Onan I, o Eterno

O onanismo, todos sabem, é prática corrente no Vaticano, mas não vou gastar mais um puto do meu tempo para discutir sobre as bundas papáveis da cristandade que escolheram um fundamentalista alemão no lugar de um anticomunista polonês. É por isso que minha ladainha final, antes de mudar de assunto, é: fodam-se, irmãos.

 

Pois, para mim, falso judeu com convites ao paganismo, ser onanista representa a continuidade histórica das forças de oposição ao clero, embora tenha em mente claríssima percepção sobre a concorrência desleal dos seminários nessas coisas da punheta. Quando eu era garoto, ver um filme de sacanagem era uma pequena odisséia pessoal, uma inspiração buscada longe, mais precisamente na Praça da Sé de Salvador, de fronte à catedral, abençoado por um sol demasiado quente e claro, mesmo para o primeiro horário da dupla sessão, lá pelas 15 horas. No início dos anos 80, o videocassete era coisa de gente rica e as poucas locadoras que existiam hesitavam em expor cópias de fitas pornográficas. Ou seja, era foda ver uma foda, sobretudo se você tinha 15 anos, pentelhos ralos e uma enorme disposição para, invariavelmente, falar coisas desastrosas e estúpidas para a garota postada em frente, copo de cerveja na mão.

 

Pegávamos o ônibus que vinha da Pituba e passava por Ondina antes de subir a Ladeira da Barra em direção à Praça da Sé. Digo “pegávamos” porque eu ia com mais três: Xulim, Popinho e Jegão. Éramos uma quadrilha impagável, divertida, uma irmandade de garotos de boa fé que, infelizmente, não comia ninguém. Então, batíamos punheta e falávamos de possibilidades futuras, coisa que ainda iria demorar um pouco.

 

Íamos, então, para um cinema poeira lá na Praça da Sé. Descíamos no ponto final e tomávamos o rumo da Câmara Municipal. Na altura das lojas de discos, entrávamos no labirinto de ruas da velha Cidade da Bahia e desembocávamos no tal cinema, uma merda de lugar. Era tão vagabundo que o porteiro sequer pedia suborno para nos deixar entrar. Era um tempo tranqüilo de vagabundagem inconseqüente, mesmo para menores de idade. Além disso, o cine não podia abrir mão de receita alguma. Para garantir a presença da escória, como nós, os quatro de Ondina, o proprietário do estabelecimento impusera a rotina da dupla sessão. Um filme de caratê e, em seguida, um de putaria braba. Certa feita, lá fomos com o propósito de assistir o clássico “Os 12 dedos de Shao Lin” seguido de “Calêndulas”, um filme inesquecível da minha adolescência. Não foi por menos. A certa altura da película, uma mulher enche o pau de um sujeito com purê de batata e paga um boquete, digamos, culinário no felizardo.

 

O filme de Shao Lin era chinês, óbvio, com aqueles lutadores canastrões dando gritos pavorosos a cada movimento dos dedos. As lutas demoravam uma encarnação e eram tão descaradamente ensaiadas que, quando terminavam, a platéia já estava entediada. Era culhuda pura, como se dizia então. Filme chinês sempre foi uma bosta reverenciada por intelectuais, mas aqueles do cinema da Praça da Sé me inspiravam de forma incompreensível, ainda mais em uma sala de exibição sem ar condicionado, haja vista que todo o combate ao verão baiano era travado por pálidos ventiladores de metal colocados em uma ou outra extremidade do lugar. Eu via aqueles chineses lutando e achava do caralho. Hoje, a chinezada está entretida com o Clã das Adagas Voadoras, viadagem oriental levada muito a sério. É o tipo de filme sobre o qual as pessoas se referem como “dono de uma fotografia linda”. Ou seja, o filme é uma bosta. Sem contar que tem a mais longa morte de uma personagem jamais filmada no cinema mundial. E chinês falando parece um gato engasgado com uma meia. Ah, wuang-tuang-ling é o caralho.

 

Mas depois vinha o filme de sacanagem. Só tinha homem na platéia, um silêncio sepulcral. Ninguém olhava para o lado, porque tinha medo de atrair viado. E também ninguém queria passar a falsa impressão que era viado, sei lá, porra, podia olhar para o cara ao lado, só por curiosidade, e levar uma bifa na orelha. Ou pior, um olhar lascivo. A gente se acautelava, pois éramos meninos, mas nunca fomos bobos. Ficava todo mundo olhando para frente, mesmo quando as luzes estavam acesas. Quando começava o filme, dava para dar uma relaxada, ficar ali coçando o pau por cima da calça, porque é foda ver filme de putaria sem o incômodo natural da paudurência. “Calêndulas” falava de uma mulher insaciável que, ao ficar viúva, comeu o coveiro em cima do caixão do marido, só para vocês entenderem do que estou falando. Ela comia uns vermes que ficavam em um pote cheio de flores de calêndula, na cozinha. Aí enlouquecia de tesão e fodia até com as maçanetas. Lá pelas tantas, o som do cinema entrou em pane. A sacanagem rolando a todo vapor na tela e o som ambiente era um ranger constrangido de poltronas velhas, um ou outro miserável tocando bronha, e nada do som voltar. Um negão na nossa frente levantou-se irritado e virou-se para o orifício aberto na parede, no alto, atrás de nós, onde escondia-se o projetor.

-         Cadê o som, porra??!!

-         Quer som? Traga sua radiola!

Essa resposta do estressadíssimo técnico de projeção me surpreende até hoje. Surpreende os meus velhos amigos também. Radiola já era uma coisa velha naquele começo de tudo. E estresse não combina com a Bahia, definitivamente. O fato é que quando acabou a sessão dupla estávamos agitados com as lutas de Shao Lin e excitados com a fudelança do artístico “Calêndulas”. Quando isso acontecia, costumávamos chutar latões de lixo pelo centro da cidade e voltar para casa fazendo arruaça no ônibus. Éramos punheteiros templários, tradicionalistas, os papas das chapeletas escalavradas. A gente se divertia um bocado.



Escrito por Ozzymandhas às 08h01
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