O carteiro acordou cedo

O carteiro acordou cedo, cedíssimo, antes do sol, com a lua ainda a vagar nas primeiras cores da aurora, crente que aquele seria um dia como outro qualquer. Sentou na beira da cama sem sequer olhar para a mulher ao lado, companheira de tantos anos, um trapo entre trapos, flácida, gordurosa, a decadência em pessoa. Anos atrás, muitos deles, era uma moça bonita, de seios pequenos e coxas roliças, mas tudo durou pouco. Bastou uma renca de filhos e duas décadas de rotina e pronto, embagulhou de vez.  Um horror. Os seios miúdos viraram pelancas macilentas, as coxas, dobras adiposas de carne de segunda.

 

Naquela manhã, o carteiro nem pensou, na verdade. Apenas acordou e seguiu sua sina de homem pobre e comum, mais um dia, mais um dia, ordinário e comum. Ficou em pé sem supetão, só o reflexo, mais nada. Coçou a barriga protuberante, checou os culhões e foi mijar, um mijo longo, demorado, mirado com dificuldade pela contingência erétil. Acertou duas ou três jorradas na tampa da privada, mas o resto foi na água. Recompôs-se como pôde e se entregou à higiene matinal, dentes e cabelos, poucos, ambos. Na casa de dois cômodos, atulhavam-se no quarto anexo quatro criaturas perdidas, dois meninos e duas meninas. Eles, uns tocos de gente ainda nas calças curtas. Elas, moiçolas quase na puberdade prudentemente escondida ainda por roupas de infância. Dali a pouco iriam acordar do transe noturno, única hora feliz daquela quadra de vida, posto que morta.

 

A cozinha esbanjava tristeza, como sempre. Sobre a mesa de fórmica azul, uma toalha florida de plástico, encardida por refeições gordurosas e marcas de panela quente. Fez ranger as portas metálicas do armário de mantimentos onde escondiam-se umas poucas latas de açúcar, café, farinha, arroz, feijão e biscoito de goma. Botou a água para ferver e ficou no alpendre, a vista colada no nada, esperando amanhecer. Sorveu café preto com umas bolachas e pôs-se a vestir a roupa azul e amarela às pressas, atrasado que sempre estava para a caminhada tortuosa de lama e mato até o ponto de ônibus. Não beijou a mulher nem os filhos, nem fez o sinal da cruz. Apenas tomou o rumo conhecido de sua própria desgraça, fazendo barulho ao sair. Assim era a vida do carteiro.

 

Pelo menos até aquele dia.



Escrito por Ozzymandhas às 22h56
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