MUDANÇA DE ENDEREÇO!!!

A pedidos, e com muito gosto, o blog agora está de cara nova, mais bonita e mais moderna, na plataforma wordpress. Então, anotem o novo endereço e apareçam sempre por lá: http://brasiliaeuvi.wordpress.com/

Abs

Leandro Fortes



Escrito por Leandro Fortes às 17h55
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À luz do sol

A criação do Blog da Petrobras é um ponto de inflexão nas relações da mídia com as fontes, embora tenha sido criado em meio a um ambiente de conflito decorrente da malfadada CPI da Petrobras, no Senado Federal. Mais do que uma discussão sobre liberdade de imprensa e o direito de sigilo nas relações entre jornalistas e fontes, a criação do blog suscita uma reflexão muito mais profunda porque, a meu ver, ele será lembrado como marco histórico, no Brasil, do fim do jornalismo diário impresso tal qual o conhecemos e de todas as idiossincrasias induzidas e adquiridas nas redações brasileiras ao longo dos últimos 50 anos. Em outras palavras, a fórceps e sob bombardeio, o Blog da Petrobras decretou o fim de expedientes obsoletos e, muitas vezes, desonestos, de apuração, edição e publicação de matérias jornalísticas. Colocou o jornal de papel e sua superada pretensão informativa na mesma estante de velharias do século XX onde figuram, lado a lado, a televisão a válvula, a geladeira a querosene e o platinado.

 

Ao tornar visível e, por isso mesmo, vulnerável, a rotina de apuração dos jornalistas, o Blog da Petrobras quebrou um falso pacto de cooperação, denunciado curiosamente de “vazamento de informações sigilosas”, sobre o qual pairava a seguinte regra mínima: eu pergunto, mas eu escolho o que você responde, se você não gostar, mande uma carta à redação, reze para ela ser publicada (na íntegra) ou vá queixar-se ao bispo. Primeiro, não há relação de sigilo em entrevista, muito menos com relação a perguntas feitas por escrito por repórteres. Não sei da onde tiraram isso. Quando o jornalista se dispõe a fazer perguntas por e-mail, não pode esperar outra coisa senão publicidade de um registro capaz de ser compartilhado, em tese, com milhões de pessoas. Se, nesse e-mail, ele passa informações exclusivas da apuração, tem que estar disposto, também, a correr esse risco. Há, no mundo todo, um exército bem pago de assessores de imprensa sendo treinado, diuturnamente, para desmontar pautas jornalísticas, minimizá-las o impacto e, principalmente, fazer um trabalho de contra-inteligência capaz de neutralizar o poder de fogo dos repórteres. E isso não é novidade. A novidade é a internet.

 

Ao invés de ficar choramingando em editoriais saudosos dos tempos de antanho, os jornais deveriam, finalmente, prestar atenção ao que está acontecendo no mundo, inclusive nas salas de aula desses meninos aos quais se pretende negar o diploma de jornalismo, uma, duas, três, dez gerações à frente. Aliás, tem coisa mais obsoleta, triste e anacrônica do que os editoriais da imprensa brasileira? Aliás, o que é um editorial senão o blog mais antigo e exclusivo do mundo, pelo qual os barões da imprensa sempre expressaram suas opiniões, livres, no entanto, do incômodo das caixas de comentários? O Blog da Petrobras é justamente isso, o anti-editorial, o contraponto imediato, em tempo real, às chamadas “linhas editoriais” dos veículos de comunicação que, no fim das contas, acabam por contaminar o ofício do jornalismo, submetendo jornalistas ao oficialismo privado dos aquários das redações, cada vez mais descolados da nova realidade ditada pela internet, pela blogosfera e do impressionante e muito bem vindo controle social trazido pela interatividade on line.

