Festinha de reveillon 2005, o cabra ali sozinho, uisquete na mão, o viado de olho comprido na mesma mulher que eu. Bom camarada, boa pessoa, mas é o tipo de situação complicada quando dois pingaiados miram a mesma presa. Não encrespei, porque não sou de briga boba, mas principalmente porque ali era derrota de ponta a ponta, para os dois. "Mas como?", me pergunta o cabeção. Não come. Fácil. Há de se avistar os sinais porque quem fica muito tempo cercando a carne acaba perdendo o churrasco. De longe, vi que a moça revezava risada com trago, altinha, degrau por degrau rumo ao cadafalso. Entendi a dúvida arriscosa do companheiro por causa do acompanhante improvável da mulher, um desses sujeitos que já foram fortes e malhados, mas que exageraram na picanha ou no anabolizante. Aquela barriga grande e dura encaixada numa blusa branca fashion criada para um abdome do passado. Caralho, o sujeito parecia um toucinho dentro de uma garrafinha de yakut! Mas alegrão, com a bisca dançando de leve na frente, doidinha de prosecco e maus modos. Derrota, eu disse. O cara insistiu. "Porra, mas olha o cara!". Traço marcante de todo mané é subestimar o inimigo só porque ele é feio, bizarro ou burro. Primeiro, se olha no espelho, mentecapto. Competição exige honestidade. É derrota, foi minha vez de insistir. Tem que pegar os sinais. Por exemplo: a mulher começou a cantar a letra de "Can’t take my eyes of you" na cara do cabra, toda sorrisos, o peitinho encostando no braço estufado do ex-estivador. Eu sei, é foda acreditar que uma mulher, qualquer uma, prefira um brucutu a nós mesmos, os caras descolados que não gostam de musculação. Vá entender essas vagabas. Tomara que levem uma bifa no meio da função. O troglodita se esforça num esgar e, subitamente, começa a pular de alegria. É algo como um javali com síndrome de canguru provocando pânico no salão, espremendo dedões e jogando suor na bebida alheia. Ela, totalmente pingaiada, se entrega a essa violência na nossa frente, ainda pega, de vez em quando, na correntinha de ouro que o paquiderme branco ostenta na tora de pescoço colada a um cavanhaque de dono de puteiro. Lá pelas tantas, o animal recolhe uns restos de peru com farofa, rumina duas nozes e some da festa, leva a moiçola manguaçada ao castigo. É derrota, meu caro. O caro concorda.