Crianças no inferno - Parte 2

Gira a roda do tempo. Estou, às vésperas do natal, no supermercado lotado, a gripe querendo chegar, aquela meia febre que se anuncia na espinha. Há centenas de pessoas se digladiando por sabonetes baratos à minha direita. Instadas pelo instinto de sobrevivência, as pessoas correm para lá e para cá à procura de ofertas e deixam os carrinhos no meio das passagens. Os mais exaltados atingem os calcanhares alheios, mas não há tempo de se desculpar. É a guerra. Uma voz no alto-falante anuncia a pechincha de uma máquina de fazer pão: R$ 290,00. “Ah, quem vai comprar uma merda dessas?”, penso. Em dez minutos, a voz brada, como um locutor em fim de campeonato: “Acabou! Acabou! Foram vendidas as 30 máquinas de fazer pão exclusivas!”. Minha febre piora um pouco.

 

No setor de hortifrutigranjeiros, o caos está instalado. Há famílias inteiras enchendo sacos de legumes, frutas e verduras. E crianças, muitas crianças. A classe média, como se sabe, só bate em crianças quando não tem ninguém olhando. Então, os moleques corriam, chutavam tomates, gritavam e choravam certos  da impunidade. Os pais, impedidos de lançar mão de bolachas e beliscões, ficaram histéricos. Coisa linda de se ver.

 

- Se você pegar mais alguma coisa a gente vai resolver isso em casa!

- Eu quero ir embora!

- Vai lá ficar com sua mãe!

- Eu quero ir embora!

- Ajuda a empurrar o carrinho, eu deixo.

- Eu quero ir embora!

- Toma, bebe essa merda de toddynho!

- Depois a gente vai embora?

- Não, não vamos. E pára de reclamar porque você está me irritando!

- Uááááááááááá!

 

Centenas, centenas. Há os que levam uns bem pequenos, naqueles carrinhos que simulam pequenos veículos plásticos infantis, e outros que se arriscam com recém-nascidos. Estes, só choram. Querem colo, são surpreendidos mordendo a garrafa de água sanitária, sofrem com o calor e o barulho. Os pais, sufocados pelo drama, começam a se odiar, empurram as crianças uns para os outros, discutem, trocam insultos. Fico pensando em quantos casamentos começaram a se desfazer nessas brigas de supermercado.

 

- Toma, pega ela aqui enquanto eu procuro o xampu.

- Não, pode deixar que eu vou lá.

- Não, eu vou. Eu sei onde fica.

- Eu também, e aproveito e pego o pão.

- O pão, não! O pão eu que pego! Quer fazer o favor de pegar essa menina no colo? Ei, volta aqui!

 

Na minha frente, um casal de obesos hesita em passar no caixa a máquina de pão. As compras ficaram em quase trezentos paus. Com mais a inútil máquina de pão, capaz de o natal se complicar. A mulher (sempre a mulher) tenta colocar os pés do marido no chão.

 

- A gente precisa mesmo disso, bem?

- Claro, olha o que a gente vai economizar fazendo o próprio pão!

- Mas pão é tão baratinho...

- É, mas estou falando de pão de qualidade. A gente divide no cartão. Pode dividir, não pode?

 

O atendente do caixa assente com a cabeça. Está exausto. O calor está insuportável, assim como o barulho. Ele quer mais é que o casal de gordos se foda e morra empanturrado de pão. Mas mantém a calma – e o emprego. Fala em dividir em quatro vezes. O casal se entreolha. A fila começa a pressionar. Minha febre piora. Penso em pagar a porra da máquina de pão para eles. A mulher (sempre a mulher) toma a iniciativa.

 

- Tá, vamos logo.

 

E pagam a máquina de fazer pão. Em quatro vezes. Atrás de mim, um menino começa a chorar. Lembro da aurora da minha infância, de minha mãe nervosa com a possibilidade de ter que devolver alguma coisa por falta de dinheiro, ali, na boca do caixa. Naquele tempo, naquela hora, toda criança se calava. Um tapão, na fila, era sempre mais humilhante.



Escrito por Ozzymandhas às 09h25
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Crianças no inferno - Parte 1

Para mim, ainda é um mistério o fato de alguns pais levarem crianças ao supermercado, sobretudo essas famílias de classe média que fazem compras monstruosas enquanto roubam doces e comem castanhas e polenguinhos entre as prateleiras. Poucos lugares são tão odiosos para uma criança como um supermercado cheio, barulhento e repleto de tentações inalcançáveis. Quando eu era pequeno, e os pais tinham ampla liberdade para bater nas crianças, supermercados eram uma espécie de pelourinho infantil. Lá, entre berros e tapões na cabeça, os petizes eram introduzidos na arte do não-pedir, não-tocar, não-mexer-em-nada-moleque-atentado.

 

Era um tempo de espancamentos consumados aos poucos. Começavam no primeiro incômodo, o da cadeirinha do carrinho de compras. Na verdade, tratava-se de se utilizar aquele espaldar com mesinha para ovos e carnes como banco. Na frente dele, abriam-se duas passagens para as pernas dos pequenos. Eu tinha pernas gordas e macias, que logo ficavam dormentes e formigando naquela gaiola. Em 15 minutos, vinha o primeiro beliscão de mamãe. “Fica quieto, menino!”. Isso, sem falar que, há mais de 30 anos, quando comecei a freqüentar o Paes Mendonça, em Salvador, as filas duravam horas porque cada preço era datilografado numa máquina mecânica. E não havia sacolas de plástico, mas de papel pardo, sem alças. Aliás, essa era a rãzão de se levar os meninos às compras, para ajudar a carregá-las.

 

O primeiro tapão, de verdade, só quando exausta, entediada e estressada, a gurizada começava a pedir coisas.

 

- Posso pegar sucrilhos?

- Não.

- Posso pegar chocolate?

- Não.

- Mãe, pega a laranjinha!

- Não!

- Olha, mãe, posso tomar esse toddynho?

- Bota isso de volta lá, peste!

 

E tome bolacha na orelha.



Escrito por Ozzymandhas às 09h21
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