En Barranquilla se baila así

Assim como Israel, no Oriente Médio, a Colômbia corre o risco iminente de se transformar em uma nação odiada por todos os vizinhos e protegida por um único e poderoso amigo, os Estados Unidos. A “israelização” da Colômbia obedece a um desses procedimentos padrão do Departamento de Estado dos EUA, um misto de financiamento permanente, cooptação política e, é claro, truculência. 

Desde o fim da Guerra Fria, quando a indústria bélica americana perdeu mercados na Europa e na África, a “guerra” contra as drogas foi a alternativa ianque à vertiginosa queda de demanda armamentista. Foi uma maneira, também, de deslocar a crise do crescimento do consumo interno para as áreas de produção da coca, ainda que o resultado dessa estratégia seja, quase vinte anos depois, um desastre absoluto. 

A Colômbia continua produzindo cocaína e os americanos cheirando-a mais do que nunca. Ainda assim, minada pelo poder dos cartéis de traficantes de cocaína e disposta a trocar recursos pela extradição de criminosos para os EUA, a Colômbia tornou-se uma espécie de base avançada americana em território sulamericano, com tropas treinadas e armas cedidas por agentes da CIA, dentro da chamada Operação Colômbia – da qual, desde sempre, o presidente Álvaro Uribe se auto-proclama prócer e ativista. Não foi outra a fonte de coragem de Uribe, portanto, para entrar em território equatoriano, matar um porta-voz das Farc e, tranqüilo, regressar para os braços de Tio Sam.

O discurso de combate ao terrorismo, embora careça de elementos políticos razoavelmente dimensionados, tem cabimento pela ótica simplista do conflito entre as forças regulares do Estado e os grupos rebeldes metidos na selva amazônica, onde mantêm duas centenas de reféns e, ao que parece, fazem do tráfico de drogas a base essencial do financiamento da guerrilha. Essa, no entanto, está longe de ser a preocupação de George W. Bush, como, aliás, nunca foi preocupação de presidente americano nenhum. 

Mais do que a cocaína, é o crescimento da esquerda latino-americana o foco da preocupação e as razões do nervosismo do governo americano na região. Chávez, na Venezuela, Lula, no Brasil, Evo Morales, na Bolívia, e, agora, Rafael Correa, no Equador, tornaram-se uma alternativa política naturalmente antagônica ao imperialismo americano. Pior: de forma democrática, apesar da insistência da mídia republicana (no sentido ianque da expressão) em chamar Hugo Chávez, presidente eleito por voto direto, de ditador. 

Aos americanos, restaram Uribe, o exército colombiano infiltrado de agentes da CIA e os grupos paramilitares financiados por ela, repeteco lacônico da estratégia dos Contras, a guerrilha armada nos anos 1980 contra os sandinistas da Nicarágua – aliás, novamente governada pelo esquerdista Daniel Ortega.

Entrar no Equador para matar Reyes nada tem a ver com o combate às Farc, mas com a nova estratégia americana de evitar que Hugo Chávez e, agora, Rafael Correa, se tornem referências políticas latino-americanos permanentes e protagonistas definitivos da libertação de reféns mantidos pelos guerrilheiros colombianos. No início do ano, Uribe teve que engolir um “desagravo” a Chávez feito pelas Farc por causa da libertação de reféns, em território colombiano, mas para autoridades venezuelanas. 

Sabe-se, agora, que o presidente do Equador mantinha uma negociação secreta para garantir a libertação de 11 outros reféns, entre eles a ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt. A contrapartida colombiana a essa perspectiva foi a assimilação da Doutrina Bush Júnior em estado puro. Ao invés de se desculpar pela invasão de território – por si só, um ato de guerra –, Uribe acusou Correa de colaborar com os “terroristas” e Chávez de ter passado 300 milhões de dólares às Farc, sem falar da insinuação de que os guerrilheiros estão interessados em comprar urânio para fabricar bombas atômicas caseiras. 

Qualquer semelhança com as acusações feitas ao Iraque, antes da invasão de 2003, não tem nada de mera coincidência.