 

Foi um editorial da Folha de S.Paulo, aquele da “Ditabranda”, que deixou no cio a serpente que pariu o Blog da Petrobras. Foi a partir daquela analogia infeliz, turbinada por ofensas gratuitas aos que dela discordaram, que a blogosfera passou oficialmente a servir de espaço livre de direito de resposta, na íntegra, dos ofendidos. O rastilho digital daquela polêmica provocou um dano permanente na credibilidade do jornal, obrigado, a seguir, a desencadear uma série de envergonhados expedientes de capitulação. O legado da discussão, no entanto, foi muito maior. Ainda que agregados de maneira informal, os blogs passaram a ser uma rede de “grilos falantes”, para usar uma expressão empregada pelo jornalista Franklin Martins, da mídia nacional, o escape por onde os rejeitados pelas seções de cartas puderam, finalmente, se exprimir livre e integralmente.

 

As reações “conspirativas”, neologismo cunhado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha para unir conspiração com mídia corporativa, ao Blog da Petrobras são, em tudo, emblemáticas. E não têm nada a ver com “vazamento” das perguntas e informações enviadas por e-mail à empresa. Têm a ver com a perda de poder das redações e com a necessidade de se estabelecer outros paradigmas para o jornalismo. Isso inclui o conceito de “furo”, que a vaidade dos jornalistas transformou em coisa mais importante do que o dever de bem informar – de maneira mais ampla e correta  possível – a sociedade na qual está inserido. O “furo” é bem vindo, é um diferencial bacana, gera prêmios jornalísticos, aumentos de salário e promoções, mas interessa muito mais a nós, jornalistas, do que ao respeitável público.

 

O jornalismo brasileiro não carece de exclusividade, mas de honestidade e transparência.

 

P.S. Quatro análises de qualidade sobre o tema, para quem quiser se aprofundar na discussão, feitas por Idelber Avelar, Luis Nassif, Sergio Leo e Luiz Carlos Azenha:

 

http://www.idelberavelar.com/archives/2009/06/o_blog_da_petrobras_e_o_desespero_da_midia.php

 

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/06/07/o-fim-da-era-das-perguntas-em-off/

 

http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2009/06/por-que-jornalistas-experientes-fingem-nao-ver-que-a-petrobras-age-errado.html#comments

 

http://www.viomundo.com.br/opiniao/por-que-os-jornais-investem-contra-o-blog-da-petrobras/



Escrito por Leandro Fortes às 15h07
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Satiagraha ao vivo no Paraná

Vou participar neste domingo, 7 de junho, em Curitiba, de uma entrevista com o delegado Protógenes Queiroz, chefe da Operação Satiagraha, responsável pela prisão do banqueiro Daniel Dantas e pelo conseqüente desbaratamento da quadrilha comandada pelo dono do Grupo Opportunity. A entrevista será comandada pelo jornalista Beto Almeida, âncora do excelente Brasil Nação, programa de debates livres (de verdade) da TV Educativa do Paraná. Para quem já foi censurado, a pedido do presidente do STF, na TV Câmara, é sempre um alento poder contar com uma emissora pública comprometida com a democracia e o respeito à liberdade de expressão. A entrevista será feita ao vivo, com a participação de outros convidados e do público, que pode mandar perguntas por e-mail e telefone. Estão todos convidados, portanto, a assistir.

 

Quem quiser me mandar sugestões de perguntas ao delegado, é só enviar à caixa de mensagens do blog. Será de grande valia contar com a colaboração dos leitores.

 

Mais informações do site da TVE do Paraná:

 

O programa Brasil Nação é exibido em todo o país, por meio do sinal de Parabólica 1320MHZ, polarização horizontal, transmitido em sinal aberto VHF, canal 9, em todo o Paraná. Nacionalmente, é possível também acompanhar nossa programação por meio da emissora Cidade Livre de Brasília, canal 8 da NET ou no canal 115 da Sky.

O programa vai ao ar sempre aos domingos às 21h30 e é reapresentado toda sexta-feira às 22h10. O objetivo é discutir grandes temas nacionais e levar o telespectador à reflexão sobre os caminhos do Brasil, por um viés que normalmente não é explorado pela maior parte dos grandes meios de comunicação.

O Brasil Nação tem 1h30min de duração e conta com a participação de três convidados. Quando realizado ao vivo, abre espaço para participação do público pelo número 0800, onde recebe comentários e perguntas dos telespectadores de todo o país, uma vez que, além de ser uma rede estadual, a Paraná Educativa pode ser sintonizada em toda a América Latina por antena parabólica, e também em outras partes do mundo, através da exibição simultânea via internet (http://www.pr.gov.br/rtve). Além disso, o programa também é transmitido simultaneamente pela Rádio Paraná Educativa AM. A apresentação é do jornalista Beto Almeida, também apresentador na TV Senado.

