Simon

Gastei hora e meia do dia, na semana passada, no gabinete do senador Pedro Simon, do PMDB do Rio Grande do Sul. Fui como repórter, interessado em ouvi-lo sobre a decadência do debate político no Congresso Nacional, mas a conversa com Simon é sempre uma oportunidade a mais de se estabelecer melhores parâmetros para o entendimento da política no Brasil. Trata-se de um político em extinção, orgulhoso da própria biografia e apegado a velhos valores de relacionamento e comportamento moral, embora esteja longe de ser um moralista. Não temos qualquer outra relação, eu e Simon, a não ser esta, eventual, de jornalista e fonte, mas tenho sempre muito prazer em ouvi-lo, embora ele só tenha uma vaga idéia de quem seja eu. O senador, no entanto, é um admirador da CartaCapital, além de ter como assessor de imprensa um jornalista de verdade, Luiz Cláudio Cunha, este sim, meu amigo e guru.

 

Ser um repórter desconhecido dos parlamentares, aliás, é o meu trunfo no Congresso, além de reforçar minha tese de que a única forma de cobrir política, no Brasil, é não tendo relação alguma com os políticos. A intimidade, quase sempre falsa e forçada, entre repórteres e parlamentares no Congresso está na origem da cobertura aborrecida e inútil da rotina parlamentar, estampada burocraticamente no noticiário. O jornalismo no Congresso é feito em bando, com dezenas de jornalistas ouvindo as mesmas fontes sobre os mesmos assuntos, diariamente. As tentativas de se descolar da manada nem sempre são felizes, baseadas muitas vezes na bajulação ou na submissão de interesses em troca de migalhas de informação. Quando não na exibição patética de gritinhos e interjeições melosas. Raras e honrosas exceções, como essa saborosa e impecável cobertura do site Congresso em Foco (www.congressoemfoco.com.br) sobre a farra de passagens aéreas, servem apenas para reforçar a minha visão. Para coisas assim, os chamados repórteres “setoristas” trabalham com uma venda nos olhos. Depois, têm que caminhar a reboque.

 

Pedro Simon, aos 78 anos, é lúcido e positivo, mas sabe que os modos de sua geração estão caindo em desuso, sobretudo em um Senado Federal onde as grandes lideranças políticas são protagonizadas por José Sarney e Renan Calheiros. Na noite que o encontrei, ele tinha acabado de descer da tribuna de onde tinha desancado o PMDB, partido do qual é uma espécie de membro fantasma. Estava revoltado com a postura de seus pares com relação às medidas moralizadoras levadas a cabo na Infraero pelo brigadeiro Cleonilson Nicácio, por ordem do ministro da Defesa, Nelson Jobim. O velho senador estava de estômago embrulhado com a reação do partido ao corte de quase uma centena de cargos na estatal dos aeroportos, a maioria dos quais ocupados por afilhados e parentes de peemedebistas. Indignação totalmente fora de moda no Congresso, ainda mais no PMDB. Aí eu fiz uma pergunta que há muito tempo eu queria fazer:

 

- Senador, porque o senhor não sai do PMDB?

 

Simon tem olhos claros e aguados que contrastam de forma interessante com a pele sempre bronzeada e os cabelos brancos. O conjunto lhe dá a aparência simpática e acolhedora de um mouro sábio. Nessas horas, ouve a tudo com um sorriso maroto que ele, invariavelmente, engatilha antes de responder a uma pergunta embaraçosa. Dá um suspiro de lado e desembaralha as mãos sobre a mesa, uma gesticulação muito típica dele.

 

- Sair do PMDB e ir para onde?

 

Normalmente, me irrito quando o entrevistado me responde com uma pergunta. Mas, no caso de Pedro Simon, o expediente serviu para gerar uma resposta precisa, mais ainda, uma síntese da encruzilhada em que ele e a política nacional se meteram. Em um Congresso comandado por malandros e nulidades, com um espectro de atuação reduzido a uma exposição permanente de escândalos de bordel, a saída de Simon do PMDB não faria diferença nenhuma.

 

Aliás, a única diferença possível no Congresso é, justamente, a presença de Simon.



