Uns aos outros

Dia desses acordei mais cedo e, sem coragem de logo levantar e enfrentar a fúria de mais um dia de seca, assim, de cara, pus-me a pensar em uma coisa que, se não me incomoda, me estranha. Tenho vários inimigos. Homens e mulheres que formam grupos heterodoxos dispostos em pontos distintos do tempo e do espaço. Chega uma hora em que é preciso organizá-los para que, no futuro, naqueles segundos que antecedem à morte, não passem essas figuras todas à minhas vistas a me atrapalhar as lembranças derradeiras. Então, aproveitei o prenúncio da primeira sede do dia e fiquei a tamborilar nos neurônios um esquema de arquivos, um hábito de herança, creio, dos muitos momentos de solidão que amarguei na infância, desinteressado que era das meninas e de tanto gol-a-gol, mas apenas em gibis, novelas e no mundo escondido dentro da enciclopédia Conhecer, enormes livros de capas vermelhas. Ou em festas de apartamento onde ficava irremediavelmente deslocado em busca de uma poltrona para desmoronar, morto de tédio e cansaço, desperto, apenas, ante a perspectiva de comer alguém no banheiro.

 

De volta à vaca fria, toco a minha lista de inimigos. Pensei, primeiro, na separação mais lógica desses alvos de pura representação filosófica: homens e mulheres. Os homens, quase todos são cornos, não por minha culpa, mas pela própria natureza individual dos que assim se consideram. Há, entre eles, exemplos clássicos de cornos-da-cara-feia, que gostam de maledicência e da insensatez do falso domínio da mulher: voltam-se contra ela e contra mim, fazem da vida uma arena de fraquezas pessoais em luto permanente. Estão irremediavelmente perdidos. Na categoria dos não-cornos, há os ressentidos. Esses são os mais perigosos, porque se aliam aos defeitos, à meia dúzia de coisas estúpidas que você (e todo mundo) andou fazendo e, principalmente, aos próprios recalques. São inimigos cheios de adrenalina malsã, dados à futrica e à depravação do caráter. Falam mal de você para seus amigos, lhe detonam com as mulheres, uns covardes que vivem no anonimato. Omitem da audiência os furúnculos que trazem na alma. E, por último, claro, os atuais das ex, que odeiam, com razão, qualquer um que já tenha emburacado as mulheres deles.

 

As mulheres, não. Essas me odeiam com paixão. Algumas fazem disso uma espécie de seita que, aparentemente egoística, trata de uma confluência muito curiosa de sentimentos únicos compartilhados por criaturas semelhantes, ou melhor, parecidas, como são todas as ex-namoradas. Claro, sempre tem um babaca para dizer que se dá “superbem” com a ex. Na verdade, um cabra amansado no chifre de uma xana livre. Então, aprendendo a lição: você se dá superbem com sua atual, e olhe lá. E deixa de ser babaca. Com as ex, dá-se o nosso coração vagabundo às muitas safras de nostalgia e ausência física, a famosa saudade daquela bimbada caseira e certa como o café da manhã. Não é à toa que solteiros sempre caem nessa esparrela. O desejo vence o conhecimento e faz as vontades da mafiosa organização genital de nós outros. No mexilhão morre a razão, é o que eu digo.

 

Mas, e entre as mulheres? Da tropa feminina inimiga, destacam-se várias categorias, pois as mulheres, como todos sabem, têm uma estrutura emocional mais complexa, embora as reações, no caso em questão, sejam padronizadas: choro, drama, falsa serenidade na despedida, drama e choro, nessa ordem. Depois, vêm os e-mails desaforados e os desabafos do tipo não-sei-como-pude-perder-tempo-com-você. Entre elas, há as traídas, por atos ou idéias, mas quase sempre porque ficaram chatas e desinteressantes, pelo menos para mim. Nem eu peço perdão, nem elas me perdoam. É uma troca justa, não reclamo. Há as estarrecidas, que me traíram, mas eu nunca soube. Estas me olham com estupor. Eu, só agora, as reconheço assim. Há, também, as esnobadas, que viraram sombras frias e amarguradas. Há as esquecidas, e, como indica a categoria, delas não me lembro – embora lhes credite um par de riscos profundos moldados nas lâminas das portas do meu carro. Ah, e há uma que me despreza porque, um dia, cometi a sandice achar uma merda o cabelo dela.

 

E essa, eu sei, nunca vai me perdoar.



Escrito por Ozzymandhas às 22h13
[] [envie esta mensagem]



[ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, ASA NORTE, Homem, de 36 a 45 anos


Histórico
20/07/2008 a 26/07/2008
01/06/2008 a 07/06/2008
02/03/2008 a 08/03/2008
28/10/2007 a 03/11/2007
19/08/2007 a 25/08/2007
20/05/2007 a 26/05/2007
06/05/2007 a 12/05/2007
01/04/2007 a 07/04/2007
04/03/2007 a 10/03/2007
25/02/2007 a 03/03/2007
28/01/2007 a 03/02/2007
17/12/2006 a 23/12/2006
19/11/2006 a 25/11/2006
12/11/2006 a 18/11/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
09/07/2006 a 15/07/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
29/01/2006 a 04/02/2006
01/01/2006 a 07/01/2006
04/12/2005 a 10/12/2005
16/10/2005 a 22/10/2005
25/09/2005 a 01/10/2005
11/09/2005 a 17/09/2005
07/08/2005 a 13/08/2005
03/07/2005 a 09/07/2005
19/06/2005 a 25/06/2005
05/06/2005 a 11/06/2005
15/05/2005 a 21/05/2005
24/04/2005 a 30/04/2005
17/04/2005 a 23/04/2005
03/04/2005 a 09/04/2005
20/03/2005 a 26/03/2005
13/03/2005 a 19/03/2005
06/03/2005 a 12/03/2005
27/02/2005 a 05/03/2005
20/02/2005 a 26/02/2005
06/02/2005 a 12/02/2005
30/01/2005 a 05/02/2005
23/01/2005 a 29/01/2005
16/01/2005 a 22/01/2005
09/01/2005 a 15/01/2005
19/12/2004 a 25/12/2004
12/12/2004 a 18/12/2004
05/12/2004 a 11/12/2004


Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
Blog do Nassif
Blog do Mino
Blog do Noblat
Escola Livre de Jornalismo
CartaCapital