Pequena explanação intemporal sobre o Tempo

O tempo perdido mora no abismo da memória. Até aí, todos sabem: buscá-lo é sempre um rápido suicídio. Zilhões de instantes, átimos, ínterins, momentos, pecados, gotas de sal e corrimentos de bílis. Maus e bons elementos do tempo, é preciso tocá-los para sabê-los. Mas é na proa do penhasco que está, também, o segredo para subjugá-los sem dor. São óculos de vidro colorido, os únicos capazes de ver o passado. E um livro de couro macio onde se lê, em texto corrido, a regras para se buscar o tempo perdido: roga-se deixar de lado as roupas e os juízos, as mentiras e os cacoetes de caráter. Deve-se cheirar os muros em busca de uma erva da infância. Prega-se fechar os olhos e abraçar uma árvore no ar. Entende-se por buscar tesouros da lembrança. Ou simplesmente mergulhar no mar. Nadar nas tempestades elétricas do cérebro, afastando a lama dos pesadelos, o entulho dos sustos, monturos de abusos, ratos e supetões. Tudo, tudo só para encontrar na pontinha de um arbusto a imagem de dois insetos multicolores fazendo amor. E deste quantum de melancolia recolher toda a saudade da vida, amores, sabores, texturas, perfumes, estrelas e outros fragmentos de universos esquecidos ou, simplesmente, deixados para trás. Para buscar o tempo perdido é preciso roubá-lo aos céus e trazê-lo nas pontas dos dedos para perto do coração. Há de se libertá-lo, primeiro, na casa dos olhos: nuvens, jóias, arco-íris, luares, raios, a cena documentada de um vulcão. Deixá-lo se debater nas paredes da boca: mamadeiras, beijos, dentes, sumos, manjares, doces, xaropes amargos, manjericão. Encurralá-lo nas narinas: a mata queimando, a cola no uniforme escolar, a avó esquentando o pirão. E finalmente esfregá-lo nos cantos da sala, nas portas de quartos, nos cômodos da casa que não existe mais. E então encontrar um brinquedo de menino no vão do assoalho e isso lhe deixar, outra vez, perdido, perdido. De súbito, consciente. Sem força, portanto,  para segurar o tempo com as mãos.

Acordei com essa merda na cabeça.



Escrito por Ozzymandhas às 13h35
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