmo?

 

É só uma ligação, mas pude sentir o cheiro de enxofre. Ana Lúcia é muito melhor treinada do que eu imagino. Agora ela veio com ironia para cima de mim. Por essa eu não esperava, Ana Lúcia tem reações subjetivas! Se eu fosse supervisor dela, a promovia. Mas sou só o inimigo. Preciso vencê-la.

 

- Sim, para mim está ótimo.

- E nome da operadora?

- Prefiro não falar.

- Então, aguarde. Qualquer dúvida, é só me chamar.

 

São 10h45. Estou há 35 minutos tentando cancelar uma linha telefônica. Penso em desligar. Estou cansado, o celular está queimando a minha orelha, mas penso em Ana Lúcia, vitoriosa do outro lado, a comentar com as colegas, “venci mais um”. Mantenho minha posição. Ela me pergunta se a próxima fatura pode ser mandada para o mesmo endereço. Digo que sim. Pergunta-me o número do telefone fixo da nova operadora. Digo que não é preciso. Isso a deixa realmente frustrada. A voz dela perde os agudos, parece um sussurro de morte.

 

- Então, vai ficar incompleto aqui.

 

Eu aproveito para tripudiar.

 

- Por mim, não tem problema.

 

Aguardo mais um tempo. Há seis ligações em espera no meu celular. Estou exausto, irritado, cheio de ódio no coração, mas Ana Lúcia não pode perceber. Fico pensando como deve ser viver em um país onde você não precise explicar para a atendente as razões que o levaram a mudar de operadora. Algo como “disque 7 e cancele sua linha, muito obrigado”. Em dois minutos, no máximo. Sem Anas Lúcias, sem o deboche de ter que esperar uma hora para fazer uma coisa dessas.

 

São 10h59. Ana Lúcia anuncia sua capitulação.

 

- Senhor, sua solicitação foi concluída com sucesso. A Brasil Telecom agradece, etc, etc, etc.

 

Recebo o número do protocolo de atendimento (?) e espero para dar nota ao serviço, conforme me foi solicitado, quase uma hora atrás. Uma voz mecânica me avisa:

 

- Digite “1” se a sua avaliação for “muito insatisfeito”.

 

Digitei. Aliás, esperaria mais uma hora para digitar esse “1”, se fosse necessário.

 



Escrito por Ozzymandhas às 10h49
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En Barranquilla se baila así

Assim como Israel, no Oriente Médio, a Colômbia corre o risco iminente de se transformar em uma nação odiada por todos os vizinhos e protegida por um único e poderoso amigo, os Estados Unidos. A “israelização” da Colômbia obedece a um desses procedimentos padrão do Departamento de Estado dos EUA, um misto de financiamento permanente, cooptação política e, é claro, truculência. 

Desde o fim da Guerra Fria, quando a indústria bélica americana perdeu mercados na Europa e na África, a “guerra” contra as drogas foi a alternativa ianque à vertiginosa queda de demanda armamentista. Foi uma maneira, também, de deslocar a crise do crescimento do consumo interno para as áreas de produção da coca, ainda que o resultado dessa estratégia seja, quase vinte anos depois, um desastre absoluto. 

A Colômbia continua produzindo cocaína e os americanos cheirando-a mais do que nunca. Ainda assim, minada pelo poder dos cartéis de traficantes de cocaína e disposta a trocar recursos pela extradição de criminosos para os EUA, a Colômbia tornou-se uma espécie de base avançada americana em território sulamericano, com tropas treinadas e armas cedidas por agentes da CIA, dentro da chamada Operação Colômbia – da qual, desde sempre, o presidente Álvaro Uribe se auto-proclama prócer e ativista. Não foi outra a fonte de coragem de Uribe, portanto, para entrar em território equatoriano, matar um porta-voz das Farc e, tranqüilo, regressar para os braços de Tio Sam.

O discurso de combate ao terrorismo, embora careça de elementos políticos razoavelmente dimensionados, tem cabimento pela ótica simplista do conflito entre as forças regulares do Estado e os grupos rebeldes metidos na selva amazônica, onde mantêm duas centenas de reféns e, ao que parece, fazem do tráfico de drogas a base essencial do financiamento da guerrilha. Essa, no entanto, está longe de ser a preocupação de George W. Bush, como, aliás, nunca foi preocupação de presidente americano nenhum. 

Mais do que a cocaína, é o crescimento da esquerda latino-americana o foco da preocupação e as razões do nervosismo do governo americano na região. Chávez, na Venezuela, Lula, no Brasil, Evo Morales, na Bolívia, e, agora, Rafael Correa, no Equador, tornaram-se uma alternativa política naturalmente antagônica ao imperialismo americano. Pior: de forma democrática, apesar da insistência da mídia republicana (no sentido ianque da expressão) em chamar Hugo Chávez, presidente eleito por voto direto, de ditador. 

Aos americanos, restaram Uribe, o exército colombiano infiltrado de agentes da CIA e os grupos paramilitares financiados por ela, repeteco lacônico da estratégia dos Contras, a guerrilha armada nos anos 1980 contra os sandinistas da Nicarágua – aliás, novamente governada pelo esquerdista Daniel Ortega.

Entrar no Equador para matar Reyes nada tem a ver com o combate às Farc, mas com a nova estratégia americana de evitar que Hugo Chávez e, agora, Rafael Correa, se tornem referências políticas latino-americanos permanentes e protagonistas definitivos da libertação de reféns mantidos pelos guerrilheiros colombianos. No início do ano, Uribe teve que engolir um “desagravo” a Chávez feito pelas Farc por causa da libertação de reféns, em território colombiano, mas para autoridades venezuelanas. 

