Na segunda-feira à noite, eu saí para tomar um chopp com um velho camarada de guerra, mas pisei logo fundo na cachaça Seleta. Ficamos até meia-noite de bate-papo, chegou ainda uma amiga nossa, aquela alegria de bêbados que nada têm a fazer senão esperar a hora de ir embora. Fomos. Ou melhor, eles foram. Eu estava indo para o carro quando ouvi uma voz feminina cantando "Não deixa o samba morrer". Era no Otello, bar decadente de música ao vivo e luz lúgubre, cheio de coroas e velhos mesmo. Entrei. As mesas estavam cheias, a coroada muito bêbada, aos berros, mãos para o ar, já naquela de ou tudo ou nada. No balcão, pedi um chopp. A loira do caixa me disse que era R$ 2,50, mas que o segundo deveria ser acompanhado do courvet, de R$ 4. Tudo bem, eu disse. Caso eu tomasse o segundo, pagava o courvet. Passei, então, a ficar observando o lugar, meio envergonhado por ser tão jovem (!) e, ainda assim, estar absolutamente confortável dentro do repertório do casal no mini-palco ao meu lado. Tocou-se boleros, sambas, João Bosco, coisas antigas que eu adoro. Comecei, então, a fazer amizades. E a beber e, é claro, pagar o courvet.
A primeira delas foi com Liene, branquela, loiríssima cuja pintura, ao longo dos anos, transformou o cabelo em uma palha de milho lamentável. Olhos azuis, mas já opacos, uns 50 e tanto de idade. Estava trêbada. Veio babando para cima de mim;
- Você vai dançar comigo.
- Não estou a fim, não agora.
- Vai sim, não pode ficar aí parado vendo o tempo passar
- Estou curtindo uma fossa.
Foi uma saída genial. O termo "fossa" é familiar à geração dela, e embora hoje pareça uma expressão demodê, tem força incrível para quem a conhece com propriedade. Ninguém incomoda alguém na fossa. Liene pediu desculpas, perguntou se eu queria uma bebida, me disse seu nome e foi dançar com um velho safado de quase dois metros de altura (e uns 120 quilos) que saltitava ao lado dela. Vez em quando ela vinha perguntar como eu estava, mas logo voltava para o salão para ser apalpada pelo gigante da terceira idade que a acompanhava.
Ao meu lado, um homem de mais de 60 anos passou a mão pelos meus ombros. "Porra, vai ficar na fossa?" . Não era viado, não. Era um bêbado solidário. Meio calvo, cabelos brancos, barriga saliente, bigodes do século XIX, conhecia deus e o mundo no bar. Amazonense, Ed está em Brasília há dois anos. Veio separado de Manaus, depois de 30 anos de casamento. Encontrou no Otello um habitat natural e, pelo que pude notar, já havia papado Liene e mais todas as amigas dela. Me pagou um drink. Cara, "drink" é mesmo para quem está na fossa. E tomei outra Seleta, a sétima da noite. Segunda-feira à noite. E o pau comendo no salão com João Bosco cover. Ed me apresentou Ester, morena, talvez menos do que 50 anos, pernas bonitas em um vestido de tecido fino azul, mas com cara de bolacha. Já entrando nas alturas do álcool, comecei a pensar naquela coroa como uma possibilidade. Puxei um papo qualquer, entre tiradas sacanas de Ed, mas ela estava apoiada no balcão para não cair. Se eu a levasse para o banheiro, corria o risco de ser acusado de assassinato. Nessa altura, comecei a rir escandalosamente da situação. Chegou Rosa.
Rosa deve ter sido uma das mulheres mais bonitas de seu tempo, porque aos 50 e tanto (bom, não perguntei a idade de ninguém, é claro), mantinha uns olhos verdes enormes, claros, lindos, um sorriso perfeito, magra, seios e pernas atraentes. Um mulher e tanto. A convidei para dançar. Ela não quis. "Você não brinca comigo, garoto". Há! Eu passei uma noite sendo chamado de garoto, como quando eu ia a puteiros na adolescência e as putas me olhavam, aquela coisinha franzina de orelhas enormes. "O que você quer aqui, garoto?". E eu: "Foder, é claro". E elas riam e acabavam me dando por um preço baratinho. Não fosse meu senso de humor, eu talvez não tivesse mesmo comido ninguém na vida. Rosa me deu uns dois sorrisos e foi fumar numa mesa com uma amiga. De vez em quando, sorria de longe e voltava a seu mundo insondável de beleza nostálgica. Então, Ed me pegou pelo braço e me apresentou uma putona. Putona, assim, porque tinha jeito de putona. Madalena.
