Ego te absolvo
Eu acho esse papo de papa uma merda. Papa, padre, freira, frade, cônego, coroinha, o caralho a quatro. Além do mais, tenho pavor de cargos vitalícios, porque geram sempre ditadores esquizofrênicos, seja no Vaticano, seja em Cuba. Essa devoção ao papa é, do ponto de vista humano, um constrangimento. Porra, são dois milhões de pessoas indo a Roma para ver, por 20 segundos, o cadáver sereno de João Paulo II. Essa gente deveria gastar um tempo e uns trocados, também, para visitar mortos menos famosos da cristandade. Aqui em Brasília, por exemplo, tem um povo de Deus enterrado porque, graças à Santa Igreja, os nossos severinos parlamentares não legalizaram o aborto. São dois milhões de abortos clandestinos por ano no Brasil. Mas neguinho prefere dar ouvido a um bando de cardeal que nunca levou um mexilhãozinho que fosse ao castigo. Outros morreram porque os padres das paróquias, sempre tão zelosos no trato infantil, ensinam aos jovens que camisinha é coisa do Demo. Se para cada cristão infectado pela Aids fossem queimados dez padres na fogueira de uma nova Inquisição, eu queria ver se algum papa iria ter culhão para ficar regulando a xoxota alheia.
A Igreja é intrigante, mesmo para quem não leu O Código Da Vinci. Vejam, por exemplo, o curso de noivos ministrado por padres. Ou seja: por gente que, em princípio, não sabe nem o que é um ninho de cabaço. O cabra fica ali, com aquela vozinha irritante, falando de virgindade, procriação, respeito mútuo e outras babaquices retóricas para uma platéia farta de fudelança. Dá pena. O celibato dá pena. No fim das contas, acabam comendo a bunda dos meninos nos seminários. É a chamada “Eucuristia”.
Porra, eu fiz primeira comunhão com 12 anos de idade, por força de vontade de meu pai. Como eu não ia à igreja, ele levou um capuchinho (o padre, não o café) para a casa de minha vó. Era um cara interessante, liberal, amigo dele. Vestia aquele saco de feno criado por São Francisco de Assis, enrolado no corpo por uma corda encardida. O padre era todo encardido, barrigão de vinho e pão. Ele falou essas coisas da Eucaristia, o sangue de Cristo, a Virgem Maria, os apóstolos, etc. Mandou eu me confessar, ele numa cadeira, eu na beira de uma das dezenas de camas da casa de minha vó.
- Você pecou?
- Não (porra, punheta é pecado?).
- Pronunciou o nome de Deus em vão?
- Não (que merda é “em vão”?).
- Desrespeitou seus pais?
- Não (tinha xingado meu irmão de filho da puta, mas, assim, no genérico).
- Desejou mal a alguém?
- Sim (achei melhor confessar alguma coisa. O padre sorriu satisfeito).
- Eu te absolvo, etc, etc, etc.
Foi tranqüilo. Rezei duas Ave-Marias e corri para vida largada e feliz daqueles dias de minha infância. Desde então, passei a espalhar, mundo afora, que era judeu. Por conta desse genial estratagema, ninguém nunca mais me convidou para batizados, missas, Te Deum e similares. Minha falsa identidade religiosa, no entanto, já me levou a dois Rosh Hashaná, onde me encheram de pão azedo, mas, em compensação, uma vez deu para arrastar uma judiazinha de bunda espraiada para uma comemoração particular lá em casa. Tempos atrás, pensei em anunciar uma nova falsa conversão ao Islamismo. Mas, primeiro, me lembrei que Salman Rushdie, por conta de uns versinhos, foi condenado à morte pela bugrada maometana. Depois, veio o 11 de Setembro, e os maometanos foram condenados à morte por George W. Bush.
Uma pena. As festas árabes são muito mais legais do que as tertúlias judaicas. E as libanesas até que são bem gostosinhas.
Escrito por Ozzymandhas às 10h45
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Ode ao cão burguês
O cão burguês é um animal urbano e inútil, a quem nos apegamos apenas para provar o quão estúpida e fraternal é essa relação ancestral – a amizade entre humanos e cachorros. O cão burguês, como tudo na história da verdadeira burguesia, surgiu na França. Foi adotado, de imediato, por girondinos e jacobinos, logo nos primeiros dias da Revolução. Quando a guilhotina passou a comer solta, refugiaram-se na Bélgica, estranho país onde nada acontece, nem aos cães. Por causa de uma cortesã, Napoleão Bonaparte os resgatou. Dizem os registros secretos que o imperador francês desfilava pouca coisa acima do basset belga que uma amante lhe dera. Já naquela época, o cão burguês era um animal imprestável, mas muito admirado.