A TV Paraná Educativa fica na rua Julio Perneta, 695, Canal da Música, Mercês, Curitiba (PR).



Escrito por Leandro Fortes às 19h50
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Suprema deficiência

As estudantes de jornalismo Sacha Brasil e Maria Scodeler, da Universidade de Brasília, fizeram uma tocaia de quase um mês e flagraram os carros oficiais do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, estacionados, várias vezes, nas vagas destinadas a deficientes físicos da UnB. Mendes dá aula de Direito Constitucional na Faculdade de Estudos Sociais Aplicados às segundas e quartas-feiras, das 10 horas às 11h50. Para tal, além do carro oficial com motorista que o conduz, se faz seguir por um outro, com seguranças. São dois Ômegas pretos, de última geração, um luxuoso comboio para que, enfim, o ministro saia às ruas.

 

De acordo com a matéria do Campus, jornal laboratório da UnB, o desrespeito perpetrado pelos carros de Gilmar Mendes é recorrente. As repórteres que assinam a matéria procuraram a assessoria de imprensa do STF que, primeiro, respondeu informalmente não haver problema algum na infração, haja vista os motoristas ficarem dentro dos carros. Logo, imaginou algum gênio da assessoria, bastaria aos deficientes (inclusive cadeirantes) arranjar um jeito de avisar os caras para saírem da vaga. Isso, é claro, se eles não estiverem em sono profundo ou em animada conversa, enquanto esperam o patrão. Logo depois, veio a resposta oficial: Gilmar Mendes, indignado com a delinqüência de seus motoristas de comboio, mandou abrir um inquérito administrativo. Tanto tempo indo e voltando nos Ômegas do Supremo, nunca tinha reparado o atrevimento dos choferes.

 

Então, eu pergunto: é legal usar carro oficial do STF, durante horário de expediente, para levar ministros para darem aula? Todos os ministros do Supremo podem e fazem isso? E para quê um carro cheio de seguranças? Do que tem medo Gilmar Mendes?

 

Minha sugestão às formidáveis repórteres do Campus: acompanhem de perto esse inquérito administrativo, peçam acesso aos depoimentos dos motoristas, exijam saber o resultado. No mínimo, vocês vão se divertir um bocado.

 

No link ao lado, a íntegra da matéria: http://issuu.com/fac.unb/docs/335



Escrito por Leandro Fortes às 19h02
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Ateus, uni-vos

Laicismo - Por José Saramago

Anda acesa a questão do laicismo, a meu ver em termos não muito claros, porquanto parece querer ignorar-se a questão fundamental que subjaz ao debate: crer ou não crer na existência de um deus que, não só terá criado o universo e portanto a espécie humana, como virá a ser, no fim dos tempos, o juiz dos nossos cometimentos na terra, premiando as boas acções com a admissão num paraíso em que os eleitos contemplarão a face do Senhor durante toda a eternidade, enquanto, também por toda a eternidade, os culpados de acções más arderão no inextinguível fogo do inferno. Esse juízo final não será fácil, nem para deus nem para os que vão ter de prestar contas, pois não se conhece um único caso de alguém que, em vida, tenha cometido exclusivamente boas acções ou más acções. O próprio do homem é a inconstância nos propósitos e nos actos, sempre a contradizerem-se de uma hora para a outra. No meio de tudo isto, o laicismo aparece-me mais como uma posição política determinada mas prudente que como a emanação de uma convicção profunda da não existência de deus e portanto da impertinência lógica das instituições e dos instrumentos que pretendem impor o contrário à consciência da gente. Discute-se o laicismo porque, no fundo, se teme discutir o ateísmo. O interessante do caso, porém, é que a Igreja Católica, na sua velha tradição de fazer o mal e a caramunha, anda por aí a queixar-se de ser vítima de um suposto laicismo “agressivo”, nova categoria que lhe permite insurgir-se contra o todo fingindo atacar apenas a parte. A duplicidade sempre foi inseparável das tácticas e das estratégias diplomáticas e doutrinais da cúria romana.

