Adeus, meninos
Ainda nem começou a temporada das festinhas de escola, mas já vou logo avisando à filharada: esse ano, nem fudendo! Na boa, cansei dessa demência emocional preparada por sub-roteiristas que, ano após ano, desembocam em espetáculos bizarros de música e cor na quadra poliesportiva da escola da molecada. Até que ver os meninos dançando, botando os bracinhos para cima, sorrindo e dando tchauzinho mexe com meu coração paterno (e palerma). Mas duro é agüentar a platéia de mães debilóides e a renca de professoras mocréias fantasiadas de caipiras e similares rodopiando pelo tablado. É deprimente ver a tia Fofinha (tubercomocra, peito caído, ventosas nos lábios, 1,60m e 90 kg) de maria-chiquinha no cabelo, pintinhas no rosto e dentinho escurecido na lata, como se já não bastasse o espantoso quadro natural das coisas. Tá, tá, eu confesso ter ilimitada implicância com as professoras do ensino infantil e fundamental. Primeiro, porque elas me chamam de “pai”, o que, em se tratando da insinuação (ser pai de megalomocréias) sempre me soa como ofensa. Depois, elas sempre acham que os moleques estão agressivos, dispersos, preguiçosos ou hiperativos porque são filhos de pais separados. Quer dizer: o fato de serem alunos de mulheres sem graça, autoritárias e com aspecto macilento não altera em nada o comportamento deles. Vão se fuder, professorinhas! Aliás, seria uma boa solução, desde que não comigo. E tome festinha. Aviso no microfone:
- Convidamos os pais das turmas do maternal II, turno da manhã, a se retirarem da quadra para o início da apresentação...
Caralho! Qual é a turma do menino? Fodeu. O próximo problema psicológico apresentado na reunião de pais e mestres (onde nunca dei as caras) vai me ter como tema: pais separados e distantes que não sabem nem qual é a turma onde o filho estuda. Acho o moleque esbaforido, todo suado, de chapéu de palha, correndo no meio da confusão. Atravesso um mar de câmeras fotográficas (caralho, esqueci a minha!) e filmadoras (nunca tive uma), uma porrada de peruas dando gritinhos histéricos para os pimpolhos encarcerados na quadra de cimento. Pego o menino pelos fundilhos. A mãe, que concorda com tudo o que as professoras-bruxas dizem, me observa de longe. Olhar severo.
- Me larga, pai!
- Fica quieto, moleque. Qual é a sua turma?
- Maternal I, da tia Cleyde.
- Ah, sei.
Maternal I, da tia Cleyde! Grandes merdas. Quem que pode decorar uma informação dessas? Eu estudei no jardim de infância da tia Arlinda. No Natal, eu era um dos reis magos. Vestia uma roupa de papel e calçava conga azul, mas a idade me poupava do senso de ridículo. Meu pai não aparecia, e agora entendo porque. A diferença é que minha mãe não me induzia a ligar para ele e ficar choramingando, fazendo chantagem emocional do tipo se-você-não-for-eu-viro-serial-killer-quando-crescer.
Foco na platéia: centenas de obesos e semi-obesos exibindo máquinas de fotografar e filmar, roupas exóticas e perfumes insuportáveis. Gritinhos exagerados de amor fraternal, comentários babacas de toda ordem, e eu ali, de saco cheio, louco para ir logo embora. A molecada entra na quadra, a turba corre para os registros de imagem. É a melhor parte da festa, porque sempre rola uma baixaria.
- Dá para o senhor abaixar a cabeça por favor?
- Estou filmando meu filho.
- Eu também quero filmar o meu!
- Arranja outro lugar, ué.
- Grosso!
- Mal amada!
Depois de duas horas de espera, entra o Maternal I da tia Cleyde. Segue-se um show de dislexia coreografada por uma professora vestida de débil mental que dura cinco intermináveis minutos.
Por isso que eu já avisei a molecada: este ano, nem fudendo!
Escrito por Ozzymandhas às 10h54
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