Primeiro, foi uma frase solta de uma amiga, Cynthia, largada numa conversa de rua: está na hora dos anos 80 acabarem. Ontem, fui fuçar o orkut alheio, como faço com freqüência, para entender e montar diálogos fragmentados ao longo de scraps postados aqui e ali. Aproveitei, como também de costume, para caçar novas comunidades, um divertimento pueril a que me entrego com inexplicável sofreguidão. Gosto dos bizarros e dos inusitados, mas cravei a vista num ingênuo “Música dos anos 80”. A foto P&B é de Renato Russo, novo, de barba rala, com metade do rosto de Dado Vila-Lobos, ambos com aquele ar blasé que os roqueiros da época usavam para disfarçar a origem burguesa. Digo isso assim, sem rancor: Legião Urbana não é só parte da minha memória afetiva, é um naco da minha formação, tão importante como o encarte “Fórum” da revista Ele & Ela no meu amadurecimento sexual. E foi, então, que decidi me despedir dos anos 80.
Primeiro, porque eu estive lá, e sei, portanto, que foram os filtros do inconsciente coletivo que os transformaram numa época exultante. Os 80 foram, como todos os tempos, uma era de incerteza, onde adultos discutiam os rumos das guerras e os jovens, perdidos, buscavam modelos para criar personagens convincentes. Eu percorri aquela década em plena forma, embora tenha passado três anos enfurnado em um internato em Minas – o que me foi, diga-se de passagem, de grande valia. Antes do rock nacional, infestei-me do pop americano em bares de reputação duvidosa e em puteiros sem reputação nenhuma, onde junke boxes luminosas entoavam canções de Elton John com graves distorções polifônicas acompanhadas, palavra por palavra, por putas adestradas por intermináveis noites de Bacardi e Martini Bianco. Uma delas, prognata e maquiada, repetia de olhos fechados as pausas de respiração de Empty garden. Foi meu primeiro contato, de verdade, com os anos 80.
Lembro que a Blitz veio com aquela música incessante, cheia de batatas fritas etc, e os Titãs pareciam uma trupe circense, dezenas no palco, com a canção do radinho de pilha, uma dessas merdas eternizadas, hoje, como prenúncio de uma revolução. No entanto, quando volto aos anos 80, tanto tempo e quilos atrás, eu ouço Dalto cantando Muito estranho. Muitos anos depois, acho que por influência de um amigo escroto, me pareceu ser uma música meio assim, de viado. Mas acho difícil que seja. O viado que eu gostava era Biafra, o leão ferido.
Nos anos 80, claro, eu tinha uma banda. Éramos seis caras, todos do internato, e eu tocava contrabaixo, algo realmente inexplicável, porque bastou que a banda acabasse, e nunca mais encostei a mão nas cordas daquele instrumento. A gente cantava a aurora dos anos 80, inclusive aquela versão clássica do Rádio Táxi, Eva, apresentada no palco ao lado de um revolucionário aparelho de videocassete com imagens de paisagens de vários cantos da terra. A banda se chamava Ultraleve. Era uma marca de colchão, não sei porque aceitei essa merda de nome sem luta.
Então, vi a foto de Renato Russo e metade da cara de Dado Vila-Lobos, e eles pareciam aborrecidos com esse eterno regresso, essas festas todas cheias de I will survive e Kid Abelha, esses acústicos caça-níqueis da MTV (a verdadeira aposentadoria do rock nacional), Lobão ficando velho junto com as piadas de Marcelo Tas. Tudo isso me deprimiu.
Agora, ouço Mr. Lonely, e fodam-se os críticos.
Adeus, anos 80.