(Publicado na coluna "Brasília, eu vi" dos "Diálogos" do site da CartaCapital - www.cartacapital.com.br)



Escrito por Ozzymandhas às 15h41
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Osmar Prado chorou

Ciro Gomes uma vez disse, em entrevista à CartaCapital, que a imprensa brasileira é ruim porque, justamente, preocupa-se em demasia em fazer o que ele chama de “novelização escandolosa” da política. É um conceito generalista, mas de bom estilo, além de pertinente – aliás, pré-condição de qualquer bom conceito. Encaixa-se no recente noticiário, cheio de quadrinhos de alegria, sobre as inusitadas compras feitas com cartões corporativos, tornado uma brincadeira razoavelmente de mau gosto. Principalmente depois de a Marinha de Guerra do Brasil, acusada de comprar ursinhos de pelúcia, revelar ter adquirido, na verdade, uma ruma de panos para forrar o suporte de madeira onde se acondicionam as medalhas oferecidas a visitantes ilustres e outros tantos homenageados da força naval. A tese de Ciro se comprova com assustadora freqüência, mas às vezes a vida imita a mídia, como ocorreu em recorrente ribalta da comédia nacional, o Senado Federal, onde o grande ator Osmar Prado chorou, dias atrás.

Falo “grande” sem ironia, antes que haja um infeliz mal entendido, porque Osmar Prado é um ator de primeira linha, da safra formadora de várias gerações de atores e atrizes da TV Globo. Osmar Prado é parte indissociável de um tempo de novelas feitas para mexer com o imaginário e o espírito das pessoas, ao contrário das de hoje, escritas em tom priápico, como se toda a fantasia possível estivesse encerrada em homens sem camisa e mulheres com furor uterino entretidos em enredos constrangedoramente primários. Então, como eu dizia, Osmar Prado chorou, em frente a Ciro Gomes, porque lhe assaltou a alma a dor dos sertanejos nordestinos ameaçados pela transposição do rio São Francisco. Calou-se, diante dele, uma platéia de contritos senadores, uma comoção inusitada nascida da triste inspiração da possível desgraça futura do Velho Chico. Ainda assim, é possível haver um gesto ensaiado nisso tudo.

A transposição do São Francisco é um desses assuntos em que todo mundo tende a ter uma posição, ainda que baseada em fragmentos de notícias e opiniões difusas de políticos e especialistas, quando não em preconceitos. Para uns, será a morte do rio. Para outros, a salvação da lavoura. Virou, como tudo no Brasil, um jogo de futebol, uma disputa de torcidas. Terá, no fim das contas, um perdedor a ser humilhado, ainda que sejamos todos nós. Por isso que, além de ver Osmar Prado chorar, Ciro Gomes também bateu boca com a atriz Letícia Sabatella, indefectível musa da transposição. O instantâneo da cena, reproduzido em sites e jornais, revela a atriz de semblante crispado, em plena congestão espiritual, metida em um jaquetão quadriculado, bela e desafiadora ante o dedo meio em riste do deputado cearense, este, com certo jeito de quem dá um aviso. Ao contrário da maioria dos envolvidos no debate, Ciro parece saber do que fala, se não sabe, finge muito bem. “Há vazão suficiente no rio para se retirar os 26 metros cúbicos por segundo (de água, claro) previstos para a transposição”. É água para atender 12 milhões de pessoas, em quatro estados. Mas não irá redimir o Nordeste, avisa o deputado.

Letícia Sabatella, como se sabe, está com o bispo Dom Luiz Cappio, de Barra do Rio Grande, um antigo e culturalmente curioso município ribeirinho da Bahia. Na Guerra do Paraguai, de lá saíram cem voluntários para lutar pelo imperador Pedro II. Voltaram todos vivos. Em homenagem a eles, as festas juninas do lugar incluem representações teatrais de batalhas travadas contra os guaranis. Talvez por isso, por pisar em solo consagrado a sobreviventes, Dom Cappio tenha fracassado nas duas tentativas que fez de morrer, ambas por inanição, em chantagens mal disfarçadas de greve de fome. Em certo momento, ficou claro ao bispo que o governo Lula iria deixá-lo perecer, para desespero das beatas e certa satisfação do público em geral, sedento por um grande drama nacional. Por ter sobrevivido, contudo, o padre perdeu a credibilidade, tanto, e de tal modo, que nem a belezura de Letícia Sabatella há de lhe redimir esse passado de mau pecador.

Por tudo isso, Osmar Prado, o inesquecível Tião Galinha da novela “Renascer”, chorou em plenário.

(Publicado na coluna "Brasília, eu vi" dos "Diálogos" do site da CartaCapital - www.cartacapital.com.br)



Escrito por Ozzymandhas às 15h38
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