Lennon e eu, 25 anos
Eu demorei 24 anos para ler “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger, porque, aos meus olhos de menino, o livro (aliás, ótimo) era a personificação do mal exposto ao mundo naquele trágico 8 de dezembro de 1980. Na hora em que desferiu quatro tiros mortais em John Lennon, o assassino Mark David Chapman tinha um exemplar de “O apanhador” nas mãos. Apenas no ano passado, ao visitar a acolhedora livraria de meu amigo Lourenço Flores, a Esquina da Palavra, é que me deparei com uma edição tentadora do livro: prateada, sem arremates, sem nada escrito nas orelhas nem na contracapa. Nem uma única alusão ao autor ou ao crime cometido por Chapman. Nenhum mistério aparente, só a velha história de sempre, de um adolescente amargurado e desajustado que perambula por Nova York com a alma torturada pelas dúvidas que, sem sentir, compartilhamos com ele. Nunca me interessei pela vida de Chapman, nem por sua morte. Não sei se o livro foi fundamental na decisão de matar Lennon ou apenas um elemento deliberadamente macabro para a compor a cena do crime. O fato é que nunca odiei Mark Chapman, embora tenha a impressão que o silêncio de Lennon tenha sido muito providencial para os conservadores americanos e outros monstros pavorosos da caretice de lá para cá.
Na verdade, Chapman me apresentou aos Beatles, coisa que me deu rumo definido na vida, me fez aprender inglês, violão, piano e, é claro, foi definitivo no meu aprendizado de sedução. Trocando em miúdos: porque Chapman matou Lennon, eu aprendi a comer gente por causa dos Beatles. Antes de Lennon ser assassinado, eu sabia da existência dos Beatles, mas tinha 14 anos, era gordo e distraído, além de possuir uma vocação para o isolamento e à leitura compulsiva. De repente, todo mundo só falava do cara morto em frente ao edifício Dakota, em Nova York. O mundo chorava e eu não sabia exatamente porque. Lembro de um senhor de aspecto respeitável tentando entoar “Obladi Oblada” no Central Park, mas caindo no choro antes de completar o último verso da primeira estrofe. Imagine, Imagine, Imagine! Eu nem conhecia essa música linda, mas as rádios de Salvador foram tomadas, outra vez, pela Beatlemania. Então, um dia qualquer daquele dezembro, um locutor de voz chorosa colocou para tocar “For no one”. Naquele instante, eu despertei.
Até hoje quando me perguntam que música dos Beatles eu mais gosto, “For no one” sai a queima roupa. De alguma forma, é nos versos tristes dessa canção que me apaixono e me desespero. “And in your eyes you see nothing, no sign of love behind the tears cried for no one”. O mundo chorava a perda de Lennon e eu, ironicamente, celebrava meu encontro com o destino. Os Beatles passaram a ser parte integrante da minha vida, da minha relação emocional com as pessoas e com as minhas circunstâncias. Não me transformei, felizmente, nesses tarados que sabem o dia em que Ringo Star perdeu a virgindade ou o nome da cunhada lésbica de George Harrinson. Sei pouca coisa a respeito desses detalhes, mas sou capaz de localizar a obra dos Beatles dentro do tempo e através dele.
Chapman matou Lennon, mas também quebrou os espelhos da minha inocência. Não sei se o condenaria à morte, se pudesse.
Escrito por Ozzymandhas às 11h59
[]
[envie esta mensagem]
|
Salve o Goiás!
Coisa mais sem graça esse campeonato brasileiro por ponto corrido. Não sei exatamente a quem interessa essa porcaria, mas esse negócio de Brasileirão sem final de verdade, sem desespero e dor, é uma merda completa. Chega a ser admirável o esforço dos programas de TV, notadamente o Globo Esporte, de fazer daquela derrota do Corinthians no Serra Dourada um momento maravilhoso do timão campeão. Não foi. Quem teve jogo, pinta e placar de campeão foi o Goiás, um time que, ano após ano, produz craques em série para o futebol brasileiro – mas fica no Centro-Oeste, e os goianos, todos sabem, têm um sotaque insuportável. Então, as emissoras de TV preferem continuar enchendo a bola dos times decadentes do Rio e do astro argentino Carlito Tevez, o cara de carranca com fome. Pois foi Paulo Bayer, que bem poderia ser um dos filhos de Francisco, que comandou o espetáculo goiano no Serra. Tivesse sido uma final de verdade, o Goiás teria sido o campeão, com gol no finalzinho, com o estádio lotado, a galera alviverde zoando do silêncio corintiano. E é sempre mais legal ver David vencendo Golias.
Aí, corta para São Paulo, aquele show de hipocrisia, a massa desdentada chorando e rezando, um ou outro babaca com a camisa da Argentina, com a cabeça raspada em meridianos, como se tivesse sido moldada por um descascador de laranja, a La Carlito. É uma merda. Fosse um campeonato do tipo mata-mata, pouco teria adiantado essa polêmica de o Corinthians ter ficado na frente por causa das fraudes de um juiz ladrão confesso e, mais tarde, tirar o título do Internacional graças a um gol roubado por outro árbitro. O pau tinha comido antes, um contra o outro. Não sei a quem interessa, de verdade, esse modelo burocrático de ponto corrido que beneficia o desempenho em detrimento da emoção. Dá nessa merda. O Goiás enfia um saco no Corinthians e os repórteres engraçadinhos da crônica esportiva têm que inventar textinhos do tipo “o Goiás venceu no placar, mas a vitória da emoção é toda corintiana”. O caralho, ô meu.
Campeonato disputado por pontos é uma bosta, ainda mais quando o astro do time campeão, derrotado na “final”, é argentino. Aliás, esse era o último orgulho nacional que nos faltavam roubar. Não é a toa que a final da segunda-divisão, que é decidida no mata-mata, foi muito mais alegre, emocionante e brasileira do que esse título insosso e mal comemorado do Corinthians.
Ah, que se foda. Eu torço para o Bahia.
Escrito por Ozzymandhas às 20h39
[]
[envie esta mensagem]
|