Os dois malas de Francisco
Não sei vocês, mas eu estou de alma lavada. Vi “Dois filhos de Francisco” e, felizmente, achei uma merda. Confesso que, no longo período de exposição da película nos cinemas de Brasília (o Distrito Federal é um quadradinho dentro de Goiás), evitei de todo jeito ir ao cinema e acabar gostando do filme. Não queria, nem por uma ironia do acaso, gostar de qualquer coisa ligada à essa dupla de taquaras rachadas que se intitula Zezé Di Camargo & Luciano. Não queria mesmo, sem sacanagem. Não suporto música sertaneja, e não é por causa dos caipiras sem noção que a entoam, mas por conta do caráter primário das letras e das harmonias. Isso, sem falar naquela segunda voz fanhosa e insuportável que acompanha o, digamos, cantor principal. Mas o fato é que tinha muita gente elogiando o filme, além do massacre diário da programação da TV Globo, que massificou a produção – e gerou boas críticas – antes mesmo da exibição nos cinemas. Mais ou menos como faz com os filmes (?) de Xuxa – que, aliás, caminha para os 50 e ainda insiste em falar como uma retardada.
Bom, voltando ao filme, que, como disse, achei uma bosta lacrimosa e entediante. Confesso que o medo de nutrir alguma simpatia pela dupla do Zezé havia se dissipado um pouco antes de alugar o DVD e vencer o preconceito em prol desse exercício de boa vontade, no caso, o de ver um ótimo elenco metido nesse clichê manhoso dos pobrezinhos que sofrem, sofrem, sofrem, vencem na vida e se tornam essas duas malas sertanejas. Li uns artigos sobre o filme e percebi que, quando eram críticos “sérios” a comentar, eles tinham o cuidado de não desagradar as grandes distribuidoras – fontes permanentes de jabás - , mas também resguardavam suas reputações com comentários do tipo “bem resolvido” ou “eficiente”. Em alguns casos, fala-se de uma trilha sonora “funcional” e de “acertos técnicos” na montagem, além, é claro, da tradicional “bela fotografia”. Agora, dizer que é bom, mesmo, só cabeça de bagre e dona-de-casa, dessas que choram até hoje com as desventuras da escrava Isaura.
Engraçado que, como vende milhões, a música sertaneja, assim como a trupe bizarra do Calypso, foi blindada pelo establishment musical e pela indústria do entretenimento que tem como ponta-de-lança o Domingão do Faustão – provavelmente a maior lata de lixo musical do planeta. Os caras do Zezé cantam coisas do tipo:
Já que deixaram nóis soltar a voz Agora, agüenta nóis, agora, agüenta nóis Já que deixaram nóis soltar a voz Agora, agüenta nóis, agora, agüenta nóis O sertanejo é a cara do brasil Verde, amarelo, branco e azul anil Pra quem na vida o destino é cantar O nosso som está em todo lugar Quanta pedreira a gente enfrentou Até que, um dia, Deus abençoou A gente ganha o jogo na garganta E o povo canta quando a gente canta
Já que deixaram nóis soltar a voz Agora, agüenta nóis, agora, agüenta nóis Já que deixaram nóis soltar a voz Agora, agüenta nóis, agora, agüenta nóis
E ai de quem descer o pau. Vem logo o Faustão, de papa e olhos esbugalhados, esfregar trocentos discos de platina na nossa cara. Claro, claro, se estrume vende mais que flor, vamos encher os jarros de merda.
Ah, foda-se a música sertaneja e os filhos de Francisco.
Escrito por Ozzymandhas às 13h17
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