Amo tudo, menos isso
Não sei a proximidade entre as datas do Criança Esperança, da TV Globo, e o Mc Dia Feliz, do McDonald’s, é uma coincidência, mas tem tudo para não ser. Um e outro são a celebração máxima de um processo de expiação da culpa pequeno-burguesa nacional. É quando a classe média brasileira debruça-se sobre o telefone para doar míseros 7 reais, ou gasta um pouco mais, não sei quanto, para se empanturrar de gordura e colesterol com um Big Mac, em troca de alguns trocados para alguma criancinha com câncer Brasil afora. Eu, de minha parte, prefiro dar esmolas nas ruas, para bêbados notórios e mendigos em transe, pelo menos eu vejo o destino do dinheiro. É engraçado ninguém questionar o porquê de a Rede Globo, dona de milhões (bilhões?) de dólares, e o McDonald’s, idem, não separarem todo mês um caraminguá para as crianças pobres e cancerosas do Brasil. Seria mais fácil, mais barato e mais honesto. William Bonner e Fátima Bernardes abririam o Jornal Nacional assim:
Bonner – Boa Noite. A TV Globo doou hoje, 15 de maio, 100 milhões de reais para 37 entidades de assistência a menores em todo o país. A próxima doação será no mês que vem, também no dia 15.
Fátima – Os depósitos foram feitos em conta-corrente, diretamente para as entidades, sem intermediários.
Bonner – Ao todo, mil e duzentas crianças serão beneficiadas.
Fátima – E a boa notícia é que os telespectadores não serão obrigados a ligar para número nenhum, nem agüentar um dia todo de show brega com Ivete Sangalo, Renato Aragão, Xuxa e o cantor Daniel.
Bonner – Boa noite.
Fátima – Tenham uma ótima semana.
O patético desses tempos é receber aqueles e-mails de convocação para o Mc Dia Feliz, também conhecido como Dia Mundial da Obesidade Infantil, quando, uma vez por ano, patricinhas e mauricinhos se dispõem a sujar os Nike Shox dourados em frente às lanchonetes de fast-food para pedir pelas criancinhas com câncer. Eu recebi um assim: “Vamos, gente, dar essa força para as criancinhas. Elas precisam da gente, né?”. Quase posso ver o biquinho da moça, a vozinha de gozo a la Hello Kitty, tomada de súbita piedade social. Agora, juntar a turminha do shopping para ajudar na colheita, ninguém quer. Nem mesmo recolher o lixo no cinema, quando o filme termina. Não tem o mesmo apelo high school, nem aquela sensação maravilhosa de ajudar os pobres e os doentes, sim, mas bem de longe.
Quem quiser ajudar de verdade, leva uma moeda para o mendigo Mandrake, pedinte fiel e assíduo das sinaleiras da Asa Norte de Brasília. Não tem erro nem enrolação. Mandrake não é criança, nem tem câncer, embora sofra um bocado com a falta de dentes, a sarna e a péssima nutrição. Só não arrisque falar em Big Mac. Mandrake tem dentadura precária, mas continua com a língua afiada. Vai mandar você enfiar o sanduíche no cu, porque o negócio dele é mesmo – pasmem, dondocas! – cachaça.
Escrito por Ozzymandhas às 17h08
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