Passageiros da agonia
Os milhões de brasileiros que cruzam a continental nação brasileira de ônibus devem estar dando risada dessa comoção nacional por causa dos atrasos dos vôos domésticos e internacionais. Na TV, os apresentadores ficam mortificados quando são obrigados a noticiar, com links ao vivo, o absoluto descaso do governo Lula com a crise nos aeroportos, todos aqueles coitadinhos da classe média obrigados a esperar duas horas para embarcar. Relegados ao tédio do ar condicionado, ao monótono vai-e-vem das praças de alimentação, livrarias, sorveterias e lojinhas da Coppenhagen. É realmente ultrajante que Lula, esse demagogo da Bolsa Família, não tenha colocado como prioridade absoluta de governo garantir o traslado das famílias que precisam, com urgência, deslocar-se para Orlando e Bariloche.
O pessoal que pega borrachudo deve estar rindo mesmo. Rindo para não chorar, bem entendido. Tome-se, como exemplo, a rodoviária de Brasília, ainda chamada de “rodoferroviária”, referência aos tempos onde ali também se embarcava em trens. Trata-se de um lixo em forma de concreto, onde milhares de seres humanos são obrigados a se espremer em plataformas estreitas e a se aliviar em banheiros fétidos e cobertos de limo de uréia. Os ônibus atrasam sistematicamente, muitas vezes porque não há como estacioná-los nos boxes. Na verdade, vagas virtuais, porque os veículos são estacionados ao lado de um meio fio, um atrás do outro, em fila indiana, sempre com o risco de atropelar em ré um transeunte distraído ou uma criança desgarrada da mãe. Quando faz sol, o lugar é quente e fedorento. Quando chove, as plataformas ficam molhadas e expostas ao vento. De madrugada, o ambiente é de embarque de judeus poloneses em 1941.
No DFTV (jornal local da TV Globo no Distrito Federal), em dias recentes, o apresentador só faltou chorar ao chamar o link ao vivo instalado no aeroporto de Brasília. Antes, fez um breve discurso sobre a insensibilidade do governo federal, olhos marejados, o rosto tal qual uma máscara mortuária. Para a surpresa dele, minha e dos demais telespectadores, a repórter apareceu (ao vivo) tendo como pano de fundo um saguão de embarque absolutamente vazio e tranqüilo, como uma estação de trem alemã. Um átimo de hesitação, e a pérola:
- Por fora a situação parece tranqüila, não é? Mas por dentro está tudo mais complicado!
Cai o pano.
Do outro lado da cidade, onde a complicação é permanente, mas só gera imagem de gente feia, escura e mal vestida, nem uma única câmera de TV. Sem aviões para se distrair, as crianças pobres correm por entre as dezenas de quitandas coloridas (enroladinho de salsicha, coxinha, bolacha e pão de queijo), pulam as pilhas de trouxas e mochilas de lona carcomida, esbarram-se em carregadores cansados, sujos e mal barbeados. Há poucos e maltratados bancos de pedra para os velhos se sentarem, o jeito é escorregar as costas até o chão e esperar. Como não há controladores de vôo, os funcionários das empresas saltitam com pranchetas por entre os canos de descarga, aos berros e em histéricas gesticulações de mão, para fazer a frota andar ou estacionar. Nas estradas, as mortes pingam ali e acolá, entre uma ribanceira e outra, nos acostamentos, nas placas de proibido ultrapassar. Nem uma única queda livre de 35 mil pés para garantir um mês de noticiário. Só cadáveres, ferragens e mais número na estatística do mês.
Nada, é claro, que se compare ao tédio das filas dos aeroportos e à confusão asséptica de ansiosos passageiros em frente aos portões de embarque.
Escrito por Ozzymandhas às 14h25
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