Saudades do futuro

No ano de 1989, eu era alegre e jovem, nada a ver com viadagem, embora se assim fosse, nada teria de ruim. Aquele não foi um ano qualquer, e eu sabia, o que dava às graças daqueles meus dias uma magia que persigo, ainda hoje, a cada manhã, como se as luzes – sim, daqueles dias – fossem (e são) o meu Graal, uma coxa de negra retinta, que só as meninas da Bahia têm. Naquele ano, eu ainda penteava os cabelos para trás e subia a ladeira do Politeama de Cima na carreira, assustando as putas domingueiras e insones das madrugadas do centro de Salvador, eu era do caralho, sinto dizer. Só para saber: em uma paletada, eu ia do Campo Grande para o Farol da Barra, e vejam vocês, cheguei onde eu queria chegar. Naquele ano, o de 1989, eu era um dos 400 mil sonhadores que se acotovelaram nas barras do grande farol, no cotovelo da Cidade da Bahia, para ouvir as palavras de um homem quase santo, um outro farol, Luiz Inácio da Silva, o Lula.

 

Eu era até mais do que parte do povo, eu era repórter do Jornal da Bahia. Cheguei foi cedo naquela merda lotada de gente e vendedor de tudo que se come e se descome, cocada, passarinha, banana real, punheta, beiju, acarajé, abará, cuscuz de tapioca e picolé da Capelinha. Eu não tinha barba direito, ainda, só um buço idiota sob o nariz e uns chumaços de pelo nas têmporas, e muito pentelho, mais isso nunca fui de mostrar. E tinha uma credencial para entrar no palanque, ficar do lado do tal Lula, vê-lo inflamar as massas com as promessas de Admirável Mundo Novo de então. Era um cara do caralho. Três horas antes, eu já estava lá, fazendo o que mais gosto até hoje, rondando o ambiente, fazendo anotações, ouvindo as pessoas comuns, focado nos detalhes, certo – e tenho mesmo essa certeza – de que neles não mora apenas o diabo, mas tudo o mais de universal. Reparei nas roupas, nas bandeiras, nas tranças das meninas, nos bottons de campanha, no mijadouro das pedras da Barra, surpreendidas por tanta urina fora do carnaval.

 

O sol é uma estrela para todo mundo, menos para o cidadão de Salvador. Para o soteropolitano, o sol é a tampa do dia, que vai se arrastando pelo céu, de ponta a ponta, até se por no fundo da Baía de Todos os Santos, e dali partir para aventuras outras, continentais. Naquele dia do comício, o sol estava roubando os tons laranja das bordas de Itaparica, eu tinha bebido três cervejas e anotava, animado, o vai-e-vem do povo feliz. Encontrei Jailton, meu amigo de sempre e até hoje. Encontramos, em seguida, um sujeito cujo nome não me lembro, Jailton deve lembrar. Luiz Inácio nem as caras tinha dado ainda. O sujeito é que trouxe as novidades. Tinha ficado, segundo ele, por três dias e três noites trancado no quarto com uma francesa de carnes rosas, naquela fudelança. Ele, negro, cabelo a la fundista americano, uma conversa filosófica, engendrada na malandragem do Pelourinho, foi nos detalhes. Ficou acordado fudendo, é verdade, mas porque tinha descoberto uma droga nova, sensacional, uma cocaína que se fumava em garrafa de plástico, como num cachimbo. “Bate no centro do cérebro, corta o corpo no meio, e tome rola na francesa!”. Era crack. Eu e Jailton nos entreolhamos. Nossa grana não dava nem para a pizza, imagina para cocaína tragável com loira francesa.

 

Pois bem, nunca me esqueci daquele dia. Quando Lula acabou de falar, de dizer o que seria o Brasil depois de tudo aquilo, eu fui brigar com bêbados, putas e adolescentes histéricos para usar um orelhão, para passar a matéria para a redação. Gritei uma história inteira pelo telefone, vencendo o trovão da multidão, tanto e com tal exaltação, que os que em volta estavam quedaram-se em silêncio respeitoso. No outro dia, deram umas poucas linhas. Eu não sabia, mas não estavam interessados, os velhos, nos sonhos delirantes de um jovem repórter entusiasmado com o discurso inflamado de um operário suado e barbudo.

 

Hoje, eu vi Lula, paletó e gravata, pedindo desculpas por ter se tornado, 15 anos depois, uma figura tristonha e patética, ignorante não só das letras, mas das circunstâncias que o cercam. Não tenho pena dele nem do Brasil. Tenho pena de mim – e de Jailton, vá lá, que estava animado pra porra também – naquele dia distante de 1989. De todo aquele tumulto, de toda aquela zorra, de todo aquele povo, de tantas promessas, não consigo retirar mais emoção, só um gosto azedo de inveja daquele sujeito negro de cabelo escovinha, dele e de seu cachimbo de crack, e dos detalhes de xoxota rosinha da francesa que ele devorou em três dias e três noites de doideira animal. Aposto que ele nem lembra do comício. Aposto que ele nem sofre com essa ausência de história que, de repente, me assaltou a alma nesses outros dias da minha vida. E tem mais: eu aposto que ele nem comeu tanto aquela francesa assim. Mentiroso filhadaputa.



Escrito por Ozzymandhas às 19h58
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