Brasília, 47

Aos 47 anos, Brasília não é, nem poderia ser, uma cidade. Uma cidade precisa de pelo menos um século de existência para deixar de ser um aglomerado vil de almas e ruas, prédios e jardins. Uma cidade só existe como tal quando se movimenta pelas fendas do tempo, como placas tectônicas, em ritmo de autodestruição permanente. Uma cidade só existe, de fato, quando assume as rédeas do destino. Quando tem vontade própria. Brasília não tem nada disso, por enquanto.

 

Muito se fala da grandeza da obra de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, embora a participação histórica de ambos só seja clara para os que por aqui vivem, envoltos que são na aura de folclore das histórias da fundação da capital. O arquiteto e o urbanista, senhores das formas de Brasília, tornaram a cidade escrava das vontades originais, um lugar de desejos tombados, ansioso por mais esquinas e menos catedrais. Brasília precisa vencer o orgulho dos pioneiros, sem esquecê-los.

 

De certa forma, Brasília ainda é uma cidade em construção e um posto avançado das burocracias regionais, das quais absorve a má fama. Muitos pedem o fim de Brasília, querem vê-la em ruínas, como se a destruição da capital pudesse redimir os erros das hordas de picaretas e punguistas do Erário enviadas para cá por eleitores de outras unidades da federação. Brasília se defende nas trincheiras dos sotaques e dos vícios resguardados dos guetos regionais. Não há no brasiliense uma característica essencialmente local, algo capaz de identificá-lo na multidão. Assim como a cidade, os nativos carecem de modos definitivos. Ainda é cedo.

 

Aliás, cedo e complicado, porque Brasília, assim dito, não é uma cidade, mas um castelo entre feudos, cercada do que se convencionou chamar, tristemente, de cidades-satélites. Desde o início, definiu-se que os pobres, os excluídos, os remediados e o lumpesinato teriam, literalmente, que gravitar em torno dos monumentos de Niemeyer, dos gramados bem cuidados e das luzes sempre acesas do Plano Piloto, zelosa confraria de superquadras.

 

Gostam, os políticos locais, de vender Brasília como sinônimo de Distrito Federal. É parte de um discurso cínico cujo objetivo é usar uma graça do detalhe – a capital tem a melhor qualidade de vida do país – para criar uma ilusão sobre o todo. Tentam esconder sob as asas e quadras verdejantes do Plano Piloto a melancolia da periferia e do entorno, o caos sufocante da poeira e da violência das satélites. Como a dizer por aí que essa periferia não lhe pertence, é um mato alheio, filha bastarda dos ideais da capital.

 

Brasília, ainda assim, cresce, nem sempre bem, para os lados, Cerrado adentro, como fazem as cidades. No futuro, é claro, a capital vai se ressentir de ter crescido, ainda cedo, para alimentar redutos eleitorais, onde seres humanos foram confinados em granjas virtuais. Não deveria ir longe uma cidade sitiada por gente tragada pela folia de um sonho de terra e moradia, um sonho sem fim. Mas Brasília também serviu para isso, para ceder as bordas e as divisas aos interesses do povo. E teima em crescer, ora pela boa vontade dos homens, ora pela sanha da especulação imobiliária.

 

Do alto da Torre de TV, não se diferenciam mais as asas, há muros e prédios demais. O horizonte não é mais de terra vermelha banhada de sol, mas de imensas lagartas habitacionais, os condomínios, estacionadas sobre a terra, paródias dos quartéis de classe média roubadas de outras cidades, estas sim, de verdade. Brasília avança, mas nem sempre sobre o futuro, mas sobre nascentes e florestas.

 

Brasília se mexe e, às vezes, dá a impressão de que vai cair.



Escrito por Ozzymandhas às 10h54
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