Seria de agradecer que a Igreja Católica Apostólica Romana deixasse de meter-se naquilo que não lhe diz respeito, isto é, a vida civil e a vida privada das pessoas. Não devemos, porém, surpreender-nos. À Igreja Católica importa pouco ou nada o destino das almas, o seu objectivo sempre foi controlar os corpos, e o laicismo é a primeira porta por onde começam a escapar-lhe esses corpos, e de caminho os espíritos, já que uns não vão sem os outros aonde quer que seja. A questão do laicismo não passa, portanto, de uma primeira escaramuça. A autêntica confrontação chegará quando finalmente se opuserem crença e descrença, indo esta à luta com o seu verdadeiro nome: ateísmo. O mais são jogos de palavras.

(Leiam mais em: http://caderno.josesaramago.org/)



Escrito por Leandro Fortes às 11h59
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Réquiem

LEITURAS DA FOLHA (Observatório da Imprensa)

A propaganda oficial e a voz do dono

Por Luiz Antonio Magalhães em 2/6/2009

 

A Folha de S. Paulo publicou no domingo (31/05) uma matéria muito interessante do repórter e colunista Fernando Rodrigues sobre os gastos da propaganda do governo Lula. O que a Folha vê como ponto negativo na política do atual governo este observador avalia ser a melhor novidade dos últimos anos no setor.

A questão é simples: segundo a Folha, com praticamente o mesmo recurso utilizado na gestão anterior, considerando a correção monetária, o governo Lula anunciou em mais de 5 mil veículos de comunicação. Durante o governo de Fernando Henrique, eram apenas 500 os beneficiados.

A matéria da Folha sustenta que essa prática não é condizente com as regras de mercado e cita exemplos da Fiat e Itaú, que publicam anúncios de alcance nacional em menos de 200 veículos. De fato, o governo Lula não obedece às regras de mercado e esta é a melhor notícia que se pode ter na área da distribuição das verbas públicas para publicidade em veículos privados de comunicação.

Sim, porque com a maior distribuição dos recursos de propaganda, na prática o governo fomenta a democratização dos meios de comunicação. Antes, só os grandões levavam o meu, o seu, o nosso dinheirinho, impedindo o crescimento de outras publicações. Agora, jornais regionais e pequenos também levam e podem se tornar competitivos, o que é ótimo para a sociedade de várias formas: dinamiza o mercado de trabalho do setor, possibilita que diferentes vozes tenham meios de expressar suas ideias, enfim, é tudo de bom.

A voz do dono

Dois excelentes colunistas da Folha de S. Paulo – um dos quais o próprio autor da matéria publicada domingo – perderam na segunda-feira (1/6) a chance de ficarem calados. Defenderam a destinação dos recursos oficiais para propaganda apenas aos grandes veículos de comunicação.

O texto de Fernando de Barros Silva, em especial, cairia perfeitamente bem na assinatura do patrão Otavio Frias Filho. Já o de autoria de Fernando Rodrigues é uma análise interessante, mas derrapa nas últimas linhas. Ambos vão reproduzidos ao final desta nota.

A questão, como já se viu acima, é muito simples – simplíssima, aliás –, mas vale repeti-la. Se Lula gasta a mesma verba que FHC gastava com publicidade, poderia fazer duas coisas: manter o padrão de gastos do governo anterior, que privilegiava os grandes meios de comunicação, ou diminuir o quinhão dos grandes e distribuir a verba entre os pequenos.

O governo optou pela segunda forma de distribuir verba e é acusado pelos colunistas da Folha de estar comprando a simpatia dos proprietários de pequenas rádios, jornais e revistas. Ora, se o governo não pode distribuir a verba, resta então a outra hipótese: manter o padrão de distribuição da gestão anterior, na qual praticamente só os grandes veículos tinham acesso aos recursos da publicidade oficial.

Ou seja, os dois Fernandos – mais o Barros e Silva e menos Rodrigues – no fundo defendem mais um capilé para a Folha de S.Paulo e nada para o Diário de Cabrobó do Mato Dentro. Justo? Talvez, mas a verdade é que seria muito mais elegante se o próprio Otavio Frias Filho defendesse a tese, em artigo assinado ou em editorial. Quando jornalistas decidem ser mais realistas que o rei, em geral o vexame é grande.