Sabe-se, agora, que o presidente do Equador mantinha uma negociação secreta para garantir a libertação de 11 outros reféns, entre eles a ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt. A contrapartida colombiana a essa perspectiva foi a assimilação da Doutrina Bush Júnior em estado puro. Ao invés de se desculpar pela invasão de território – por si só, um ato de guerra –, Uribe acusou Correa de colaborar com os “terroristas” e Chávez de ter passado 300 milhões de dólares às Farc, sem falar da insinuação de que os guerrilheiros estão interessados em comprar urânio para fabricar bombas atômicas caseiras. 

Qualquer semelhança com as acusações feitas ao Iraque, antes da invasão de 2003, não tem nada de mera coincidência.

(Publicado na coluna "Brasília, eu vi" dos "Diálogos" do site da CartaCapital - www.cartacapital.com.br)



Escrito por Ozzymandhas às 15h41
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Osmar Prado chorou

Ciro Gomes uma vez disse, em entrevista à CartaCapital, que a imprensa brasileira é ruim porque, justamente, preocupa-se em demasia em fazer o que ele chama de “novelização escandolosa” da política. É um conceito generalista, mas de bom estilo, além de pertinente – aliás, pré-condição de qualquer bom conceito. Encaixa-se no recente noticiário, cheio de quadrinhos de alegria, sobre as inusitadas compras feitas com cartões corporativos, tornado uma brincadeira razoavelmente de mau gosto. Principalmente depois de a Marinha de Guerra do Brasil, acusada de comprar ursinhos de pelúcia, revelar ter adquirido, na verdade, uma ruma de panos para forrar o suporte de madeira onde se acondicionam as medalhas oferecidas a visitantes ilustres e outros tantos homenageados da força naval. A tese de Ciro se comprova com assustadora freqüência, mas às vezes a vida imita a mídia, como ocorreu em recorrente ribalta da comédia nacional, o Senado Federal, onde o grande ator Osmar Prado chorou, dias atrás.

Falo “grande” sem ironia, antes que haja um infeliz mal entendido, porque Osmar Prado é um ator de primeira linha, da safra formadora de várias gerações de atores e atrizes da TV Globo. Osmar Prado é parte indissociável de um tempo de novelas feitas para mexer com o imaginário e o espírito das pessoas, ao contrário das de hoje, escritas em tom priápico, como se toda a fantasia possível estivesse encerrada em homens sem camisa e mulheres com furor uterino entretidos em enredos constrangedoramente primários. Então, como eu dizia, Osmar Prado chorou, em frente a Ciro Gomes, porque lhe assaltou a alma a dor dos sertanejos nordestinos ameaçados pela transposição do rio São Francisco. Calou-se, diante dele, uma platéia de contritos senadores, uma comoção inusitada nascida da triste inspiração da possível desgraça futura do Velho Chico. Ainda assim, é possível haver um gesto ensaiado nisso tudo.

A transposição do São Francisco é um desses assuntos em que todo mundo tende a ter uma posição, ainda que baseada em fragmentos de notícias e opiniões difusas de políticos e especialistas, quando não em preconceitos. Para uns, será a morte do rio. Para outros, a salvação da lavoura. Virou, como tudo no Brasil, um jogo de futebol, uma disputa de torcidas. Terá, no fim das contas, um perdedor a ser humilhado, ainda que sejamos todos nós. Por isso que, além de ver Osmar Prado chorar, Ciro Gomes também bateu boca com a atriz Letícia Sabatella, indefectível musa da transposição. O instantâneo da cena, reproduzido em sites e jornais, revela a atriz de semblante crispado, em plena congestão espiritual, metida em um jaquetão quadriculado, bela e desafiadora ante o dedo meio em riste do deputado cearense, este, com certo jeito de quem dá um aviso. Ao contrário da maioria dos envolvidos no debate, Ciro parece saber do que fala, se não sabe, finge muito bem. “Há vazão suficiente no rio para se retirar os 26 metros cúbicos por segundo (de água, claro) previstos para a transposição”. É água para atender 12 milhões de pessoas, em quatro estados. Mas não irá redimir o Nordeste, avisa o deputado.

Letícia Sabatella, como se sabe, está com o bispo Dom Luiz Cappio, de Barra do Rio Grande, um antigo e culturalmente curioso município ribeirinho da Bahia. Na Guerra do Paraguai, de lá saíram cem voluntários para lutar pelo imperador Pedro II. Voltaram todos vivos. Em homenagem a eles, as festas juninas do lugar incluem representações teatrais de batalhas travadas contra os guaranis. Talvez por isso, por pisar em solo consagrado a sobreviventes, Dom Cappio tenha fracassado nas duas tentativas que fez de morrer, ambas por inanição, em chantagens mal disfarçadas de greve de fome. Em certo momento, ficou claro ao bispo que o governo Lula iria deixá-lo perecer, para desespero das beatas e certa satisfação do público em geral, sedento por um grande drama nacional. Por ter sobrevivido, contudo, o padre perdeu a credibilidade, tanto, e de tal modo, que nem a belezura de Letícia Sabatella há de lhe redimir esse passado de mau pecador.

Por tudo isso, Osmar Prado, o inesquecível Tião Galinha da novela “Renascer”, chorou em plenário.

(Publicado na coluna "Brasília, eu vi" dos "Diálogos" do site da CartaCapital - www.cartacapital.com.br)



Escrito por Ozzymandhas às 15h38
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Chamem Incitatus

Bastou uma psicodelia bem feita, o espetáculo “Alegría”, do Cirque du Soleil, para o Senado Federal perder o resto de serventia que tinha, com ele parte do Judiciário e do Palácio do Planalto. Convoco mediavelistas e babalorixás para dar uma explicação plausível para o fim tão apressado da República. Com que direito permanecem assim, com o sorriso perfeito, Gilberto Carvalho e Marco Aurélio de Mello, juntos na platéia de um evento pago pela TV Globo? É de ser refletir sobre o inusitado da dupla, um assessor de Lula e um ministro do Supremo Tribunal Federal. O que os terá unido? As cambalhotas das atrizes coreanas? A fanfarronice do palhaço espanhol? As peripécias do ilusionista maltês? É de se averiguar.

