O carteiro pensou na revolução

O homem que sentou ao lado do carteiro tinha a pele curtida de dor, via-se logo. A negra cabeleira estendia-se como um estofo de bombril sobre a caixa craniana, acima da testa e até a nuca, um emaranhado de pragas urbanas. O homem era um mendigo e logo dormiu, manso, no compasso do sacolejo do ônibus. O carteiro ficou alheio, na distância absoluta entre o real e o irreal, nem mesmo deu um olhar de soslaio. O carteiro nada sentiu. Mais uma hora e um quarto, e ele estaria na central dos Correios, a matinal rotina dos carteiros à espera do fim da triagem. Tatuam-lhes os CEPs na mente e mandam que sigam. Todo dia, todo dia, menos naquele dia.

 

Naquele dia, o carteiro agachou-se para encher a mochila de cartas e deixou cair uma gota de ódio no chão frio do pátio de distribuição. Viu as correspondências sem mesmo uma letra morta de amor, só contas, extratos, faturas, avisos tenebrosos de multas, despejos, funerais. Era mesmo inútil levar tudo aquilo, todo dia, aos mesmos lugares. Não havia mais cartas de amor, nem de saudades distantes, nem cartões de natal, nem poesia, nem nada. O carteiro sentou o corpo magro, subitamente envelhecido, ao lado da mochila verde lotada de papel e correias de segurança. Pensou na gorda mulher prostrada na cama úmida da casa, os filhos empilhados no quarto, no silêncio do seu cansaço. E, então, o carteiro pensou em revolução.

 

Tinha os bolcheviques em mente, embora vá morrer sem nunca ter noção do significado disso. Pensou, mesmo sem saber, numa revolução antiga e fracassada, porque o carteiro nunca soubera dela, nem de outras. O carteiro não conhecia revolução alguma. Para ele, aquela era uma idéia novíssima, revolucionária, enfim. Ergueu a mochila a uns dois palmos no chão e virou todas as cartas no piso, não de uma vez, mas devagar, deixando-as cair como folhas secas num dia sem vento. Meia dúzia de outros carteiros observaram o colega, quietos, respeitosos, como a saber que, naquele dia, nada mais seria como antes. Então, sem uma ordem entre eles, cada um virou sua mochila, no ritmo ditado pela pioneira revolução do carteiro. Em poucos minutos, todo o pátio estava coberta de uma neve postal de cupons e envelopes. O carteiro largou a mochila e aspirou, pela primeira vez, o gás da impertinência. Postou-se como um profeta e ditou, como um iluminado:

 

– Não há cartas que valham nosso sacrifício. Deixem que os destinatários venham até aqui buscá-las. Que ouçam as nossas vozes uma vez que seja. A revolução deve começar com sangue.

 

E foi mesmo uma profecia. Antes de dar caminho aos súditos e tomar posse do setor de triagem, o carteiro valeu-se da tradição de poder de todo líder carismático e decretou a morte do supervisor, a quem creditou todos os males e mazelas do dia-a-dia, inclusive a péssima qualidade do papel higiênico dos sanitários. O carteiro nunca tinha matado uma galinha, mas fez dos métodos um novo decreto, este como documento explícito da execução, que deveria ser a pauladas na cabeça. O carteiro apenas o disse, como uma ordem, e não houve quem se opusesse ao grande líder.

 

O supervisor era um homem de meia idade, careca e de papadas adiposas que lhe davam um ar de bulldog. Mas nem por isso merecia morrer. O carteiro não pensava assim. A caminho da sala do supervisor, chegou a comentar com seus recém-nomeados assessores mais próximos a possibilidade de torturar o supervisor antes de matá-lo, fazê-lo confessar os crimes e, assim, livrar-se de uma culpa de consciência improvável. Os assessores assentiram como poodles amestrados e foram atrás de opções de martírio. Acharam um alicate de bico fino e uma bomba de dedetização.

 

O carteiro parou em frente à porta do supervisor. A multidão veio logo atrás, centenas de carteiros que encheram o corredor como a uma lingüiça. O carteiro mandou que se calassem, e assim foi, fez-se um silêncio de respiração. Lá dentro, ouvia-se o choro fino do supervisor. Um celular tocou e ele atendeu, aos prantos. O carteiro pôs o ouvido na porta, fixou-se com grande interesse por mais de um minuto, fez uma carranca séria e proferiu:

 

– Hoje, libertaremos nossas vidas das mãos desse covarde.

 

A turba derrubou a porta e ficou à espera das ordens do carteiro. Este, altivo como um César, olhou para o supervisor, apavorado e encolhido numa cadeira de couro. Os assessores entraram correndo com os acessórios, alicate e bomba de matar mosquito. O carteiro reinstaurara o Santo Ofício, mas ai de quem tentasse lhe explicar isso. Era, outra vez, uma idéia pioneira, pelo menos na cabeça dele.

 

O carteiro ainda iria pagar por aquilo, mas não naquele dia.



Escrito por Ozzymandhas às 22h45
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