No caso, estou falando de uma cadela. Ela vive comigo, uma vida vazia e estúpida, quase toda dentro de um apartamento, cochilando o dia todo, fazendo festinha de vez em quando, querendo comida e coçando-se, ressentida, de mais essa temporada de carrapatos na Asa Norte. Eles estão em todos os gramados da região. Se você tem um cão por aqui, sabe do que estou falando. Pois bem, ia dizendo isso mesmo: o cão burguês é o cara que traz carrapatos para dentro de casa. À guisa de curiosidade, carrapatos são ectoparasitos, significa dizer que vivem sobre a superfície de suas vítimas (cães e gentes), e nos penetram as garras como harpias. Quando cheias de sangue, assemelham-se a feijões verdes. Um mundo cão.
Bom, deixando os carrapatos de mão, há de se entender o cão burguês pela ótica do estudo humano, e não pelo prisma da mera curiosidade antropológica. O cão burguês caga apenas duas vezes por dia, rotina muito civilizada e aprendida, no caso da minha cadela, na ponta do cinto, é verdade. Mas para se entender a necessidade de uma boa cintada no lombo é preciso, um dia na vida, chegar em casa bem acompanhado (ou simplesmente acompanhado, que seja) e se defrontar com merda por todo o chão da cozinha, corredor e quarto do computador. Na ponta do cinto, eu disse. Às vezes, Ozzymandhas é mau. Foda-se Brigitte Bardot. Enfia aquelas focas todas no cu, uh lá lá.
A minha cadela é uma cocker spaniel com olhos humanos, quase todo o tempo doces e tristes, poderosas armas femininas, portanto. É como uma criança abandonada em regime de plantão, tanto que só fica puta de verdade quando entra no banho e leva água quente no rabo. Como todo cão burguês, ela come rações insossas e bebe água, mas vive, de fato, para os poucos momentos em que alguém lhe joga coisas à boca, ou quando consegue surrupiar algo à mesa enquanto você vê TV. Caga nos gramados que por aqui abundam, trocando merda por carrapatos, mas pode-se enxergar muita poesia nessas coisas bizarras da natureza. O cão burguês aprende, com o tempo, que a grama é o banheiro.
Antes que apareça algum babaca a me lembrar, eu sei que o mais certo seria recolher o cocô da bicha com um saco plástico. Recomendo a todos que façam essa experiência, que sintam, pela tênue camada plástica de um saquinho nada confiável, a textura irregular de uma merda quente de cachorro. Depois, venham aqui cagar regras. Saquinho, portanto, nem fudendo.
O cão burguês foi criado para ser inútil, mas é, muitas vezes, reverenciado como avis rara. Embora sendo burguês, mas sendo, antes de tudo, cão, o animal enfrenta longos momentos de tédio quando abordado por debilóides. Tipo assim: a menina loira pintada para caralho, branca como leite, meio gordinha, peitão, usa o mesmo short quadriculado que eu. Idêntico, uma surpresa e uma luz, porque de repente me veio à mente a possibilidade de o referido short ter-me sido herança de minha última ex-mulher. Bom, ao lado da moça branca, um cara gordo, branco também, de cavanhaque negro e óculos escuros. Usa o inacreditável uniforme meu-xodó: tênis Nike novo, meias Nike brancas esticadas como camisinhas na canela, shortão de surfista azul, camisa regata branca registrando a barrigota, e, é claro, boné. A moça afina a voz e fica falando com a cachorra (“vizi ti pitititinha, vizi, vizi, côsa fofa!”). É certo que os cães, como quase todos os animais, têm cérebros primários, mas isso não obriga os humanos a tratá-los como retardados. A cadela até que se comporta bem. Agüenta a songa na boa, balança o cotoco do rabo, mostra a barriga redonda de cachorra prenha. Fosse eu, com dentes afiados, cravava na jugular. E foda-se a vizinhança.
Escrito por Ozzymandhas às 13h54
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BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, ASA NORTE, Homem, de 36 a 45 anos
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