 

O ministro dançou, ou melhor, deu “umas rodadas”, conforme relatou mais tarde, com uma atriz do circo canadense. Galhofeiro, rodopiou pela ribalta atado ao corpo lânguido da artista, sob alegre estupefação da platéia presente, mas, principalmente, e muito mais, da multidão ausente. Encerrada a contradança, incomodou-se com o perfil prafrentex da parceira, esta, despudorada ao ponto de conduzir o par masculino pelo salão. “Talvez por ser uma atriz”, bem refletiu, de chofre, o magistrado.

 

O chefe-de-gabinete de Lula apelou para o fim da clausura funcional, prisioneiro que disse ser do Palácio do Planalto. Ele nunca sai de lá – e, por isso, precisava sair, é lógico, qualquer um pode entender. Por ser um eremita, o servidor nem ciência dos preços dos ingressos tomou, lapso seríssimo, porque, bem lembrou a si mesmo, muito depois do show, há um código de ética a seguir. Presentinhos só de, no máximo, 100 reais. Isso é que é ética, isso é que é país! Mas o ingresso mais barato do Cirque du Soleil custa 150 reais. Como burlar essa matemática? Como garantir essa gota de prazer em meio à escravidão do poder? “Deveria ter tomado esse cuidado”, definiu-se o chefe-de-gabinete. Uau, deveria mesmo!

 

Tem mais e pior. Uma semana antes da votação do relatório final da CPI do Apagão Aéreo (ah, esse nossa vocação para o drama), integrantes da comissão foram agraciados com ingressos do Cirque du Soleil pagos pela TAM. Inclusive o presidente da CPI, senador Tião Viana, do PT do Acre, atual presidente do Congresso Nacional. Foi o que eu disse: Tião Viana, presidente da CPI. Junto com ele, o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito. Isso, exatamente o que vocês leram: o comandante (gosto da malícia do itálico) da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.

 

Corta.  Estão todos embevecidos, dois gêmeos de Sri Lanka rodopiam no ar, se torcem nos calcanhares e, de olhos vendados, estendem as mãos no vácuo para encontrar, seguros, as hastes dos trapézios enfeitados com faixas de cor. O público solta a respiração, está tudo bem. Um espetáculo fechado, só para autoridades, uma beleza. Tudo pago pela TAM, empresa investigada pela CPI. Mas há um mágico húngaro no picadeiro. Ele usa roupas douradas e tem como ajudantes 12 elfos franceses, belgas e lituanos. São europeus, quem diria, no meio de uma algazarra tão terceiro-mundista. Ele tira um pombo do bolso, e mesmo para gesto tão banal finge fazer algum esforço. Pronto, a selecionada platéia aplaudiu. Fácil. E outros se divertiram, além do comandante da FAB e do presidente do Congresso.

 

Pedro Simon, senador franciscano, gaúcho do PMDB, fez da viagem um ato da cristandade, como de costume. Aceitou, sim, a oferenda, mas aproveitou para reclamar dos serviços da TAM. Isso, senador, pau nos vendilhões! Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo, diz ter ido a convite da produção do evento. Vindo de Suplicy, corre até o risco de ser verdade. Mas é bom verificar. Ah, gostei de Ideli Salvati, do PT catarinense, também da CPI. Riu às pregas soltas, sobretudo ao comentar o quorum nos camarotes do circo, ligeiramente mais elevado do que o de muitas sessões do Senado. Impagável. A piada, não o Senado. Nesse caso, a TAM só gastou uns 400 paus por cabeça, porque as passagens, obviamente, saíram de graça.

 

Portanto, precisamos repetir o absurdo de Incitatus, ou seja, de nomearmos um cavalo senador da República, antes que o espírito de Calígula se torne ainda mais espaçoso. Dos males, o menor.



Escrito por Ozzymandhas às 10h00
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Amo tudo, menos isso

Não sei a proximidade entre as datas do Criança Esperança, da TV Globo, e o Mc Dia Feliz, do McDonald’s, é uma coincidência, mas tem tudo para não ser. Um e outro são a celebração máxima de um processo de expiação da culpa pequeno-burguesa nacional. É quando a classe média brasileira debruça-se sobre o telefone para doar míseros 7 reais, ou gasta um pouco mais, não sei quanto, para se empanturrar de gordura e colesterol com um Big Mac, em troca de alguns trocados para alguma criancinha com câncer Brasil afora. Eu, de minha parte, prefiro dar esmolas nas ruas, para bêbados notórios e mendigos em transe, pelo menos eu vejo o destino do dinheiro. É engraçado ninguém questionar o porquê de a Rede Globo, dona de milhões (bilhões?) de dólares, e o McDonald’s, idem, não separarem todo mês um caraminguá para as crianças pobres e cancerosas do Brasil. Seria mais fácil, mais barato e mais honesto. William Bonner e Fátima Bernardes abririam o Jornal Nacional assim:

 

Bonner – Boa Noite. A TV Globo doou hoje, 15 de maio, 100 milhões de reais para 37 entidades de assistência a menores em todo o país. A próxima doação será no mês que vem, também no dia 15.

 

Fátima – Os depósitos foram feitos em conta-corrente, diretamente para as entidades, sem intermediários.

 

Bonner – Ao todo, mil e duzentas crianças serão beneficiadas.

 

Fátima – E a boa notícia é que os telespectadores não serão obrigados a ligar para número nenhum, nem agüentar um dia todo de show brega com Ivete Sangalo, Renato Aragão, Xuxa e o cantor Daniel.

 

Bonner – Boa noite.

 

Fátima – Tenham uma ótima semana.