(Leiam mais em:  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=540IMQ002)



Escrito por Leandro Fortes às 08h13
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Um terceiro mandato, pelamordedeus!

A imprensa brasileira não vai descansar enquanto não arrancar do presidente Lula, ou de algum ministro de Estado, uma declaração favorável ao terceiro mandato. A insistência com que a mídia tem tratado do tema, em ondas ciclotímicas cada vez mais curtas, revela aquele tipo de interesse que nada tem a ver com os fatos ou, no limite, com demandas jornalísticas. Trata-se de uma campanha infernal para colar na imagem de Lula a pecha de “ditador chavista” às vésperas de um ano eleitoral, como se fosse possível, a essa altura do campeonato, estabelecer semelhanças ideológicas e de ação governamental entre o presidente brasileiro e seu colega, Hugo Chávez, da Venezuela. Há mais de dois anos, escrevi uma matéria na CartaCapital (“Eterno factóide”) a respeito do assunto, quando a onda do terceiro mandato tinha como objetivo contaminar as bases eleitorais do governo, com vistas às eleições municipais de 2008, quando ainda rescendiam brasas sobre os escombros do chamado “mensalão”. Lá, pelas tantas, escrevi:

 

“O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de ter sido beneficiado com a manobra da reeleição, colocada em prática via mudança da Constituição, foi um dos avalistas internacionais do terceiro mandato de Alberto Fujimori, do Peru. Tanto, e de tal forma, que Fujimori, atualmente às vésperas de ser julgado por crime de corrupção, tráfico de armas e genocídio pela Justiça peruana, arrolou FHC como testemunha”.

 

Incrível, né? Fernando Henrique Cardoso alterou a Constituição Federal, à custa de um escândalo de compra de votos no Congresso Nacional, para emendar um segundo mandato, com apoio irrestrito da mídia nacional. Em outro front, dava apoio político e diplomático a Fujimori, conhecido bandoleiro internacional, dado a censurar jornalistas e assassinar opositores, para que “El Chino” conseguisse um terceiro mandato no Peru. Sobre o que estamos falando mesmo? Ah, sobre o terceiro mandato, idéia rejeitada, sistematicamente, pelo supostamente (vocábulo adorado dos jornais, nos últimos tempos) principal interessado, a saber, o presidente Lula.

 

A insistência sobre o tema, ainda tocado em clima de factóide, é tão óbvia que chega a ser cansativo dissertar sobre ela. Estancado em níveis de popularidade jamais alcançados por outros presidentes na história deste país, Lula vive em franca liberdade de movimento para emplacar seu sucessor, no caso, sucessora, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Feliz, gordo e corado, Luiz Inácio conseguiu estabelecer com o eleitorado uma ponte de comunicação praticamente imune aos ruídos da mídia, de qualquer mídia. A este povo sem mídia, e sobre o qual a mídia nada entende ou atinge, Lula fala a língua da distribuição de renda, da segurança alimentar e da identidade nacional. De certa forma, conseguiu converter em ganho eleitoral todos os males a ele atribuídos pela zelosa elite intelectual e econômica brasileira, da falta de educação formal à aparência física.

 

Quisesse mesmo se empenhar na luta pelo terceiro mandato, Lula teria todas as condições, dentro e fora do Congresso, para conseguir sucesso no intento, sem a necessidade de comprar votos, pelo menos no sentido literal do expediente utilizado na Era FHC. Foi-se o tempo, no entanto, em que o presidente se cercava de assessores que o incitavam a atitudes insanas, como a de querer expulsar o correspondente do New York Times do país, por quem foi acusado de ser cachaceiro militante. Agora, a cada investida da mídia, Lula desmancha-se em desencanto: é contra, diz, o terceiro mandato. Ainda assim, como quem oferece crack a um viciado, o Datafolha gastou tempo e dinheiro na tentação de divulgar uma pesquisa na qual mostra um “país dividido”, 47% a favor, 49% contra o terceiro mandato.

