Chamem Incitatus

Bastou uma psicodelia bem feita, o espetáculo “Alegría”, do Cirque du Soleil, para o Senado Federal perder o resto de serventia que tinha, com ele parte do Judiciário e do Palácio do Planalto. Convoco mediavelistas e babalorixás para dar uma explicação plausível para o fim tão apressado da República. Com que direito permanecem assim, com o sorriso perfeito, Gilberto Carvalho e Marco Aurélio de Mello, juntos na platéia de um evento pago pela TV Globo? É de ser refletir sobre o inusitado da dupla, um assessor de Lula e um ministro do Supremo Tribunal Federal. O que os terá unido? As cambalhotas das atrizes coreanas? A fanfarronice do palhaço espanhol? As peripécias do ilusionista maltês? É de se averiguar.

 

O ministro dançou, ou melhor, deu “umas rodadas”, conforme relatou mais tarde, com uma atriz do circo canadense. Galhofeiro, rodopiou pela ribalta atado ao corpo lânguido da artista, sob alegre estupefação da platéia presente, mas, principalmente, e muito mais, da multidão ausente. Encerrada a contradança, incomodou-se com o perfil prafrentex da parceira, esta, despudorada ao ponto de conduzir o par masculino pelo salão. “Talvez por ser uma atriz”, bem refletiu, de chofre, o magistrado.

 

O chefe-de-gabinete de Lula apelou para o fim da clausura funcional, prisioneiro que disse ser do Palácio do Planalto. Ele nunca sai de lá – e, por isso, precisava sair, é lógico, qualquer um pode entender. Por ser um eremita, o servidor nem ciência dos preços dos ingressos tomou, lapso seríssimo, porque, bem lembrou a si mesmo, muito depois do show, há um código de ética a seguir. Presentinhos só de, no máximo, 100 reais. Isso é que é ética, isso é que é país! Mas o ingresso mais barato do Cirque du Soleil custa 150 reais. Como burlar essa matemática? Como garantir essa gota de prazer em meio à escravidão do poder? “Deveria ter tomado esse cuidado”, definiu-se o chefe-de-gabinete. Uau, deveria mesmo!

 

Tem mais e pior. Uma semana antes da votação do relatório final da CPI do Apagão Aéreo (ah, esse nossa vocação para o drama), integrantes da comissão foram agraciados com ingressos do Cirque du Soleil pagos pela TAM. Inclusive o presidente da CPI, senador Tião Viana, do PT do Acre, atual presidente do Congresso Nacional. Foi o que eu disse: Tião Viana, presidente da CPI. Junto com ele, o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito. Isso, exatamente o que vocês leram: o comandante (gosto da malícia do itálico) da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.

 

Corta.  Estão todos embevecidos, dois gêmeos de Sri Lanka rodopiam no ar, se torcem nos calcanhares e, de olhos vendados, estendem as mãos no vácuo para encontrar, seguros, as hastes dos trapézios enfeitados com faixas de cor. O público solta a respiração, está tudo bem. Um espetáculo fechado, só para autoridades, uma beleza. Tudo pago pela TAM, empresa investigada pela CPI. Mas há um mágico húngaro no picadeiro. Ele usa roupas douradas e tem como ajudantes 12 elfos franceses, belgas e lituanos. São europeus, quem diria, no meio de uma algazarra tão terceiro-mundista. Ele tira um pombo do bolso, e mesmo para gesto tão banal finge fazer algum esforço. Pronto, a selecionada platéia aplaudiu. Fácil. E outros se divertiram, além do comandante da FAB e do presidente do Congresso.

 

Pedro Simon, senador franciscano, gaúcho do PMDB, fez da viagem um ato da cristandade, como de costume. Aceitou, sim, a oferenda, mas aproveitou para reclamar dos serviços da TAM. Isso, senador, pau nos vendilhões! Eduardo Suplicy, do PT de São Paulo, diz ter ido a convite da produção do evento. Vindo de Suplicy, corre até o risco de ser verdade. Mas é bom verificar. Ah, gostei de Ideli Salvati, do PT catarinense, também da CPI. Riu às pregas soltas, sobretudo ao comentar o quorum nos camarotes do circo, ligeiramente mais elevado do que o de muitas sessões do Senado. Impagável. A piada, não o Senado. Nesse caso, a TAM só gastou uns 400 paus por cabeça, porque as passagens, obviamente, saíram de graça.

 

Portanto, precisamos repetir o absurdo de Incitatus, ou seja, de nomearmos um cavalo senador da República, antes que o espírito de Calígula se torne ainda mais espaçoso. Dos males, o menor.



Escrito por Ozzymandhas às 10h00
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