 

O patético desses tempos é receber aqueles e-mails de convocação para o Mc Dia Feliz, também conhecido como Dia Mundial da Obesidade Infantil, quando, uma vez por ano, patricinhas e mauricinhos se dispõem a sujar os Nike Shox dourados em frente às lanchonetes de fast-food para pedir pelas criancinhas com câncer. Eu recebi um assim: “Vamos, gente, dar essa força para as criancinhas. Elas precisam da gente, né?”. Quase posso ver o biquinho da moça, a vozinha de gozo a la Hello Kitty, tomada de súbita piedade social. Agora, juntar a turminha do shopping para ajudar na colheita, ninguém quer. Nem mesmo recolher o lixo no cinema, quando o filme termina. Não tem o mesmo apelo high school, nem aquela sensação maravilhosa de ajudar os pobres e os doentes, sim, mas bem de longe.

 

Quem quiser ajudar de verdade, leva uma moeda para o mendigo Mandrake, pedinte fiel e assíduo das sinaleiras da Asa Norte de Brasília. Não tem erro nem enrolação. Mandrake não é criança, nem tem câncer, embora sofra um bocado com a falta de dentes, a sarna e a péssima nutrição. Só não arrisque falar em Big Mac. Mandrake tem dentadura precária, mas continua com a língua afiada. Vai mandar você enfiar o sanduíche no cu, porque o negócio dele é mesmo – pasmem, dondocas! – cachaça.

 



Escrito por Ozzymandhas às 17h08
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Dia de cão

Coisa que me emociona é história de cadelinhas vira-latas que salvam crianças de ataques de pitbulls. Outro dia foi em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A cadelinha Milu, uma vira-lata de pelagem curta, marrom e branca, dessas cachorras bem ordinárias, arrancou o couro da garganta de um pitbull em pleno acesso de fúria. Era o Mal personificado por dentes cravados na junta de joelho de um menino de 11 anos. O garoto talvez perca alguns movimentos parciais da perna. Ao ver o menino em enorme sofrimento, a cachorra atravessou a rua como um foguete, em vias de ser atropelada, e pulou direto na jugular do ferocíssimo cão. Ferido de morte, o pitbull largou a perna da criança e soltou um longo e doloroso ganido.

 

Tinha os olhos injetados de sangue cor de vinho quando virou o pescoço no limite da musculatura e mordeu uma orelha da vira-lata. Milu, três anos de rua, acostumada a garantir as refeições na base do pega-e-corre, acusou o golpe, mas em vez de arregar, apertou mais forte o pescoço do inimigo. Ouviu-se o som surdo de duas travas. A primeira, da oclusão perfeita e letal das mandíbulas da cadelinha. A segunda, da traquéia do pitbull virando geléia, se me permitem a assonância. Milu perdeu parte de uma orelha, mas foi adotada pela família do menino salvo, sendo enviada, tempos depois, para viver num sítio da família. Se tudo der certo, a vira-lata terá garantido para si, graças a um ato desvairado de coragem, casa e comida até morrer. Deve haver uma lição nisso.

 

Nessas coisas residem o sucesso do livro Marley e Eu, que não li, nem pretendo ler, por pura inveja. Difícil não se emocionar com essas histórias de cães heróis, porque temos essa proximidade emocional com os cachorros, criaturas que nos enchem de amor apenas porque gostam de comer, bem e muito, sem fazer esforço. Eu vivo com duas cockers spaniels, cães hiperativos e famélicos que vivem, permanentemente, com os ânimos exaltados. São mãe e filha, mas roubam comida uma da outra, brigam, rugindo como leoas, no meio da madrugada, latem pelas escadas do prédio, destroem os jardins plantados pela síndica, e cada uma a seu tempo destruiu boa parte do mobiliário da casa. Cansadas, dormem no sofá da sala, ou o que sobrou dele, porque a mais nova fez dois enormes buracos no estofamento. Ambas apanharam de cinto nos quadris para aprenderem a não subir no sofá. Ou elas são burras o suficiente para não fazer a associação entre o ato e a dor, ou são inteligentes o bastante para perceber que me sinto culpado o suficiente para não bater nelas outra vez. Não sei como Marley se sentiria nessa situação, mas as duas voltaram a dormir no sofá a sono solto.

 

A mais velha, quando está no cio, corre para cima até de yorkshire, vira a bunda, dobra o cotoco de rabo para o lado. Já cruzou, à revelia de minha vontade, com um outro cocker na pracinha infantil da quadra, em frente de meia dúzia de crianças. De outra feita, deixou-se possuir por um bichon frisé na frente de outros cães e pessoas, num gramado público da Asa Norte, quando tudo indicava que o cio já tinha acabado. Passou vinte minutos grudada com o amante, um de costas para o outro, cada qual com aquele olhar de paisagem tão caro aos do mundo canino. A mais nova só teve um cio. Todos os cachorros que tentaram se aproximar foram violentamente repelidos por dentes arreganhados, novinhos em folha. Ambas já morderam crianças. Duvido que a história de Marley seja mais emocionante do que a delas, uma comprada na feira por 120 reais, outra nascida no quartinho da dispensa aqui de casa.

 

Mas Marley é americano, tem pedigree e a bossa de todo labrador. E, possivelmente, um dono mais talentoso.

 

 



Escrito por Ozzymandhas às 15h45
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Brasília, 47

Aos 47 anos, Brasília não é, nem poderia ser, uma cidade. Uma cidade precisa de pelo menos um século de existência para deixar de ser um aglomerado vil de almas e ruas, prédios e jardins. Uma cidade só existe como tal quando se movimenta pelas fendas do tempo, como placas tectônicas, em ritmo de autodestruição permanente. Uma cidade só existe, de fato, quando assume as rédeas do destino. Quando tem vontade própria. Brasília não tem nada disso, por enquanto.

 

Muito se fala da grandeza da obra de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, embora a participação histórica de ambos só seja clara para os que por aqui vivem, envoltos que são na aura de folclore das histórias da fundação da capital. O arquiteto e o urbanista, senhores das formas de Brasília, tornaram a cidade escrava das vontades originais, um lugar de desejos tombados, ansioso por mais esquinas e menos catedrais. Brasília precisa vencer o orgulho dos pioneiros, sem esquecê-los.

