Efemérides
Eu sempre quis saber o porquê de as datas comemorativas só serem realmente celebradas nos períodos múltiplos de cinco, exceção feita aos atentados de 11 de setembro, estes glorificados, ano a ano, como definitivo ataque da barbárie contra o modo de vida da América, como se Nova Iorque fosse o coração do Ocidente. Grosso modo, as pessoas esperam qualquer coisa chegar aos cinco anos para comemorar pela primeira vez, de verdade, o ciclo de vida ou de morte das coisas erguidas ou destruídas pelo homem. Depois, os 10, os 15, os 20 e, babem, os 25, Jubileu de Prata, caminho para os 50, Jubileu de Ouro. E nem me perguntem que merda é Jubileu. Só sei que o termo vale tanto para o encontro de turmas da Escola Normal como para o delírio de evangelistas de rua.
Pois eu digo, grandes merdas essas efemérides que pululam, aqui e acolá, entre jubileus e bodas. Por que não comemorar, por exemplo, datas de eventos pessoais? Este ano, por exemplo, faz 35 anos que me caguei todo em frente a tia Arlinda, minha professora do Jardim de Infância. Culpa de minha mãe, que fazia o suco de uva bem cedo e colocava na garrafa plástica da merendeira para eu ir à escola à tarde. No verão carioca de 1971, a garapa fermentou no recreio, mas tomei em fartos tragos a beberagem envenenada. Lá pelo fim da aula, entre desenhos e massinhas, ouvi, pela primeira vez, o rufar nas minhas tripas. Um fio de gelo me correu a espinha e entendi, na aurora da vida, que certas coisas são urgentes demais para serem controladas. Balbuciei “tia”, já banhado de suor, e foi-se a avalanche de suco levando na enxurrada gomos de tangerina e réstias de bolo de cenoura. E com ela, minha reputação com as meninas do pré. Há 35 anos, quem diria, parece que foi ontem.
Em 2006, faz 22 anos que quase me afoguei na praia de Placafor, em Salvador, porque danei a nadar borboleta contra a arrebentação. Cometi tal insanidade pela óbvia intenção de me amostrar para umas meninas na areia, sem levar em conta que para bom desempenho dessa modalidade de natação é preciso, além de disposição (que eu tinha de sobra), músculos (que sempre me faltaram). Quando vi que não tinha mais forças para nadar, fiquei mergulhando e voltando à tona, meio que para enganar o medo, meio que para enganar a morte. Uma hora depois, arrastei os pés na areia e cheguei, como um náufrago, num ponto da costa a uns três quilômetros da platéia que queria agradar. Quando essa babaquice completar 30 anos, acreditem, pretendo voltar ao mar. Não percam.
E os meses? Porque só pais de bebês e namorados apaixonados comemoram os meses? Prestem atenção: hoje faz dois meses que entrei na malhação. Acho que só eu, por conta das dores lombares, e o porteiro do prédio, que todo dia me pergunta aonde vou vestido de escoteiro, percebemos a força dessa sutil efeméride. Contra mim, pesa o fato de que nas academias de ginástica o tempo não se conta em dias, mas em cargas. “Hoje eu vou puxar 180 quilos!”, anuncia o troglodita ante a máquina de rosca tríceps invertida. Olha para mim, é claro, justo no momento em que fortaleço os bíceps com duas rodelas de dois quilos em cada extremo da barra prateada de aço. A tribo de sarados prende a respiração. O homem de Neanderthal está prestes a dar um salto evolutivo. Saltam-lhes, também, as veias do pescoço. As pernas se fincam no assoalho como vergalhões, o rosto vira uma máscara disforme de beiços babados e narinas abertas. Ele baixa a barra na linha do abdômen e, na outra ponte da polia, a carga de 180 quilos sobe suave até o limite da roldana. Todos gritam. Dos meus dois meses de puxada supinada com 20 quilos de carga ninguém lembra, os escrotos.
E, finalmente, faz 26 anos que comi a empregada lá de casa, Risoleta. Foi minha primeira vez. Pensei em fazer uma festa, mas não quero afrontar minha mãe. Esse ano, faz 24 anos que ela demitiu Risoleta e contratou Zuzinha, uma mulata de 100 quilos, dentes acavalados e um buço ameaçador. Essa efeméride, me perdoem, vai passar em branco.
Escrito por Ozzymandhas às 20h32
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