Crônica clínica - 2ª parte
Disfarço, com um pigarro, e deixo vazia uma fileira de cadeiras de espera no frio corredor da superclínica de atendimentos preferenciais. Meu plano de saúde, apesar de barato, tem uma tarja amarela no cartão onde se lê “atendimento preferencial”. Pelo nível dos demais pacientes, imagino que os “não-preferenciais” devem ser atendidos na porta do necrotério. Sento mais para o fim do corredor, próximo à única janela do lugar, onde um feixe de luz solar faz frente à frieza das lâmpadas fosforescentes, brancas, pálidas. Exalam, mesmo aos olhos, um certo cheiro de morte.
Três mulheres falam, dramaticamente, sobre suas misérias pessoais, crises de fé e agruras vividas com homens. Todas estão acima dos 40 anos e, ao menos aparentemente, sofrem dos mesmos males físicos: obesidade, pressão alta e depressão. Todas esperam curar suas moléstias com o médico do consultório 3, um especialista em desgraças humanas, ao certo. Uma delas é morena, parece ser a mais nova. Tem cabelos artificialmente escorridos e tingidos de um rubro doméstico, não mais que um disfarce para os fios brancos. Por razões certamente humanitárias, já está há mais de uma hora suportando a falação de uma louca hipocondríaca, mais velha e mais obesa.
Esta, negra e de bochechas fartas, sua como Tia Anastácia em frente ao forno. Caso sofra, de fato, de todos os males que enumera entre suspiros, não tem mais que uns poucos dias de vida. Uns quatro, talvez.
– Você é evangélica? – pergunta, em tom levemente desesperado, a morena de cabelos ruivos.
– Que bom que você notou! – exulta, com um tremor de bênção nas papadas, a negra terminal – Pois é, justamente, a minha fé em Deus e no Senhor Jesus que me permite suportar tudo isso!
É por causa desses momentos que nunca ando sem meu caderninho de anotações no bolso. Principalmente porque, agora, a terceira mulher, deslocada, até então, da atração empática das outras duas, tomou a palavra para si. É, certamente, a mais velha das três. Tem uma aparência miúda, nordestina, de cor e sotaque indefinidos. Os cabelos, encaracolados e crespos, encaixam-se como uma carapuça no alto da cabeça. Com os olhos grudados na vizinha crente, mostra logo a que veio.
– O irmão de meu cunhado, um anjo de pessoa, era evangélico, mas morreu de um câncer seríssimo de estômago.
Não sei se ela enfatizou o “seríssimo” em respeito à negra evangélica, como quem diz que, nesse caso, “nem a fé!”, ou se para mostrar que Deus, quando escolhe a vítima, está cagando e andando para a religião do infeliz. Ateu, permaneci calado, até para não estragar o rumo da prosa. O fato é que, diante da fala da mais velha, as outras duas cajazeiras se entreolharam, num átimo, e se viraram, de forma sincronizada, para a mulher miúda. A de cabelos ruivos voltou um olhar duro para a companheira crente. Subentendeu-se, de imediato, ser dela, a evangélica, a responsabilidade para responder àquela provocação herética e desprovida das razões de Deus. A serva do Senhor não titubeou, embora as bochechas tenham denunciado um leve tremor.
– É que quando é vontade de Deus, minha filha, e não um luxo do Diabo, quem tem que morrer, morre.
A mulher miúda esboçou uma resposta, mas resignou-se à circunstância. No exato instante em que o Bem e o Mal se defrontariam pela quaquilhonésima vez desde o início dos tempos, um homem chamado Alfredo, conforme indicado no crachá grudado ao jaleco branco, chamou alto por uma certa Helena. As três se olharam, não era nenhuma delas. Lá do setor de guichês, a moça nova, magra e de cabelos bem penteados saltitou saudavelmente até a porta do consultório 3. Uma onda de frescor invadiu o ambiente e foi possível sentir o perfume da jovem paciente acima do cheiro característico do lugar, uma mistura de éter com o sabão barato dos lençóis ordinários das macas dispostas aqui e ali. Tinha um sorriso infantil, cheio de dentes limpos. Veio se justificando, mas nem eu, nem Alfredo, demos a menor bola para o que ela dizia. Eu, porque sofria, àquela altura, de uma náusea sociológica decorrente do diálogo das três bruxas postadas ao meu lado; ele, porque, como todo homem, presta mais atenção numa gostosinha do que em qualquer outra coisa na vida.
– Eu perdi a ordem da lista, me desculpe, o celular tocou na hora! Mas esse negócio de celular é assim mesmo, eu me sinto perseguida o dia todo, e começa logo de manhã. Eu sou a Helena, mas não sei onde enfiei meu cartão do plano...
Alfredo a conduz, simpático, ao consultório 3. O médico abre a porta, vê Helena toda radiante e fica radiante também. De fora, ouve-se os dois rindo, cheios de diagnósticos felizes. As três me olham como quem diz: “Vocês, homens”. Nós mesmos, e daí? Penso em sorrir para Alfredo, cúmplice, só de deboche. Mas ele passa sem me notar, o canalha.
No fim do corredor, lá nos guichês, uma moça bonita e arrumada levanta a cabeça para fora da baia de vidro, corre toda a área com a cabeça e verifica que o movimento está tranqüilo. Senta-se, arruma o coque do cabelo emplastrado de musse e, serena, aperta um botão vermelho para fazer andar o dono da próxima senha.
Escrito por Ozzymandhas às 09h20
[]
[envie esta mensagem]
|