 

De certa forma, Brasília ainda é uma cidade em construção e um posto avançado das burocracias regionais, das quais absorve a má fama. Muitos pedem o fim de Brasília, querem vê-la em ruínas, como se a destruição da capital pudesse redimir os erros das hordas de picaretas e punguistas do Erário enviadas para cá por eleitores de outras unidades da federação. Brasília se defende nas trincheiras dos sotaques e dos vícios resguardados dos guetos regionais. Não há no brasiliense uma característica essencialmente local, algo capaz de identificá-lo na multidão. Assim como a cidade, os nativos carecem de modos definitivos. Ainda é cedo.

 

Aliás, cedo e complicado, porque Brasília, assim dito, não é uma cidade, mas um castelo entre feudos, cercada do que se convencionou chamar, tristemente, de cidades-satélites. Desde o início, definiu-se que os pobres, os excluídos, os remediados e o lumpesinato teriam, literalmente, que gravitar em torno dos monumentos de Niemeyer, dos gramados bem cuidados e das luzes sempre acesas do Plano Piloto, zelosa confraria de superquadras.

 

Gostam, os políticos locais, de vender Brasília como sinônimo de Distrito Federal. É parte de um discurso cínico cujo objetivo é usar uma graça do detalhe – a capital tem a melhor qualidade de vida do país – para criar uma ilusão sobre o todo. Tentam esconder sob as asas e quadras verdejantes do Plano Piloto a melancolia da periferia e do entorno, o caos sufocante da poeira e da violência das satélites. Como a dizer por aí que essa periferia não lhe pertence, é um mato alheio, filha bastarda dos ideais da capital.

 

Brasília, ainda assim, cresce, nem sempre bem, para os lados, Cerrado adentro, como fazem as cidades. No futuro, é claro, a capital vai se ressentir de ter crescido, ainda cedo, para alimentar redutos eleitorais, onde seres humanos foram confinados em granjas virtuais. Não deveria ir longe uma cidade sitiada por gente tragada pela folia de um sonho de terra e moradia, um sonho sem fim. Mas Brasília também serviu para isso, para ceder as bordas e as divisas aos interesses do povo. E teima em crescer, ora pela boa vontade dos homens, ora pela sanha da especulação imobiliária.

 

Do alto da Torre de TV, não se diferenciam mais as asas, há muros e prédios demais. O horizonte não é mais de terra vermelha banhada de sol, mas de imensas lagartas habitacionais, os condomínios, estacionadas sobre a terra, paródias dos quartéis de classe média roubadas de outras cidades, estas sim, de verdade. Brasília avança, mas nem sempre sobre o futuro, mas sobre nascentes e florestas.

 

Brasília se mexe e, às vezes, dá a impressão de que vai cair.



Escrito por Ozzymandhas às 10h54
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Idiotas

Falei, recentemente, sobre a grande quantidade de idiotas que existe no mundo, o que não suscitou qualquer polêmica nos meios acadêmicos, quiçá entre os intelectuais da nova direita nacional, por ora alojados em diversas redações e logradouros do tipo. Ainda assim, imerso em pretensa perspectiva de direito de resposta, me adianto aos críticos por meio de provas colhidas, aqui e acolá, que demonstram claramente ter havido, quando do início dos tempos, uma estranha disposição do dito criador em criar tantos e sortidos idiotas. Senão, vejamos.

 

BBB7 – Selecionados por serem, basicamente, retardados mentais instados a ganhar músculos e vulvas polpudas, os brothers and sisters circulam seminus pela casa, trocam grunhidos, rangem os dentes, suam em provas boladas por dementes bem pagos e, finalmente, se acasalam sob edredons. Nenhum deles, claro, sabe a origem da expressão Big Brother. O único que sabe é Pedro Bial, mas ele não conta, só de sacanagem.

 

BORAT – Teve gente que não entendeu o filme. Teve gente que não entendeu as piadas. Teve gente que achou o filme anti-semita. Teve gente que achou antiético ele sacanear George W. Bush e os republicanos dos Estados Unidos. Olha só o tanto de idiota mal humorado.

 

DEMOCRATAS – Entre os americanos, tem um significado quase à esquerda, embora seja um partido tão interessado no resto do mundo quanto as filhas de Bush. No Brasil, o termo virou uma piada nas mãos do PFL. Prova de que há idiotas bem humorados.

 

SUZANA VIEIRA – Casou-se com um belo idiota que, como todo cavalo de exposição, trotou garboso pela avenida, mas não sem deixar um rastro de grossas camadas de merda para trás. Um policial doidão, enchendo uma puta de porrada num motel vagabundo. A atriz global é prova viva de que o amor, ainda mais depois dos 60, faz qualquer um de idiota.

 

SERTANEJOS – Eu sei, é covardia. Mas não podia negar-lhes um lugar nessa lista. Afinal, os caras fazem a trilha sonora da tribo.

 

O MILÉSIMO GOL DE ROMÁRIO – Poucas vezes uma fraude foi tão levada a sério pela imprensa brasileira. No Brasil, basta que um bípede faça maravilhas com uma bola para transformar a nação num bando de idiotas. Prova disso foi, anos atrás, o milésimo gol de Pelé.

 

FASHION WEEK – Trata-se, literalmente, de um desfile de idiotas. Nada contra o evento, que tem sempre umas gostosinhas com os peitinhos de fora, mas porque dá dó ouvir uma modelo falando. Tipo assim, retardadas. Um charme.

 

PRIMEIRO DE ABRIL – É o dia que os idiotas tiram para fazer brincadeiras idiotas com os outros. Não reclamo. O movimento concentrado facilita a contagem.

