Crônica clínica - 1ª parte

A opção levemente avarenta por um plano de saúde mais barato, apesar de certa dificuldade para marcar consultas, levou-me a um mundo desconhecido e exuberante, cheio de corredores de luz branca e assoalhos de linóleo verde por onde circulam humanos bizarros. As longas esperas nas portas dos consultórios do hospital abrigam, junto com o tédio e a impaciência, uma fauna nebulosa, conhecida apenas de uns poucos profissionais de saúde. Não há, em absoluto, estudos sociológicos que os contemplem. São, por assim, dizer, a última fronteira da humanidade com o fantástico, com o fabuloso. Convoque-se, com urgência, cientistas, curandeiros, oráculos e políticos, enfim, para essa tarefa de reconhecimento social que urge nos centros clínicos.

 

Para começar, há sempre jovens casais, ela, grávida, ele, embaraçado com as indecifráveis imagens da ecografia. Metem-se em acaloradas discussões sobre a posição do fígado, não, dos olhos, que são, na verdade, a coluna vertebral. A culpa é da médica do consultório 4, uma ginecologista com cara de buceta (mimetismo?), que ainda usa aquela máquina antiga de ultra-sonografia, aquela que produz imagens borradas que os médicos fingem interpretar. Do meu lado, a moça pobre e grávida comenta com o marido, homem triste e de banho mal tomado, com cara de perdido:

 

- Olha a barriga dele.

 

O comentário não tem emoção, embora ela se esforce para anunciar uma boa surpresa. O marido levanta o exame, aponta a película escura na direção da luz do teto, coloca o indicador cascudo em um ponto da imagem e corrige, triunfante, com pronúncia impecável:

 

- É o cérebro.

 

A mulher acusa o golpe, mas reage rápido. Toma o exame da mão do marido e, com os olhos, condena sua ignorância.

 

- É a barriga, fio. Olha aqui, fio. Vê se isso pode ser cérebro? Olha o “rao” X, fio! – sentencia.

- É o cérebro – refuta o marido, feliz por não se deixar dobrar.

 

Ela suspira e volta para seu lugar. Ele olha para o exame na mão dela e se vira de lado. No segundo seguinte, já é o mesmo infeliz de olhos largados num ponto qualquer do corredor.



Escrito por Ozzymandhas às 11h49
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