Twighlight Zone

E se eu estiver em coma? É possibilidade manjada, é fato.Tudo pode ser falso. Todos esses acontecimentos comezinhos, toda essa pompa de personalidade, toda essa carência de buça e aventura, todos esses pequenos sentimentos animais, toda essa loucura que vez em quando faço por amor, toda essa boçalidade que o ócio me concede, as mesas, os frascos, os discos, as bolas de cristal, os patuás, a vozes dos mortos que insisto em escutar, os brilho dos meus meninos, meu corpo deitado na sala de estar. Tudo pode ser falso. Os dias e as noites podem ser apenas a rotina de claro e escuro de um quarto qualquer, o cubículo frio e impessoal onde habito sabe-se lá há quantos anos, e por lá viverei enquanto minha mente não parar de criar, ou seja, nunca enquanto viva. Tudo, mesmo, pode ser falso.

 

Na vida real, aquela, fora da Matrix, não luto contra ninguém. Sou apenas o mais feliz dos humanos, estirado sobre um catre limpo e esterilizado, vivendo apenas dos meus sonhos, como eu sempre sonhei. Vêm uns putos, eu sei. Ficam satisfeitos em me enfiar sondas noturnas, sabe-se lá com que prazer, indiferentes à minha indiferença, meus membros todos flácidos, caídos, minha expressão neutra de prazer. Cago, física e metaforicamente, sobre a circunstância. Nessa hora, minha mente fica preocupada em montar, com a precisão do tempo, um pôr-do-sol a mais, a ampulheta dessa minha louca fantasia diária. Eu posso, neste momento, estar delirando, dando ao mundo um sopro de existência. Vejam vocês.

 

Mas se é tudo assim, tão lúdico e natural, por que diabos minha mente iria criar, por exemplo, Joaquim Roriz? Por que tantas contas me chegariam pelo correio? Por que Lula teria que ensaiar com Duda Mendonça, o instigador de galos, para dar uma entrevista coletiva à imprensa? Que porra de sonho é esse? Talvez sejam os remédios. Ou um enfermeiro sádico que, não satisfeito somente em me entubar, fica aplicando pequenas doses de delirantes em mim, assim, para ver um olho virar a órbita ou uma perna repuxar. Ou é mesmo minha mente vazia que se completa com qualquer bobagem. Como essa de imaginar que a saída é um coma eterno, sem meio termo ou porta-voz.



Escrito por Ozzymandhas às 17h59
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