 



Escrito por Ozzymandhas às 22h14
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O carteiro pensou na revolução

O homem que sentou ao lado do carteiro tinha a pele curtida de dor, via-se logo. A negra cabeleira estendia-se como um estofo de bombril sobre a caixa craniana, acima da testa e até a nuca, um emaranhado de pragas urbanas. O homem era um mendigo e logo dormiu, manso, no compasso do sacolejo do ônibus. O carteiro ficou alheio, na distância absoluta entre o real e o irreal, nem mesmo deu um olhar de soslaio. O carteiro nada sentiu. Mais uma hora e um quarto, e ele estaria na central dos Correios, a matinal rotina dos carteiros à espera do fim da triagem. Tatuam-lhes os CEPs na mente e mandam que sigam. Todo dia, todo dia, menos naquele dia.

 

Naquele dia, o carteiro agachou-se para encher a mochila de cartas e deixou cair uma gota de ódio no chão frio do pátio de distribuição. Viu as correspondências sem mesmo uma letra morta de amor, só contas, extratos, faturas, avisos tenebrosos de multas, despejos, funerais. Era mesmo inútil levar tudo aquilo, todo dia, aos mesmos lugares. Não havia mais cartas de amor, nem de saudades distantes, nem cartões de natal, nem poesia, nem nada. O carteiro sentou o corpo magro, subitamente envelhecido, ao lado da mochila verde lotada de papel e correias de segurança. Pensou na gorda mulher prostrada na cama úmida da casa, os filhos empilhados no quarto, no silêncio do seu cansaço. E, então, o carteiro pensou em revolução.

 

Tinha os bolcheviques em mente, embora vá morrer sem nunca ter noção do significado disso. Pensou, mesmo sem saber, numa revolução antiga e fracassada, porque o carteiro nunca soubera dela, nem de outras. O carteiro não conhecia revolução alguma. Para ele, aquela era uma idéia novíssima, revolucionária, enfim. Ergueu a mochila a uns dois palmos no chão e virou todas as cartas no piso, não de uma vez, mas devagar, deixando-as cair como folhas secas num dia sem vento. Meia dúzia de outros carteiros observaram o colega, quietos, respeitosos, como a saber que, naquele dia, nada mais seria como antes. Então, sem uma ordem entre eles, cada um virou sua mochila, no ritmo ditado pela pioneira revolução do carteiro. Em poucos minutos, todo o pátio estava coberta de uma neve postal de cupons e envelopes. O carteiro largou a mochila e aspirou, pela primeira vez, o gás da impertinência. Postou-se como um profeta e ditou, como um iluminado:

 

– Não há cartas que valham nosso sacrifício. Deixem que os destinatários venham até aqui buscá-las. Que ouçam as nossas vozes uma vez que seja. A revolução deve começar com sangue.

 

E foi mesmo uma profecia. Antes de dar caminho aos súditos e tomar posse do setor de triagem, o carteiro valeu-se da tradição de poder de todo líder carismático e decretou a morte do supervisor, a quem creditou todos os males e mazelas do dia-a-dia, inclusive a péssima qualidade do papel higiênico dos sanitários. O carteiro nunca tinha matado uma galinha, mas fez dos métodos um novo decreto, este como documento explícito da execução, que deveria ser a pauladas na cabeça. O carteiro apenas o disse, como uma ordem, e não houve quem se opusesse ao grande líder.

 

O supervisor era um homem de meia idade, careca e de papadas adiposas que lhe davam um ar de bulldog. Mas nem por isso merecia morrer. O carteiro não pensava assim. A caminho da sala do supervisor, chegou a comentar com seus recém-nomeados assessores mais próximos a possibilidade de torturar o supervisor antes de matá-lo, fazê-lo confessar os crimes e, assim, livrar-se de uma culpa de consciência improvável. Os assessores assentiram como poodles amestrados e foram atrás de opções de martírio. Acharam um alicate de bico fino e uma bomba de dedetização.

 

O carteiro parou em frente à porta do supervisor. A multidão veio logo atrás, centenas de carteiros que encheram o corredor como a uma lingüiça. O carteiro mandou que se calassem, e assim foi, fez-se um silêncio de respiração. Lá dentro, ouvia-se o choro fino do supervisor. Um celular tocou e ele atendeu, aos prantos. O carteiro pôs o ouvido na porta, fixou-se com grande interesse por mais de um minuto, fez uma carranca séria e proferiu:

 

– Hoje, libertaremos nossas vidas das mãos desse covarde.

 

A turba derrubou a porta e ficou à espera das ordens do carteiro. Este, altivo como um César, olhou para o supervisor, apavorado e encolhido numa cadeira de couro. Os assessores entraram correndo com os acessórios, alicate e bomba de matar mosquito. O carteiro reinstaurara o Santo Ofício, mas ai de quem tentasse lhe explicar isso. Era, outra vez, uma idéia pioneira, pelo menos na cabeça dele.

 

O carteiro ainda iria pagar por aquilo, mas não naquele dia.



Escrito por Ozzymandhas às 22h45
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O carteiro acordou cedo

O carteiro acordou cedo, cedíssimo, antes do sol, com a lua ainda a vagar nas primeiras cores da aurora, crente que aquele seria um dia como outro qualquer. Sentou na beira da cama sem sequer olhar para a mulher ao lado, companheira de tantos anos, um trapo entre trapos, flácida, gordurosa, a decadência em pessoa. Anos atrás, muitos deles, era uma moça bonita, de seios pequenos e coxas roliças, mas tudo durou pouco. Bastou uma renca de filhos e duas décadas de rotina e pronto, embagulhou de vez.  Um horror. Os seios miúdos viraram pelancas macilentas, as coxas, dobras adiposas de carne de segunda.