Madalena estava me olhando de longe, balançando a bunda para eu ver na hora do samba, mas realmente não era mesmo meu tipo. Cabelos pretos pintados, uma boca esquisita, como se estivesse sempre ocupada com uma pata de caranguejo entre os dentes. Uns peitões gigantes, cintura fina. Comecei a ficar preocupado com a possibilidade da Seleta dominar meus instintos. "Essa é fogo". Ah, a sutileza de Ed. Dancei uns sambas e uns boleros com Madalena, ela falando rouco no meu ouvido, se esfregando toda e sentindo a minha animação, como sempre, incontrolável dentro das calças. Ed, de longe, no balcão, lambia o pescoço de Ester e, sempre que batia os olhos nos meus, levantava a tulipa de chopp para me saudar. Livrei-me de Madalena quando a cantora anunciou a saideira. "Retalho de Cetim". A música terminou e o povo foi indo embora, umas quatro da matina já. Madalena quis meu telefone, passei um número falso. Aí aconteceu uma coisa engraçadíssima.
Fui ao banheiro dar a mijada derradeira. Ed estava lá, no reservado da privada, mijando e cuspindo, não me pergunte porque. Eu fui ao mictório e estava iniciando o despejo da urina quando o Grande Homem Branco, o abominável namorado de Liene, entrou no banheiro, um lugar apertadíssimo. Fiquei ali, meio travado, sem conseguir mijar, coisa que acontece a todo homem quando o mictório se torna um lugar constrangedor. O gigantão reverberou;
- Porra, hoje estou mal para caralho.
Fodeu, pensei. Esse merda vai vomitar cem litros de caipirinha em cima da gente. Ed, como sempre, controlou a situação.
- Bebeu demais, vai logo para casa, toma um café forte.
- Bebi o caralho. Foi o Zeca. O Zeca morreu.
E tirou do bolso um santinho, desses que parecem de propaganda eleitoral, mas desconfio que era desses que fazem quando as pessoas morrem, para convidar para o enterro. De pau na mão, sem saber o que fazer, dei uma espiada na foto. Foi meu erro. O homenzarrão segurou meu braço. O braço direito. O braço dono da mão que estava segurando o pau. O mijo retrocedeu à bexiga.
- Diz aí: do que você acha que Zeca morreu?
Fechei o ecler. Olhei para Ed, que continuava cuspindo na privada.
- Coração.
- Não
- AVC?
- Não
- Acidente de carro;
- Não, não.
Ed decidiu intervir.
- Câncer!
- Não, porra.
- Aids!
- Porra, e o Zeca era viado?
Juntava gente em frente ao banheiro, uns cinco bêbados querendo mijar. O gigante pegou uma toalha de papel, passou no rosto e disparou:
- Abelha!
Eu comecei a rir para caralho, mas Ed, por cuidado ou porque estava bêbado, me fez um sinal com a mão e, assim, com ar de mistério, sentenciou:
- É incrível como essas abelhas está ficando africanizadas...
Olha, eu saí do banheiro rindo pra caralho. O gigante me deu um tapa amigável nas costas. Ed, pagando a conta no balcão, me deu um abraço meio de lado. "Apareça outras vezes". E eu rindo de chorar. Fui para o carro e só parei de rir quando cheguei em casa.
Liene, divirta-se até morrer.
Ester, a amiga possível.
Ed, o guru improvável.
Madalena, amante que só a Seleta me daria.
O gigante amigo de Zeca, que poderia ter me matado, mas que ficou ali, pensativo, pensando na africanização das abelhas de Brasília.
É claro que eu volto um dia desses ao Otello.