 

A mensagem é clara: então, porque não arriscar, presidente? A resposta também: porque Lula não é bobo.

 

Para uma oposição perdida e enterrada num pré-sal de indefinições, nada seria mais providencial do que o surgimento de um Lula ditatorial, finalmente revelado em toda a sua essência autoritária e aparelhadora, um Chávez tropicalizado e, melhor ainda, a tempo de ser trabalhado em infinitas edições de domingo. Viriam especialistas, cientistas políticos, blogueiros de repetição, colunistas, deputados e senadores a denunciar a quebra das regras democráticas, a incutir pânico na classe média, a convocar as senhoras de Santana a marchar sobre a Paulista, o horror, o horror!

 

De qualquer maneira, não custa deixar essa pauta na gaveta. Quem sabe ela não emplaca no ano que vem?



Escrito por Leandro Fortes às 12h10
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A Bahia tem um jeito

Como sabem meus amigos, sou de Salvador, embora meus detratores façam questão de lembrar que nasci no Rio de Janeiro, na verdade, em um estado que não existe mais, se é que realmente já existiu, a Guanabara. Para que se entenda essa transcendência e as raízes da minha naturalidade, digo que essas coisas do Rio, corcovado, pão de açúcar, maracanã e malandragem me dizem tanto respeito como a torre Eiffel a um catador de cana de Catanduva. No Rio, sou, como de regra, um turista assustado. Em Salvador, estou em casa, sou abraçado por todas as minhas memórias de infância, caminho entre o povo, na avenida sete, como um igual, ainda mais nesses dias de chuva, quando as pragas de turistas não assolam e devoram as lavouras culturais da Bahia. No canto de esquina suja entre a rua Araújo Pinho e o Campo Grande, nas bordas do Teatro Castro Alves, eu paro por cinco minutos e interpreto todos os cheiros, sorriso nos lábios, olhos fechados, um por um: jenipapo, dendê, amendoim torrado e o agridoce das amêndoas molhadas e apodrecidas na lama preta que fazem, aqui e acolá, um ou outro transeunte escorregar.

 

Vim a convite do professor Albino Rubim, de quem fui aluno na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, onde me formei em jornalismo e alegria, esse sentimento que, assim como a palavra “porra”, forma o amálgama do mito da baianidade, um estado de espírito e de coisas que não pode ser simplesmente traduzido, uma vez que é uma complexa convergência de atos, vocábulos, posturas, temperos e, principalmente, inflexões corporais múltiplas e combinadas. Daí a perplexidade de muitos diante da fala aparentemente ilusória de Gilberto Gil, que para nós, baianos, é clara, claríssima e clarividente. Quando Gil nos exorta às maquinações do ser e do não ser, este último, ao contrário do primeiro, sintonizado na desarmonia harmoniosa das conjecturas holísticas, a mensagem nos chega pura e cristalina: o ser humano é complicado que só a porra!

 

Albino é um dos mestres da Comunicação Social do Brasil. Pelas mãos dele e de outros teóricos de categoria da Bahia, a UFBA tornou-se um centro de excelência de pesquisa e produção cultural, mas não abriu mão das identidades locais, que são muitas e variáveis, de forma a contribuir sem se mutilar. Nessa semana, ele levou a cabo o V Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Enecult), que trouxe para a capital baiana estudiosos de vários estados brasileiros, da América Latina e da Europa. Foram apresentados 250 trabalhos selecionados entre 450, sinal de que o interesse pelo evento está extrapolando as melhores expectativas do grupo liderado pelo professor Albino, o Cult, ponta de lança de uma novíssima estrutura de guerrilha cultural na Bahia. Leram isso nos jornalões? Pois é.

 

A folclorização permanente dessa “baianidade”, assim mesmo, entre aspas, reforçada pelas caricaturas de mau gosto encenadas nas novelas e na publicidade brasileiras, termina por neutralizar o verdadeiro discurso cultural da Bahia, uma poderosa união de intelectuais e artistas populares que se confundem e se misturam. Nesses dias de chuva, libertos da pressão do carnaval e do turismo, os baianos se voltam para dentro de si e libertam-se do estereotipo nauseabundo do negro de trancinhas falando “ó meu rei”, que, aliás, nada tem a ver com o sotaque e expressão verbal verdadeira de Salvador; ou da baiana de saia rodada colocada, sob total constrangimento cultural, em portas de hotéis e shoppings, a banalizar o mito da hospitalidade e da informalidade de relações, como se coisa assim fosse possível de se reproduzir fora do seu ambiente estritamente natural.