Escrito por Leandro Fortes às 11h55
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Brasília, inesquecível

Não deixa de ser curioso constatar o clima de Baile da Ilha Fiscal que cercou, literalmente, a impressionante manifestação popular levada à cabo na noite de hoje, 6 de maio de 2009, na Praça dos Três Poderes, em frente ao Supremo Tribunal Federal, aqui em Brasília. Logo cedo, o ministro Gilmar Mendes, alvo dos manifestantes, mandou colocar cercas em todo o perímetro do STF com a inacreditável desculpa de que seria preciso preservar o ambiente para um evento noturno, a apresentação de um anuário jurídico publicado pelo jornalista Márcio Chaer, do site Consultor Jurídico. Chaer e Mendes são amigos, mais que amigos, fraternos aliados empenhados em uma simbiose ideológica travestida de relação jornalística. Difícil é definir quem é a fonte de quem. 

Quis o destino que a tertúlia do Conjur, montada para dar um ar de naturalidade a uma noite de protestos anunciados, surtisse um efeito perversamente oposto, alçada que foi a farra a pano de fundo perfeito para as luzes de milhares de velas acesas em frente ao STF. Graças ao convescote, os manifestantes puderam perceber a presença física, ainda que à distância, de Gilmar Mendes. Àquela altura, o presidente do STF já estava amargamente arrependido de ter apostado no fracasso da manifestação. Mais cedo, ele havia relegado o movimento a uma ação de inimigos dos quais, em mais uma de suas declarações infelizes, disse se orgulhar. Com Mendes na mira, vieram as palavras de ordem, gritadas a pleno pulmão. Ele ouviu.

 

Coisa linda é uma manifestação noturna com 10 mil velas. Pelo menos duas mil pessoas passaram pela Praça dos Três Poderes para participar, olhar ou só constatar o que estava acontecendo em meio àquela alegre balbúrdia de luz. Os carros normalmente indiferentes ao rush da capital federal buzinavam, em apoio aos manifestantes. Pessoas desciam dos ônibus para prestar solidariedade. Ele viu.

 

Que ninguém se engane. Esta noite, algo se quebrou em Brasília.

 



Escrito por Leandro Fortes às 00h22
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Silêncio capanga

Li na Folha de S.Paulo uma admoestação do ombudsman, dirigida à redação, na qual ele manifesta estranheza pelo fato de os jornalistas de lá não terem se debruçado sobre a fala do ministro Joaquim Barbosa, do STF, aquela sobre os “capangas” do colega Gilmar Mendes, presidente do referido tribunal. De minha parte, estranheza nenhuma. A fonte do desabafo do juiz Joaquim é uma matéria da CartaCapital, de minha autoria, publicada em novembro de 2008. E a Folha, assim como os veículos co-irmãos da chamada “grande imprensa”, não repercutem as reportagens da Carta, embora não meçam esforços para reproduzir – de forma acrítica e sem apuração própria – pautas publicadas em outras revistas, como se notícias fossem, ainda que claríssimos atentados ao bom e velho jornalismo de guerra. Bom esclarecer que na reportagem em questão não acuso Mendes de ter capangas, mas apenas faço um relato preciso – jornalístico, por assim dizer – da realidade política da escaldante Diamantino, no Mato Grosso, cidade natal do atual presidente do STF. Uma realidade marcada por um histórico nascido na ditadura militar e reforçado a partir da entronização de Gilmar Mendes, no governo Fernando Henrique Cardoso, na Advocacia Geral da União.

 

A omertà em torno da CartaCapital tem várias razões, mas sustenta-se em um pretexto. Entre as razões, nenhuma minimamente jornalística, daí a necessidade do pretexto, este calcado na suposta irrelevância da tiragem da revista, quando não na sua identidade ideológica cafona, de esquerda. Eu, de minha parte, acho graça. Em mais de duas décadas de reportagem, com passagem por quase todos os grandes veículos de comunicação do país, nunca fui tão reverenciado como jornalista como nesses anos de Carta. Nas muitas palestras que faço Brasil afora, principalmente por conta de minha atividade como professor de jornalismo, percebo uma curiosidade enorme das audiências a respeito desse silêncio. “Por que os jornais não repercutem a Carta?”, me perguntam em auditórios, em salas de aula, em particular. Respondo com outra pergunta, expediente, aliás, que não me agrada: “Repercutir para quê?”.

