Perla e eu (Ato 5)

Ato 5
Perla está dormindo a meu lado, meu anjo paraguaio. Tem a pele fina e suave. Os cabelos têm um perfume mal disfarçado de tintura, mas ainda são (sempre foram?) deliciosamente finos e envolventes. Dou-lhe uma mordiscada no lóbulo da orelha direita, a que está mais perto de mim. Ela sorri.
Eu (sussurrando) – Canta de novo para mim...
Perla (no meu ouvido, em voz mal respirada) – “Sei que existe um paraíso azul, só pra nós dois”...
Na janela, o dia vai desaparecendo aos poucos. Mal posso esperar a hora de voltar para casa e ligar para meus amigos de infância.
Fim
Escrito por Ozzymandhas às 15h06
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Perla e eu (Ato 4)

Ato 4
Perla conta histórias da carreira. Dá ótimas gargalhadas, lindas gargalhadas. Tem os dentes perfeitos, clareados, talvez em excesso. Eu me sinto a vontade. Talvez em excesso.
Eu – Sabe, preciso lhe dizer uma coisa. Mas, por favor, não encare como falta de respeito.
Ela cruza as pernas. As unhas dos pés estão pintadas de grená. Minha cabeça é um turbilhão.
Perla – Mas é claro que pode dicer, diga.
Eu – Você, quer dizer, a sua imagem, foi minha inspiração de mulher na adolescência. Desde então, tenho loucura por mulheres de cabelos longos e pretos. Na verdade, sempre procuro algo de Perla nas mulheres, você sabe, para torná-las mais belas.
Perla acusa o golpe. Descruza e cruza as pernas. Levanta-se. Dá um beliscão suave na ponta do nariz. Disfarça o constrangimento indo buscar mais uma coca no frigobar. Rezo para ela trazer um uísque. Ela traz mais coca light.
Perla – E tem dado certo?
Eu – Creio que não.
Perla – E por que?
Eu – Talvez porque nenhuma delas era a verdadeira Perla.
- continua -
Escrito por Ozzymandhas às 15h01
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Perla e eu (Ato 3)

Ato 3
Perla se movimenta como uma dançarina. Gira os calcanhares e parte para o frigobar. De súbito, tenho uma tontura. Perla está descalça. Traz a coca. Abro a lata, derramo o líquido negro e borbulhante em um copo de vidro muito fino. Ela me observa sorver o refrigerante. Decide, então, falar. Perla fala muito.
Perla – Brasília es uma cidade mui interessante, não? Todos esses prédios, palácios, monumentos. Soy fascinada pela capital do Brasil (ela diz “Brassil”). Qual é mesmo a sua revista?
Eu digo o nome da revista. Ela retoma a palavra.
Perla – Bueno, bueno. Entonces, como vamos?
Eu – Perdão?
Perla – A entrevista, o que você quer saber?
Uma pergunta, uma perguntinha só. Preciso fazer uma pergunta, mas minha mente está vazia. Ou melhor, lotada. Lotada de Perla. A primeira coisa que me vem à cabeça é o som de “Fernando”, do Abba. Na versão de Perla, é claro (“sei que existe um paraíso azul, só pra nós dois”).
Eu – É seu primeiro show em Brasília?
Isso. Vinte anos de profissão e faço uma pergunta obviamente estúpida. Perla deve ter quase 60 anos, ou mais. Capaz de ter cantado para o general Geisel, vá saber.
Perla – Não, non! Vim muitas vezes a Brasília. Tenho muitos fãs na cidade.
Eu (rápido, sagaz) – Claro, claro. Que estupidez a minha. Vai cantar músicas novas, do seu novo CD.
Consigo recobrar o domínio. Ela vai me contando detalhes do novo CD, canções de amor, duas guarânias compostas por compositores paraguaios, um bolero cubano, velhos clássicos. Então, pressinto que ela vai pegar na minha mão molhada de condensação da coca gelada. E de suor também.
Perla – Posso?
Eu (sorriso gentil, sedutor) – Claro
Ela pega o copo de coca da minha mão. Toma um gole mínimo e me devolve. Empurro a pasta com força no meu colo.
- continua -
Escrito por Ozzymandhas às 14h59
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Perla e eu (Ato 2)

Ato 2
Corredor do 15º andar. Procuro o quarto 1516. Bato na porta. Duas batidas suaves. Meu coração dispara. Respiro fundo. Fundíssimo. A porta se abre. Perla está com um vestido de gueixa japonesa muito bem comportado. A túnica, abotoada até o colarinho, é multicolorida em fundo azul-marinho e tem mangas de seda, largas e compridas. A saia vai quase até a canela. Um perfume doce, selvagem, me invade as narinas, mas não é o cheiro que me agrada. Sinto como se tivesse levado um tapa da Luxúria. Imediatamente, tenho uma ereção, mas ela não percebe. O rosto está maquiado em excesso, os cabelos longos, pretos demais.
Perla – Ah, si, o periodista, jornalista, entre, entre.
Eu entro. Minha bolsa de couro é um bom escudo contra minha súbita alteração hormonal. Sento-me em uma cadeira de assento alcochoado e colorido. Tudo em Perla é colorido. O portunhol dela é sutil. Ensaio uma conversa.
Eu – É um prazer muito grande falar com você. Tenho amigos de infância que teriam dado a vida por isso.
Ela ri da minha infâmia. Bom sinal.
Perla – Você é muito gentil. Aceita algo para beber?
Penso em uísque. São 11 horas da manhã.
Eu – Uma coca light, se tiver.
- continua -
Escrito por Ozzymandhas às 14h56
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Perla e eu (Ato 1)

Perla e eu em 5 atos
(obra ficcional baseada em desejos reais)
Ato 1
Portaria de um hotel de luxo de Brasília, o atendente vem até o balcão e me pergunta, olho no olho. Tem um olhar frio, profissional. Logo percebe que não sou um garoto de programa. Aliás, não existem garotos de programa na minha idade. Talvez o Richard Gere, mas, com aquele cabelo, até eu me arriscaria a conseguir uns trocados revirando mexilhões de velhinhas.
Atendente – Em que posso ajudá-lo?
Eu – Meu nome é Ozzymandhas, vim entrevistar a cantora Perla. Ela está no 1516.
Atendente (solícito) – Um momento, por favor.
O atendente pega o telefone e liga para Perla
Atendente – Senhora Perla, o senhor Ozzymandhas, um jornalista, diz ter uma entrevista no seu quarto. (Me olha de soslaio, pensa “não é possível que esse cara esteja comendo a Perla!”). Devo mandar subir? Ah, claro. (Desliga o telefone e vira-se para mim). Ela pede ao senhor que suba em cinco minutos. (sorriso cínico)
- continua -
Escrito por Ozzymandhas às 14h51
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BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, ASA NORTE, Homem, de 36 a 45 anos
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