Folia & Monotonia
Eu não sou contra carnaval, eu até gosto de carnaval, gostava mais quando era jovem e tinha mais chances na pipoca de Salvador, tanto que podia cheirar loló até cair sem correr o risco de ter um infarto. Mas, porra, é melhor ficar lendo o Código da Vinci do que agüentar o desfile das escolas de samba da Globo. Vem cá, na boa, quem é que assiste aquela merda? Quem é o pobre diabo solitário, de mãos paralíticas e pau mole, que nem uma punheta pode bater, que fica assistindo àquela sucessão de tropas coloridas por horas a fio? Não sou leviano, isso não sou, e prova disso é que minhas opiniões são baseadas em longos e minuciosos estudos sociológicos, dá pra notar, basta não ser babaca.
Olha só: samba-enredo é o estilo musical mais chato do mundo, composto por até quinze compositores anônimos (Zezinho da Portela, Mileco da Mangueira, Miltinho da Vila, Caquinho da Imperatriz, e por aí vai) que copiam uns aos outros, descaradamente, ao longo de pelo menos três décadas. Como são, em sua maioria, alfabetizados funcionais, estes artistas debruçam-se _ sabe-se lá quem deu essa idéia, mas tudo leva a crer que é coisa de Joãosinho Trinta _ sobre volumes da Enciclopédia Larousse para pinçar pérolas da História Universal. E saem coisas do tipo: “Obu-Obá, de Cleópatra a Zumbi Canta o Povo a Glória de JK”. Isso sem falar nos sambas-enredos-jabás de escolas financiadas por governos estaduais, uma espécie de guerra fiscal disputada contra o jogo-do-bicho.
E os comentários? Apaputaqueoparêo! É um desfile à parte de estultices e clichês. Toda escola que passa dá um “show de luxo e brilho”. E vagabunda é chamada de “destaque”. Mas quando passa uma vagaba com o peitão de fora, o comentarista fala que quem levantou a arquibancada foi a porta-estandarte! Como se alguém prestasse atenção naquela Chica da Silva coberta até o pescoço de paetês e penas, cercada por um mané vestido de lantejoulas rodopiando em volta dela como um pombo no cio. Ah, e tem a comunidade. Para quem não sabe, “comunidade” é o coletivo de pobre, mas a expressão só é usada no carnaval. É tudo gente maravilhosa e trabalhadeira do morro, a força do carnaval _ tanto que são eles, os da comunidade, que empurram os carros alegóricos na Sapucaí.
Bom mesmo era a cobertura da Manchete do Baile da Ilha Porchat:
Rogéria (microfone em punho, aos berros) – E aí? Está gostando do baile?
Foliona (derretida de suor, cheirada até a alma, peitos dourados) – Hein??
Rogéria (gritando mais alto) – Tá gostando do baile, minha fiiiilha??
Foliona – (sorrindo para a câmera) – Ah! Eu sou de Niterói!
Pobre de quem não tem TV a cabo.
Escrito por Ozzymandhas às 14h50
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