 

Dentro da acepção canhestra e doutrinária do pensamento único, repercutir a Carta é dar vazão a uma voz jornalística subversiva, perigosamente empenhada em nadar contra a corrente, a colocar os cornos para fora e acima da manada, tal qual a vaca profana da canção de Caetano. Profaníssima, há de se ressaltar, no caso em questão, a ousar escrever sobre o ministro Gilmar Mendes, justo quando todo o resto se compraz em dar-lhe voz e espaço na luta contra um certo “Estado policial” muito parecido, em semântica e progressão epidêmica, com essa gripe suína que já matou, desgraçadamente, até última contagem dos urubus de plantão, 0,0000000000000000000001% da população mundial. E aí? Repercutir para quê?

 

Depois da bronca do ombudsman, me veio uma resposta meio boba, por muito óbvia: ao menos, para evitar certos vexames frente ao leitor. Emblemático, pois, é o caso dos tais “capangas”, fantasmas a assombrar a citação do ministro Joaquim Barbosa para uns tantos. Citação esta, no entanto, imediatamente decodificada pelos leitores da CartaCapital e por uns outros mais, informados que andam – alvíssaras! – pela blogosfera, essa corregedoria deliciosamente inconveniente da mídia nacional. Aqueles espremidos na linha de montagem da “grande mídia” ficaram com cara de paisagem, a discutir veleidades, não sem a ajuda de uma ciosa tropa de colunistas, sobre os graus de demência ou de ferocidade do juiz Joaquim. Aos poucos, contudo, vão descobrindo a origem da informação, um cochicho dando conta de uma penosa viagem a Diamantino, sussurros de uma apuração difícil, cheia de portas fechadas e documentos arrancados a fórceps ou repassados sob o manto do medo e da perseguição. Boatos de uma alegre aventura de repórter. E, talvez, assaltados por dúvidas, comecem a perguntar, uns aos outros, em mensagens a editores, em e-mails a ombudsmen e ouvidores de quilate semelhante: “Então, por que não repercutem a Carta?”.

 

Eu, daqui, repito, acho graça.

 

 

 



Escrito por Leandro Fortes às 23h46
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Aviso aos navegantes

Nos próximos dias, por apelo e necessidade, este blog irá mudar de plataforma. Aguardem.



Escrito por Leandro Fortes às 07h10
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Sobre jornalistas e sabujos

Se alguém tinha alguma dúvida sobre o consórcio midiático montado para desqualificar o trabalho do delegado Protógenes Queiroz e livrar a cara do banqueiro Daniel Dantas, basta chafurdar na série de recentes posts de blogueiros da linha auxiliar do esgoto, escalados para não contaminar as páginas com o lixo que realmente interessa aos jornais e revistas envolvidos nessa estratégia. A cobertura feita pelos jornalões do depoimento de Protógenes na CPI dos Grampos, na quarta-feira, dia 8 de abril, é o resumo dessa posição definitiva contra os efeitos da Operação Satiagraha, cujo emblema é a salvação não só de Daniel Dantas, mas da elite econômica e política ligada a ele. Contam, para tal, com a conivência obsequiosa do governo federal.

Basta ler o noticiário sobre a ida de Protógenes à CPI dos Grampos, onde o delegado deu um baile na bancada de Dantas e desmontou a estratégia de desmoralização do deputado Marcelo Itagiba, inocentemente montada a partir da exibição de um powerpoint com supostas contradições do delegado. Vaiado pela platéia e execrado pelos colegas, Itagiba foi obrigado a enfiar a projeção no saco e a ouvir, pela primeira vez, em público, uma verdade que ele só consegue manter em surdina por que tem o apoio cínico de quase toda a mídia: na campanha de 2006, ele foi financiado por Dório Ferman, executivo do Grupo Opportunity, do banqueiro condenado Daniel Dantas. Logo, está eticamente impedido de ser o chefe da cruzada dantesca, ora em andamento no Congresso Nacional. Quem jogou isso na cara dele, diante do mundo, foi o deputado Chico Alencar, do PSOL do Rio, mas quem quiser que se aventure a buscar a relevância desse fato nos jornalões ou nos portais corporativos da internet. Será uma garimpagem difícil.