 

Sobre o tema, comecei a ler um livro ótimo, que comprei para dar a um amigo baiano, Jailton de Carvalho, mas baianamente me apropriei do que ainda não dei. Chama-se “A invenção da baianidade” (Editora Annablume), uma obra de narrativa espontânea e divertida, recheada de músicas e referências literárias, com informações deliciosamente posicionadas nas muitas ondas de costumes de Salvador. Comecei a ler e não consegui parar, porque o livro parece ter sido feito para mim, tanto e de tal forma que quase consigo imaginar a seqüência de fatos e tempos usados pela autora, a jornalista Agnes Mariano, para compor o encadeamento do livro. Assim como eu, Agnes, embora tenha nascido fora da Bahia (é paulista), foi criada por aqui. Por isso mesmo, tem, creio eu, essa relação apurada com a baianidade, uma identidade escolhida, porque é sabido de todos, principalmente aqui, na Cidade da Bahia, que só se pertence ao lugar que se ama.



Escrito por Leandro Fortes às 22h28
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Pratos limpos

     O ombudsman Carlos Eduardo Lins da Silva leu o blog e foi mais além. Classificou de “Terrorismo retórico” a manchete da matéria sobre os contratos sem licitação da Petrobras, sobre a qual firmei análise, aqui neste espaço, como exemplo de manipulação levada a cabo no portal do UOL.

 

Para a minha surpresa, o ombudsman não só concordou com a minha sugestão de manchete, como a adotou no puxão de orelhas que deu na redação da Folha. Segundo ele, o jornal deveria ter dito que foram R$ 72 bilhões em oito anos. Incluiu, portanto, os dois anos “incomparáveis” do governo FHC que as chamadas do UOL e da Folha omitiram.

 

E ainda fez questão de lembrar que o jornal omitiu que Sérgio Bermudes, autor de um artigo laudatório, para dizer o mínimo, sobre o ministro Gilmar Mendes, é advogado do mesmo. Eu complemento: e me processa por ter revelado as entranhas do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), do qual o presidente do STF é sócio.

 

Mandou bem, o ombudsman.

Folha de S.Paulo, edição de domingo de 24 de maio de 2009, coluna do ombudsman:

ONDE A FOLHA FOI BEM...

NOURIEL ROUBINI
Entrevista com economista que previu a crise na sexta é ótima

...E ONDE FOI MAL

"Terrorismo retórico"
Manchete da página A4 de terça é típica de editorial, não de notícia: opina, emite juízo de valor, toma partido
ADVOGADO DE MENDES
Artigo na página A3 de segunda com elogios a Gilmar Mendes tinha de trazer a informação de que o autor é seu advogado
DESALENTO E DESEMPREGO
Manchete da página B6 de sexta erra ao atribuir ao IBGE conclusão de que "desalento evita alta no desemprego"
PETROBRAS
Manchete na página A4 de quarta diz que estatal gastou R$ 47 bi sem licitação em seis anos; deveria ter dito que foram R$ 72 bi em oito anos
REINO UNIDO
Jornal faz cobertura fraca e atrasada do escândalo das verbas de representação Parlamento britânico, similares aos do Congresso brasileiro



Escrito por Leandro Fortes às 19h37
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Sugestão de pauta

Eu quero saber até quando os jornais de Brasília vão fugir de uma pauta que está quicando pelas redações locais desde 2006. Naquele ano eleitoral, o engenheiro José Roberto Arruda e o empresário Paulo Octávio Pereira meteram-se em uma luta intestina para definir quem seria o candidato do PFL (atual DEM) ao governo do Distrito Federal. Na época, Arruda deu uma volta bonita em Paulo Octávio, candidato inicial do partido, conseguiu o apoio do ex-governador Joaquim Roriz, do PMDB, e relegou o empresário à condição de candidato a vice na chapa pefelista. Para não ficar feio diante do eleitor e dos financiadores de campanha do Distrito Federal, todos muito ligados a Paulo Octávio, Arruda costurou um acordo baseado em uma fatura eleitoral cada vez mais difícil de ser cobrada. Em troca de ser o cabeça da chapa, em 2006, ele firmou o compromisso de, em 2010, ou seja, no ano que vem, inverter a situação: Paulo Octávio sairia como candidato a governador e ele, Arruda, como vice.

