Wilson vai às compras

 Aviso aos marqueteiros da frente parlamentar em campanha a favor do desarmamento no Brasil: a TV Globo tem em mãos a melhor imagem pelo “não” no referendo que se aproxima. Explico: no Linha Direta desta última quinta-feira, uma repórter e um cinegrafista da emissora conseguiram flagrar o capitão Wilson Machado, da bomba do Riocentro, em um supermercado da Barra da Tijuca. Ao contrário daquele fatídico ano de 1981, quando servia no centro de terrorismo e tortura do DOI-CODI do Rio de Janeiro, o capitão (hoje coronel) Wilson não portava armas nem tinha, a tiracolo, um sargento com uma bomba no colo. Magro, grisalho e assustado, o sanguinolento agente da repressão da ditadura tinha só um carrinho de compras para se defender. Como muda a coragem de um homem sem um revólver no coldre! Restou ao perigoso terrorista uns olhos esbugalhados, a boca seca, as narinas abertas em pânico. Grudou-se o corajoso combatente dos porões ao carrinho de ferro e plástico, louco para achar uma saída. Impressionante como, sem uma arma na mão, revelam-se os homens.

 

Nada como um dia atrás do outro. Há 24 anos, ele, Wilson Machado, empenhava-se em maquinar um atentado que poderia ter matado centenas de pessoas no show de Primeiro de Maio do Riocentro, para onde tinha ido em companhia do sargento Guilherme do Rosário. Por inaptidão ou azar, a bomba explodiu dentro do Puma de chapa fria que a dupla usava para trabalhar. Fim de uma carreira atribulada que incluía, entre outras atividades pagas pelo contribuinte, explodir bancas de revista e matar pessoas inocentes com cartas-bombas enviadas covardemente a adversários do regime a que servia. Este era o jovem capitão Wilson. Passou quase um quarto de século protegido e escondido pelo Exército, essa instituição nacional que, longe da minha compreensão, zela por essa memória horrenda como se fosse obrigada a, ainda hoje, expiar a culpa de falecidos gorilas de outrora.

 

Ver o capitão Machado escapulindo de uma câmara de TV como um cabrito acuado foi tão chocante como relembrar a história do Riocentro. Foi estarrecedor perceber como, há tão pouco tempo, o país era governado por uma malta estúpida e infeliz, capaz de montar um inquérito onde se culpava terroristas de esquerda pela bomba que destruiu os culhões do sargento Rosário e a macheza do capitão Wilson. Foi assim: Rosário e Wilson, dois milicos descolados e prafrentex, decidiram ir de Puma ao show de Elba Ramalho, Beth Carvalho e Fagner, em Jacarepaguá. Ao perceber que ambos estavam de bate-papo no estacionamento, terroristas de esquerda que por lá passavam com uma bomba na bolsa, assim comentaram: “Ah, é muita sorte. Olha lá dois oficiais à paisana do DOI!!”. E – bum! – lá se foi pelos ares a noite de diversão dos jovens militares. E, com ela, o bom senso, a opinião pública e o país.

 

Na noite de quinta-feira, o Brasil das pessoas decentes lavou a alma ao ver o bravo agente da repressão se debruçar, com todo o cagaço do mundo, sobre um carrinho de supermercado. Assim, pendurado e à mercê de uma esteira rolante constrangedoramente lenta, deixou-se fugir mais uma vez da História. Foi-se a triste figura de um tempo que, não fosse um surto aqui e acolá de sociopatas (sem falar nos discursos do deputado Jair Bolsonaro, do PP fluminense), já não é tão difícil de esquecer.



Escrito por Ozzymandhas às 23h37
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Blog de raiz

Como tudo que é legal, descolado e interessante no Brasil, o movimento blogueiro está caindo no gosto e na mão dos grandes grupos econômicos e, por extensão, nas alças das malas de muitos chatos de galocha. Os primeiros blogges são como os primeiros cristãos e os primeiros sambistas, antes da invasão dos evangélicos e dos pagodeiros, apenas para ficar no esteriótipo. Tinham a pureza de princípios e a criatividade inerente aos desbravadores. Os blogges pioneiros foram as primeiras bandeiras rede adentro. Dessas entradas exalavam cheiros do novo, não esse novo fabricado em cultos midiáticos, não essa mecha de azul pintada no cinza, essa falsa arte intelectual vendida como instalação para a bienal, mas esse novo próprio da modernidade. Carregavam, por assim dizer, o pendor revolucionário dos alijados da mídia e do mercado editorial, dos que buscavam nessa trincheira independente aquilo que não encontravam – e ainda não encontram – nos quartéis da imprensa ou nos blocos fechados das grandes editoras: liberdade de expressão, escárnio, idéias originais e putaria de bom gosto.

 

Ter um blog, até pouquíssimo tempo atrás, era uma afronta ao Sistema, um desequilíbrio nas normas vigentes ditadas pelos sites produzidos por webdesigners. O blog veio, então, como o grafiteiro: simples, direto, sem frescuras. “Celacanto provoca maremoto”. E foda-se o resto, hiperlinks, hipertextos, hiper-o-caralho-a-quatro, interface gráfica e outras bichices. Os sites são os anos 80 da internet, se vocês querem saber. Os blogges, por isso, vieram para ser o moderno. Os sites usam ombreiras e calças no umbigo. Os blogges resgataram a cintura e o chinelo. Os sites sofrem de hiper-pretensão. Os blogges têm duas ou três cores e um arco-íris de idéias. Os sites são o juiz sisudo do tribunal, são a sentença e o fim. Os blogges têm um fraco para a tertúlia e para dias de sol, cheiram, por isso mesmo, a bronzeador de côco.

 

Mas tudo isso está em perigo.

 

Todo tipo de careta, todas as celebridades dementes, toda essa gente que floreia obviedades na grande mídia, políticos, jornalistas e oportunistas de plantão, todos estão investindo em blogges. Os grandes jornais mantêm blogges de seus colunistas, uma espécie de metalinguagem antropofágica onde a utilização de uma idéia alheia (e usurpada) serve, com despudor, para uma concorrência interna onde os modelos envolvidos serviram, entre outras coisas, para alavancar a carreira dos que, agora, ocupam os blogges. Traduzindo: o blogueiro concorre com o colunista que, normalmente, é o mesmo blogueiro em questão, ou alguém da mesma raça, aliás, muito desunida.

 

Ok, há espaços para todos, mas isso também se dizia dos fornos dos campos de concentração. De qualquer maneira, se alguém for morrer nessa briga, seremos nós, os blogueiros de raiz, que rimam mensalão com mexilhão, que promovem a desconstrução dos modelos de texto, justamente para tirar a língua do armário e falar para caralho, com olhos de gente, sem tanta pose, sem a obrigação de ser um ser social, político, polido. Em pouco tempo, porque o tempo tem andado muito rápido, nós, os blogueiros de raiz, vamos virar a bossa-nova, a velha guarda, uns poucos mil acessos por mês. O blog da Wanessa Camargo e o do prefeito César Maia, versões sertanejas, terão tido milhões. Não culpo ninguém pela nossa desgraçada sina, eu mesmo leio Caras e gosto. O mundo virtual e o real têm isso em comum: é cheio de idiotas.

 

Consola-me saber, no entanto, que, morto, estarei em ótima companhia. Enquanto outros irão arder no fogo da eternidade com, sei lá, Olavo de Carvalho, eu estarei ao lado de Bruna Surfistinha, eu, esgotado, ela, com aquele puta peitão gostoso. 



Escrito por Ozzymandhas às 07h51
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