Parte da imprensa e dos blogs de repetição montados nas redações tornaram-se porta-vozes da nova Polícia Federal comandada pelo delegado Luiz Fernando Corrêa, sobre quem paira uma denúncia gravíssima de tortura contra uma empregada doméstica no Rio Grande do Sul. Trata-se de assunto ignorado pela chamada “grande mídia”, cada vez mais um aglomerado de jornais e revistas decadentes onde não há mais espaço para a verdade, nem muito menos para a criatividade e o humor. Movidos por interesses outros, que não o jornalismo, os mandatários dos jornais brasileiros dedicam-se a um rancor reacionário contra Protógenes e a Satiagraha, doença infantil do elitismo nacional que se espalha como catapora pelas redações. E nisso reside um dado importante sobre a luta dos patrões contra o diploma de jornalista. Eliminado esse obstáculo, a formação dos jornalistas ficará a cargo desses cursinhos de redações, de verniz teen, mas velhíssimos na forma e nos conceitos, voltados para criar monstrinhos competitivos despojados de qualquer consciência crítica sobre o que escrevem, apuram e publicam.

Evolução do jornalismo “fiteiro”, como já bem conceituou o jornalista Alberto Dines, ao discorrer sobre a reprodução pseudojornalística de gravações e dossiês entregues sob encomendas às redações, a utilização dos espaços dos blogs para publicação de vazamentos seletivos é o mais recente movimento editorial da mídia brasileira. O inquérito do delegado Amaro Vieira, sobre vazamentos de informações da Satiagraha, adotou um procedimento programado de sangramento controlado, a ponto de se tornar, ele mesmo, o mais completo emblema sobre vazamento funcional da história recente do Brasil. É um triste expediente de desmoralização da PF cujo objetivo primordial é desconstruir, pedra por pedra, a memória da gestão do delegado Paulo Lacerda.

Afastado da PF e, depois, da Abin, Lacerda paga o preço por ter ousado retirar a Polícia Federal do gueto exclusivo da fracassada guerra contra as drogas, fonte permanente de corrupção e violência, e ter dado à corporação, nos limites das melhores doutrinas republicanas, status real de polícia judiciária da União. O processo que resultou no expurgo de Paulo Lacerda foi baseado num grampo telefônico jamais provado, publicado pela revista Veja e replicado, sem qualquer apuração suplementar, por dezenas de outros veículos de comunicação. É um estudo de caso de irresponsabilidade jornalística e inépcia policial. Passados sete meses desde a abertura do inquérito sobre o caso na PF, até agora o único resultado visível do processo foi a transferência de um dos delegados responsáveis pelo inquérito para Roma, talvez por bons serviços prestados.

As novas gerações de jornalistas brasileiros estão sendo desnutridas, dia a dia, de senso crítico e capacidade de contestação. A cobertura do depoimento do delegado Protógenes Queiroz gerou uma série de matérias absolutamente iguais, senão no conteúdo, na intenção. Ao ler os jornais no dia seguinte ao depoimento, tive a súbita sensação de ter participado de outro evento, embora tenha estado, por muitas horas, no mesmíssimo plenário do corredor das comissões da Câmara dos Deputados. Com pequenas variações sobre o mesmo tema, a mídia centrou-se deliberadamente no fato de Protógenes ter se negado a responder perguntas que não tivessem relação com escutas ilegais, objeto da CPI dos Grampos. O delegado negou-se a cair numa ratoeira preparada à luz do dia, enfeitada por um powerpoint de concepção primária, mas acabou, como de costume, condenado por isso. Perdeu-se, na bacia das alminhas pequenas das pautas pré-concebidas, a chance de contar uma boa história, dessas das quais são feitas o bom jornalismo. Restou aos leitores uma narrativa insossa e mal humorada, resultado da crescente burocratização da reportagem brasileira.