 

Naquela manhã, o carteiro nem pensou, na verdade. Apenas acordou e seguiu sua sina de homem pobre e comum, mais um dia, mais um dia, ordinário e comum. Ficou em pé sem supetão, só o reflexo, mais nada. Coçou a barriga protuberante, checou os culhões e foi mijar, um mijo longo, demorado, mirado com dificuldade pela contingência erétil. Acertou duas ou três jorradas na tampa da privada, mas o resto foi na água. Recompôs-se como pôde e se entregou à higiene matinal, dentes e cabelos, poucos, ambos. Na casa de dois cômodos, atulhavam-se no quarto anexo quatro criaturas perdidas, dois meninos e duas meninas. Eles, uns tocos de gente ainda nas calças curtas. Elas, moiçolas quase na puberdade prudentemente escondida ainda por roupas de infância. Dali a pouco iriam acordar do transe noturno, única hora feliz daquela quadra de vida, posto que morta.

 

A cozinha esbanjava tristeza, como sempre. Sobre a mesa de fórmica azul, uma toalha florida de plástico, encardida por refeições gordurosas e marcas de panela quente. Fez ranger as portas metálicas do armário de mantimentos onde escondiam-se umas poucas latas de açúcar, café, farinha, arroz, feijão e biscoito de goma. Botou a água para ferver e ficou no alpendre, a vista colada no nada, esperando amanhecer. Sorveu café preto com umas bolachas e pôs-se a vestir a roupa azul e amarela às pressas, atrasado que sempre estava para a caminhada tortuosa de lama e mato até o ponto de ônibus. Não beijou a mulher nem os filhos, nem fez o sinal da cruz. Apenas tomou o rumo conhecido de sua própria desgraça, fazendo barulho ao sair. Assim era a vida do carteiro.

 

Pelo menos até aquele dia.



Escrito por Ozzymandhas às 22h56
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Apertem os cintos

As viagens de avião me têm servido, entre outras coisas, para reforçar a antiga tese de Voltaire sobre a preferência de Deus pelos idiotas, haja vista tê-los criado em grande quantidade. Voltaire, que nem de trem viajava, não viveu para ver o bando de idiotas que se levanta antes de a aeronave terminar de taxiar na pista, como dizem os comissários de bordo. Arriscam-se, idiotas que são, a desabarem uns sobre os outros no caso de um freio inesperado na manobra final, junto aos fingers.

 

Sem querer me comparar a Voltaire, mas disposto a modernizar a brilhante e comprovadíssima tese do pensador francês sobre a maioria idiota, vou mais além. Por desfrutarem do status de maioria, os idiotas têm o poder de influenciar, sobretudo, os passageiros estressados. Porque, como todos sabem, o estresse é um fator de idiotização social de grande eficácia. Tanto que, nos aeroportos, basta que uma voz esganiçada anuncie chamadas para vôos domésticos e logo começam as turbas a correr aos portões de embarque, assim como refugiados famintos atacam comboios da ONU em países da África. Isso quando já não estão lá, em fila indiana, por medida preventiva. Amargam, em pé, uma espera sem sentido, com bilhetes de poltronas marcadas nas mãos, os idiotas, por até meia hora antes do vôo. Brigam, em última instância, para entrar primeiro no avião! Mais ainda: o fazem para encarar outra fila, a do finger, esta, sem ar condicionado, e, em seguida, ficar com cara de panaca, sentado naquelas cadeirinhas estreitas, olhando os demais passageiros entrarem na aeronave. Ah, os idiotas.

 

Uma vez acondicionados no avião, há os idiotas que se ocupam em achar o melhor lugar para a bagagem de mão, que nem sempre é o maleiro imediatamente acima dele. É hábito corrente entre eles o de não despachar bagagem alguma, mas separá-las em diversas malas e embalagens menores, carregadas como fardos de lavadeiras corredor adentro. E por que não despacham as bagagens? Para evitar as esteiras de malas e sair correndo do aeroporto, ainda que, para tal, tenham que circular entulhados de mochilas, maletas, sacolas e berimbaus.

 

Assim que o avião aterrissa, os idiotas fazem questão de desatar os cintos de segurança e se levantarem, justamente, quando os comissários anunciam que ninguém deve desatar os cintos e se levantar até que a aeronave esteja completamente estacionada no pátio. Não interessa. Para o idiota, é fundamental se levantar primeiro, correr para pegar as bagagens de mão e, depois, passar vinte minutos em pé, com o pescoço dobrado entre o espaço da poltrona e o bagageiro interno, esperando as portas serem abertas. São vinte minutos espremidos, arrancando as bagagens de mão por sobre os concorrentes. Uns ficam ofegantes, outros estabelecem diálogos bizarros enquanto apressam-se em buscar uma vaga no corredor.

 

- Vai, bem, levanta senão a gente sai por último!

- E qual o problema?

- O problema é que eu não quero ser a última a sair do avião!

 

Claro, um pobre marido, monstro da minoria, a questionar as razões dos idiotas. Afinal, qual o problema de ser o último a sair de um avião parado no pátio? Não é melhor ficar confortavelmente sentado até que as portas sejam abertas e a saída seja autorizada pelos comissários? Eu mesmo adoro fazer uma sacanagem. Sento na poltrona do corredor (ou na do meio, se não der) e, assim que o avião pára, não mexo um único músculo. Fico ali, sentadão, olhando para frente. O idiota sentado na poltrona da janela começa a enlouquecer.

 

- Você vai descer aqui?

 

Silêncio.

 

- Com licença, o senhor vai descer aqui?

 

Silêncio.

 

- Escuta, eu preciso descer aqui!

- Eu também. Só estou esperando os comissários abrirem a porta e autorizarem a saída.

 

Diante de tamanho cinismo, os idiotas, ou se resignam, ou pulam por cima de mim. Já de celular ligado.

 

Em todo caso, é sempre um prazer ver um idiota em apuros.



