Meninos, eu vi os meus. E basta.
Tenho alguns amigos queridos que, somente agora, depois dos 30, quase 40, estão tendo filhos. Outros, mais novos, também. A eles, peço desculpas por não suportar histórias de nenéns e gracinhas de bebês porque, devo confessar, nem quando os meus eram pequenos isso me seduzia. Gosto de crianças, isso gosto, mas pela ótica da pureza de idéias e pelo inusitado das ações. Mas não tenho paciência alguma para essa ladainha de papai e mamãe do tipo “Meu Deus, ele falou pum-pum!”. Fujo disso como o diabo da cruz. Por isso, não visito recém-nascidos e, por muitos anos, fingi ser judeu para evitar ser convidado para ser padrinho ou freqüentar batizados. Antes que joguem fraldas usadas em mim, confesso que também já estive nesse mundo, enganado que fui por dois ou três pediatras sobre a inteligência e a surpreendente capacidade motora de meus dois meninos.
Funciona assim. Os pais, principalmente os de primeira viagem, levam os pimpolhos embrulhadinhos nos cueiros de flanela (40 graus, mas o neném tem que ficar aquecido) ao consultório e, obsessivos, observam as ações do médico. O pediatra, que vê trocentos rabos de criança por dia, finge enorme paciência, haja vista precisar dos trocados da consulta e da boa fama de bonzinho que todo sujeito dessa área deve ter. O cafajeste percebe logo ter presas vulneráveis nas mãos, vai torná-los seus escravos para sempre, mamãe e papai (quando tem papai) estão no papo. Fica mexendo na cria, vira o bichinho de lado, apalpa as costelas, mete a espátula na língua, lanterninha no ouvido. Os pais se entreolham, apavorados com o silêncio do médico. “Hummm”, grunhe o pediatra ao puxar os bracinhos do bebê para cima. A mãe ameaça chorar e, é claro, começa atrapalhar a consulta. “Mamãe está aqui, olha a mamãe!”. O pai, que é homem, finge solidariedade, mas começa a perceber onde se meteu.
Vêm a balança e a fita métrica. “Hummm”, entoa, outra vez, o canalha. Sabe que está minando a resistência emocional da mãe que, à beira da histeria, começa a fazer perguntas nervosas.
- O que são essas bolinhas? É normal ter essas bolinhas? Posso dar chá em vez de água? Não pode, né? Minha mãe que insistiu! Eu sabia que não podia dar chá! Por que eu ouço essas pessoas velhas, que não sabem de nada? E você? Vai ficar olhando? Não diz nada? Olha o menino aí, cheio de bolinhas, meu Deus!
O pai quer morrer, mas se limita a acalmar a mulher com um copo d’água. O médico continua a tortura. “Hummm”. O molequinho começa a chorar. “É frio!”. E vem a mãe sufocá-lo com uma mantinha de lã pura. O pediatra, no auge da crueldade, dispara entre os dentes:
- Vamos conversar.
Os pais se acomodam nas cadeiras em frente à mesa. A mãe acalenta a criança, desce o peito para dar de mamar. Espera pelo pior. O pai futuca caixas de amostras grátis, mexe nos palitinhos de plástico para exame de garganta, lâminas coloridas com cheiro de tutti-frutti. Guarda duas no bolso.
- O menino está ótimo, com excelentes reações. Tem altura e peso acima da idade dele, e fiquei surpreso como ele é inteligente, levanta o bracinho sozinho, reage à luz...
Pronto. O pediatra fez a sua parte. Os pais saem exultantes do consultório, prontos para infernizar amigos e parentes com relatos da genialidade do garoto.
- O médico falou que ele é muuuito inteligente para idade dele. Você precisava ver ele levantando os bracinhos sem ninguém falar nada! O pediatra ficou de boca aberta!
Eu fujo, sinto muito. Fujo mesmo.
Escrito por Ozzymandhas às 12h05
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