O elevado grau de sabujismo de repórteres brasileiros, hoje, na imprensa brasileira, me preocupa como jornalista e como professor de jornalismo. Não se trata, devo esclarecer, de uma crítica pontual a fulano ou a sicrano, mas de um fenômeno a ser considerado, estudado e definido como objeto de avaliação acadêmica e profissional, aí incluídas as participações dos sindicatos, da Fenaj e da ABI. Escudados pela desculpa da sobrevivência pura e simples, os repórteres estão indo às ruas com pouca ou nenhuma preocupação em relação à verdade factual, adestrados que estão por uma turma barra pesada que tem feito da atividade jornalística um exercício de servilismo muito bem remunerado, é claro.

As precoces reações corporativas, apoiadas incondicionalmente pelos suspeitos de sempre, contra a anunciada Conferência Nacional de Comunicação, são só um prenúncio da guerra que se anuncia toda vez que a sociedade reclama pela democratização da mídia e o pleno acesso à informação no Brasil. O primeiro movimento da reação já foi dado e é bem conhecido: a desqualificação dos protagonistas, como o que começou a ser feito em relação ao jornalista Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. O passo seguinte será o de tentar passar para a sociedade a impressão de que os fundamentos da conferência ferem o sagrado direito de liberdade de imprensa e de expressão. E sabem quais são esses fundamentos? O controle social sobre a baixaria da TV, fiscalização severa sobre as concessões de telecomunicações e o fim das propriedades cruzadas no setor, o que irá asfixiar os oligopólios midiáticos que controlam jornais, rádios, portais de internet e emissoras de televisão. Oligopólios econômicos e políticos que estão na origem da degradação política brasileira, da ignorância e da miséria social da maior parte da população.

Resta saber de que lado nós, jornalistas, vamos estar nessa guerra.



Escrito por Ozzymandhas às 11h36
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Crônica de uma censura anunciada

Deixa ver se eu entendi. O diretor da TV Câmara, Manuel Roberto Seabra, em entrevista ao site “Comunique-se”, afirma que “assessores” do ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, reclamaram do conteúdo do programa “Comitê de Imprensa”, do qual participei como convidado, para falar das investigações contra o delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal, com base em uma reportagem da revista Veja. Ele afirma ter recebido “muitas reclamações” (dos assessores de Gilmar Mendes?) sobre a “matéria”. Era um programa de debates. Eu não entendo muito de televisão, mas sei diferenciar um programa de debate de uma matéria. Mas vamos adiante, porque a coisa ainda vai desandar mais.

 

A “matéria”, segundo Seabra, “teria sido ofensiva” ao ministro Gilmar Mendes e, mais grave ainda, “saía do tema”. Primeiro, eu gostaria de saber com que autoridade o diretor da TV Câmara, funcionário de uma emissora pública, paga pelo contribuinte, ordena a retirada do ar de um programa de debate por que o conteúdo das falas, de inteira responsabilidade de quem as pronuncia, “teria” sido ofensivo a quem quer que seja. Que diabos é isso? Um roteiro do mundo bizarro ou um conto de Lewis Caroll? Ainda que eu tivesse xingado o presidente do STF, o que não ocorreu, não caberia ao senhor Manuel Seabra determinar um ato de censura, assim, ao bel prazer. E a tal “tentativa de responder a isso”? Prestem atenção: queriam inserir entrevistas de Gilmar Mendes e de um “representante da CPI dos Grampos”, a título de direito de resposta... num programa de debate! Como não conseguiram tal proeza, optaram em colocar novamente o programa no ar. Entenderam?

 

Eu explico, me acompanhem: o diretor da TV Câmara recebeu uma reclamação de “assessores” do ministro Gilmar Mendes (na verdade, a reclamação foi ao presidente da Câmara dos Deputados, deputado Michel Temer). Em seguida, envergonhado por não ter o outro lado, ele decidiu tirar o programa do ar e retirar o link do site da internet. Na verdade, extirpar, porque nem nos arquivos da página ele podia ser encontrado. Exatamente como faziam os stalinistas, nas fotos oficiais da extinta URSS, quando os camaradas dissidentes caíam em desgraça. Nesse ínterim, entre os dias 16 e 24 de março, Manuel Seabra tentou, em vão, entrevistar Gilmar Mendes e um representante da CPI dos Grampos. Eis um detalhe curioso: os repórteres da TV Câmara não conseguiram entrevistar o presidente do STF, que dá meia dúzia de entrevistas por semana, e, mais incrível ainda, NENHUM deputado da CPI dos Grampos! Diante de tal quadro de desolação, Manuel Seabra decidiu, então, recolocar o link no site. Vencido, pois, pelo cansaço.