Escrito por Ozzymandhas às 10h20
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Crianças no inferno - Parte 2

Gira a roda do tempo. Estou, às vésperas do natal, no supermercado lotado, a gripe querendo chegar, aquela meia febre que se anuncia na espinha. Há centenas de pessoas se digladiando por sabonetes baratos à minha direita. Instadas pelo instinto de sobrevivência, as pessoas correm para lá e para cá à procura de ofertas e deixam os carrinhos no meio das passagens. Os mais exaltados atingem os calcanhares alheios, mas não há tempo de se desculpar. É a guerra. Uma voz no alto-falante anuncia a pechincha de uma máquina de fazer pão: R$ 290,00. “Ah, quem vai comprar uma merda dessas?”, penso. Em dez minutos, a voz brada, como um locutor em fim de campeonato: “Acabou! Acabou! Foram vendidas as 30 máquinas de fazer pão exclusivas!”. Minha febre piora um pouco.

 

No setor de hortifrutigranjeiros, o caos está instalado. Há famílias inteiras enchendo sacos de legumes, frutas e verduras. E crianças, muitas crianças. A classe média, como se sabe, só bate em crianças quando não tem ninguém olhando. Então, os moleques corriam, chutavam tomates, gritavam e choravam certos  da impunidade. Os pais, impedidos de lançar mão de bolachas e beliscões, ficaram histéricos. Coisa linda de se ver.

 

- Se você pegar mais alguma coisa a gente vai resolver isso em casa!

- Eu quero ir embora!

- Vai lá ficar com sua mãe!

- Eu quero ir embora!

- Ajuda a empurrar o carrinho, eu deixo.

- Eu quero ir embora!

- Toma, bebe essa merda de toddynho!

- Depois a gente vai embora?

- Não, não vamos. E pára de reclamar porque você está me irritando!

- Uááááááááááá!

 

Centenas, centenas. Há os que levam uns bem pequenos, naqueles carrinhos que simulam pequenos veículos plásticos infantis, e outros que se arriscam com recém-nascidos. Estes, só choram. Querem colo, são surpreendidos mordendo a garrafa de água sanitária, sofrem com o calor e o barulho. Os pais, sufocados pelo drama, começam a se odiar, empurram as crianças uns para os outros, discutem, trocam insultos. Fico pensando em quantos casamentos começaram a se desfazer nessas brigas de supermercado.

 

- Toma, pega ela aqui enquanto eu procuro o xampu.

- Não, pode deixar que eu vou lá.

- Não, eu vou. Eu sei onde fica.

- Eu também, e aproveito e pego o pão.

- O pão, não! O pão eu que pego! Quer fazer o favor de pegar essa menina no colo? Ei, volta aqui!

 

Na minha frente, um casal de obesos hesita em passar no caixa a máquina de pão. As compras ficaram em quase trezentos paus. Com mais a inútil máquina de pão, capaz de o natal se complicar. A mulher (sempre a mulher) tenta colocar os pés do marido no chão.

 

- A gente precisa mesmo disso, bem?

- Claro, olha o que a gente vai economizar fazendo o próprio pão!

- Mas pão é tão baratinho...

- É, mas estou falando de pão de qualidade. A gente divide no cartão. Pode dividir, não pode?

 

O atendente do caixa assente com a cabeça. Está exausto. O calor está insuportável, assim como o barulho. Ele quer mais é que o casal de gordos se foda e morra empanturrado de pão. Mas mantém a calma – e o emprego. Fala em dividir em quatro vezes. O casal se entreolha. A fila começa a pressionar. Minha febre piora. Penso em pagar a porra da máquina de pão para eles. A mulher (sempre a mulher) toma a iniciativa.

 

- Tá, vamos logo.

 

E pagam a máquina de fazer pão. Em quatro vezes. Atrás de mim, um menino começa a chorar. Lembro da aurora da minha infância, de minha mãe nervosa com a possibilidade de ter que devolver alguma coisa por falta de dinheiro, ali, na boca do caixa. Naquele tempo, naquela hora, toda criança se calava. Um tapão, na fila, era sempre mais humilhante.



Escrito por Ozzymandhas às 09h25
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Crianças no inferno - Parte 1

Para mim, ainda é um mistério o fato de alguns pais levarem crianças ao supermercado, sobretudo essas famílias de classe média que fazem compras monstruosas enquanto roubam doces e comem castanhas e polenguinhos entre as prateleiras. Poucos lugares são tão odiosos para uma criança como um supermercado cheio, barulhento e repleto de tentações inalcançáveis. Quando eu era pequeno, e os pais tinham ampla liberdade para bater nas crianças, supermercados eram uma espécie de pelourinho infantil. Lá, entre berros e tapões na cabeça, os petizes eram introduzidos na arte do não-pedir, não-tocar, não-mexer-em-nada-moleque-atentado.

 

Era um tempo de espancamentos consumados aos poucos. Começavam no primeiro incômodo, o da cadeirinha do carrinho de compras. Na verdade, tratava-se de se utilizar aquele espaldar com mesinha para ovos e carnes como banco. Na frente dele, abriam-se duas passagens para as pernas dos pequenos. Eu tinha pernas gordas e macias, que logo ficavam dormentes e formigando naquela gaiola. Em 15 minutos, vinha o primeiro beliscão de mamãe. “Fica quieto, menino!”. Isso, sem falar que, há mais de 30 anos, quando comecei a freqüentar o Paes Mendonça, em Salvador, as filas duravam horas porque cada preço era datilografado numa máquina mecânica. E não havia sacolas de plástico, mas de papel pardo, sem alças. Aliás, essa era a rãzão de se levar os meninos às compras, para ajudar a carregá-las.

 

O primeiro tapão, de verdade, só quando exausta, entediada e estressada, a gurizada começava a pedir coisas.

 

- Posso pegar sucrilhos?

- Não.

- Posso pegar chocolate?

- Não.

- Mãe, pega a laranjinha!

- Não!

- Olha, mãe, posso tomar esse toddynho?

- Bota isso de volta lá, peste!

 

E tome bolacha na orelha.



Escrito por Ozzymandhas às 09h21
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