Jornalismo de araque
Nem será preciso abrir as urnas do referendo para já se contabilizar, mesmo antes da votação, uma vítima fatal jazida ao túmulo pela turma do “não”: o jornalismo. Desde o início do duelo sim/não na TV, isso é coisa que chama a atenção. Afinal, qual o objetivo dos créditos de “jornalista” e “repórter” dados àquelas pessoas que defendem uma opinião unilateral? Qualquer estagiário da Gazeta de Jurubeba do Norte sabe que um dos pilares do jornalismo é a abordagem democrática de todos os lados envolvidos com a notícia. Não entendo, portanto, porque a bela apresentadora do programa do “não” coloca sob si o crédito, como se uma grife fosse, de “jornalista”. Jornalista de quê? Para quê? E aqueles “repórteres” na rua, referendando, por assim dizer, uma mal disfarçada ordem de serviço?
Os tais créditos são totalmente desnecessários, para não dizer inúteis, e sofrem de desvio de caráter no nascedouro. Foram bolados pelos marqueteiros da jornada pró-armas para agregar à campanha política – baseada em argumentos fascistas – uma credibilidade que é exclusiva do bom jornalismo. É a velha mania de confundir assessoria com reportagem, apenas porque uma insiste em usurpar da outra o formato, a linguagem e, em alguns casos, infelizmente, a formação. Ser jornalista nada tem a ver com ter o diploma de jornalista, como me parece ser o caso dos “repórteres” da campanha do “não”. Isso, é claro, dentro da perspectiva mais otimista. Imitam aqueles dentistas-modelos que protagonizam propagandas de pasta de dente da televisão, mas o fazem de maneira mais vil. Os dentistas estão descaradamente a serviço de um produto, com nome, cor e CNPJ à disposição do consumidor. Os “jornalistas” do “não” fazem o serviço de uma frente parlamentar que raramente dá as caras, além de servirem de infantaria para uma indústria armamentista obscura que só agora, com a ajuda dos tais “repórteres”, mostra as garras à nação.
Seria o caso de os “jornalistas” em questão deixarem de lado a vida em estúdios de publicidade e o ar-condicionado das assessorias para transitar um pouco pela vida real. Passar umas temporadas como repórteres de verdade em prontos-socorros de uma grande cidade. Tirar uns plantões em delegacias dos grandes centros. Conversar com pais desesperados nos corredores gelados dos IMLs do país. Ou, no mínimo, aprender que só pode se dizer jornalista quem faz jornalismo. O resto é propaganda de efeitos maléficos, circunstanciais, pautados pela fluidez com que as teses fascistas circulam pelas veias da massa. Por isso, não me surpreende nem um pouco que o discurso a favor do “direito” ao armamento possa sair vitorioso das urnas. O povo está sempre inclinado a escolher Barrabás.
Escrito por Ozzymandhas às 21h15
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