 

Inacreditável, vale ressaltar, foi a evolução das versões. No dia 19 de março, instado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, o assessor de imprensa do deputado Michel Temer, Márcio Freitas, negou qualquer participação da presidência da Câmara na censura. Argumentou que o programa entrou numa fila, foi seis vezes ao ar e depois foi retirado para dar lugar a outros programas. Nonsense total. Essa regra não existe, nunca existiu. Além disso, o assessor nada falou sobre a retirada do link. Depois, uma funcionária da TV Câmara afirmou que o link foi retirado do ar por conta de um defeito técnico. Aliás, um defeito muito peculiar, porque só atingiu um link do site inteiro – o do debate do qual participei. Não colou. No dia 24 de março, foi a vez do Secretário de Comunicação da Câmara, Sérgio Chacon, emitir uma nota dizendo que o programa foi exibido “cinco vezes” (jornalista é ruim de conta mesmo) e que não houve pressão “de quem quer que seja” para interromper a exibição. Como assim? E os “assessores” (são quantos, afinal?) do ministro Gilmar Mendes??

 

A entrevista do senhor Manuel Seabra, como qualquer estudante de jornalismo pode perceber, é um ato de confissão: Gilmar Mendes mandou tirar o programa “Comitê de Imprensa” do ar e extirpar o link do site. A alegação de que houve ofensas pessoais é risível, senão patética, porque, mesmo durante o período da censura, diversos blogs veicularam o programa para milhões de internautas, alheios ao devaneio da direção da TV Câmara. No vídeo, atualmente com mais de 10 mil exibições registradas em apenas um dos links do “YouTube”, não há uma única ofensa a ninguém. Sobre Gilmar Mendes, me referi, dentro do contexto da Operação Satiagraha (logo, dentro do tema “Protógenes Queiroz”), sobre o profundo desequilíbrio da cobertura da mídia, quase toda voltada para fixar no delegado a pecha de fanático por grampos ilegais (sem uma única prova) e lustrar a imagem do presidente do STF como paladino do Estado Democrático de Direito. Citei, ainda, o fato de Mendes estar me processando, e à CartaCapital, por conta de uma matéria – absolutamente jornalística – sobre o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), do qual o ministro é sócio. Trata-se de instituição construída com dinheiro do Banco do Brasil, em terreno praticamente doado pelo governo do Distrito Federal e com contratos de mais de 2 milhões de reais firmados, sem licitação, com órgãos públicos e tribunais. Onde está a ofensa nisso?

 

O que ofende a todos nós, jornalistas, é essa tentativa primária de encerrar um assunto gravíssimo, baseado em prova documental (as imagens do site com e sem o link censurado), a partir de uma defesa confusa, contraditória e tardia, elaborada sem o menor compromisso com o jornalismo, a ética e a boa educação. Leio, estarrecido, que por causa desse episódio, a TV Câmara pretende “reformular” o programa “Comitê de Imprensa”, até então considerado um fórum plural e democrático de discussão entre jornalistas de diversos veículos, pensamentos e opiniões. Segundo Manuel Seabra, o programa terá pautas “mais fechadas”, seja lá o que isso signifique. E os apresentadores (quais? Não era só um?) estarão avisados “para evitar novos ataques pessoais”. Só pode ser piada. O que farão os apresentadores? Darão choques elétricos nos entrevistados? Vão acionar aquele “piiii!” usado para camuflar os palavrões proferidos pelos participantes do Big Brother Brasil?

 

Mesmo o mais foca dos estagiários sabe o que vai acontecer, de fato: censura prévia. Aos entrevistados, aos temas, ao programa. Algo me diz que o “Comitê de Imprensa” subiu no telhado.

 

Reitero, pois, meu pedido à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e ao Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal para que abracem essa causa, não em meu nome, mas de todos os jornalistas e cidadãos brasileiros, cerceados, estes, no seu direito de ter acesso a informação pública em uma emissora do Congresso Nacional, custeada pelo contribuinte. Não é pouca coisa. O Sindicato dos Jornalistas do DF abriu uma investigação pelo Comitê de Ética para apurar os fatos. Apuração, aliás, facílima. Matéria pronta, eu diria.

 

E viva a liberdade de expressão.

 

Leandro Fortes

Jornalista

 

Brasília, 25 de março de 2009



Escrito por Ozzymandhas às 11h30
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Carta aberta aos jornalistas do Brasil

No dia 11 de março de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo José Cunha, da TV Câmara, para participar do programa intitulado “Comitê de Imprensa”, um espaço reconhecidamente plural de discussão da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, também convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Brasília de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e “aterradoras” revelações contidas no notebook apreendido pela Polícia Federal na casa do delegado Protógenes Queiroz, referentes à Operação Satiagraha. Eu, assim como Jailton, já havia participado outras vezes do “Comitê de Imprensa”, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e à rotina da imprensa em Brasília. Vale dizer que Jailton e eu somos repórteres veteranos na cobertura de assuntos de Polícia Federal, em todo o país. Razão pela qual, inclusive, o jornalista Paulo José Cunha nos convidou a participar do programa.

 

Nesta carta, contudo, falo somente por mim.

 

Durante a gravação, aliás, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de expressão, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas, discutimos abertamente questões relativas à Operação Satiagraha, à CPI das Escutas Telefônicas Ilegais, às ações contra Protógenes Queiroz e, é claro, ao grampo telefônico –

de áudio nunca revelado – envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás. Em particular, discordei da tese de contaminação da Satiagraha por conta da participação de agentes da Abin e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas páginas da revista CartaCapital, os muitos negócios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licitação firmados com órgãos públicos e construído com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, à época do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.

 

Terminada a gravação, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programação pré-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na página eletrônica da TV Câmara. Lá, qualquer cidadão pode acessar e ver os debates, como cabe a um serviço público e democrático ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audiência, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.

 

Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira passada, dia 18 de março, exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explicação. Aliás, nem a mim, nem aos contribuintes e cidadãos brasileiros. Apurar o evento, contudo, não foi muito difícil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de São Paulo, e pediu a retirada do conteúdo da página da internet e a suspensão da veiculação na grade da TV Câmara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.

 

Sem levar em conta o ridículo da situação (o programa já havia sido veiculado seis vezes pela TV Câmara, além de visto e baixado por milhares de internautas), esse episódio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discussão pura e simples dos limites de atuação do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submissão inexplicável do presidente da Câmara dos Deputados e, por extensão, do Poder Legislativo, às vontades do presidente do STF, cabe a todos nós, jornalistas, refletir sobre os nossos próprios limites. Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posição contrária do ministro em relação ao MST, Mendes voltou-se furioso para o repórter e disparou: “Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta”. Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? Até onde, nós, jornalistas, vamos deixar essa situação chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco às liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judiciário? Onde estão a Fenaj, e ABI e os sindicatos?

 

Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o país, tomem uma posição clara sobre essa situação e, como primeiro movimento, cobrem da Câmara dos Deputados e da TV Câmara uma satisfação sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de expressão de jornalistas e, tão grave quanto, de acesso a informação pública, por parte dos cidadãos. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os veículos de comunicação brasileiros não pode servir de obstáculo para a exposição pública de nossa indignação conjunta contra essa atitude execrável levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiescência do presidente da Câmara dos Deputados e da diretoria da TV Câmara que, acredito, seja formada por jornalistas.

 

Sem mais, faço valer aqui minha posição de total defesa do direito de informar e ser informado sem a ingerência de forças do obscurantismo político brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de ofício, nos defender.

 

Leandro Fortes

Jornalista

 

Brasília, 19 de março de 2009



Escrito por Ozzymandhas às 11h28
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