 

Trata-se de um acordo público, noticiado pelos jornais, comentado pelos comentaristas, analisado pelos analistas, colunado pelos colunistas. Quis o destino que eu, nem lembro exatamente porque, estivesse na posse da dupla, na Câmara Legislativa do DF, em janeiro de 2007, onde ouvi o seguinte discurso de José Roberto Arruda, recém-eleito governador, em palavras dirigidas ao humilde vice, Paulo Octávio, obrigado a engolir em seco a inversão de papéis às vésperas das eleições: “Este é um dos gestos mais difíceis de um homem de vida pública”. Difícil e improvável, completo eu, até porque, naquele dia, do lado de fora da Câmara Distrital, havia potes até aqui de mágoa. Não fosse a polícia e a turma do deixa-disso, correligionários de ambos os candidatos teriam ido às vias de fato. Mas restava a promessa de Arruda. Prometeu, estava prometido. Hoje você é quem manda, falou tá falado. Mas, em 2010, estava garantido, seria a vez de Paulo Octávio.

 

Motivos para acreditar em José Roberto Arruda, no entanto, faltam a todos. Ele é aquele senador que, então no PSDB, mentiu descaradamente sobre a participação na quebra do sigilo do painel eletrônico do Senado Federal, quando da votação da cassação do ex-senador Luiz Estevão, do PMDB, outro empresário famoso de Brasília. Mentiu em plenário, ao vivo, da tribuna. Pego na mentira, foi obrigado, em 2001, a renunciar para não ser cassado. Ele o chefe da operação, o falecido Antonio Carlos Magalhães, do PFL da Bahia, também obrigado a pular fora antes de subir no cadafalso da Comissão de Ética.

 

Mas se Paulo Octávio, o maior e mais bem sucedido empresário de Brasília, acreditou, quem sou eu para questionar a fé alheia?

 

Entramos no ano de 2009, e não há um santo dia em que a imprensa brasiliense não trate da candidatura da ministra Dilma Roussef. Do PAC de Dilma. Da doença de Dilma. Das alternativas à Dilma. Das denúncias da oposição contra a candidatura disfarçada de Dilma. Dos candidatos a candidato a vice de Dilma. Sem falar de José Serra. De Aécio Neves. Mas nem uma linha sobre o acordo Arruda-Paulo Octávio.

 

Aliás, estou sendo injusto. Aqui e ali, num esquema clássico de jornalismo de borda de catupiry, misto de plantação de notícia com soltura de balão de ensaio, colunistas e blogueiros envergonhados anunciam que José Roberto Arruda será candidato à reeleição, com Paulo Octávio de vice, se ele quiser. Isso mesmo, o governador reuniu o secretariado e anunciou: o gostosão daqui sou eu! Ao que parece, ninguém o questionou sobre o acordo de 2006. Nem apareceu, ainda, nenhum repórter a lhe perguntar sobre o perigo de ser pego em nova e escandalosa mentira.

 

Consumido por essa dúvida, enviei o seguinte e-mail para os assessores de imprensa do governador José Roberto Arruda, na manhã do dia 19 de maio:

 

De: Leandro Fortes   

Para: omezio@gmail.com   

Cópia: drimotta@gmail.com   

Assunto: Eleições de 2010 - pauta

Data: 19/05/2009 11:15

Prezados Omézio Pontes e Adriana Motta,

Gostaria de saber se o governador José Roberto Arruda confirma o acordo político, firmado em 2006, no âmbito do PFL (atual DEM), quando ele se comprometeu a abrir mão da reeleição em prol da candidatura do vice-governador Paulo Octávio Pereira, agora como cabeça de chapa do partido, em 2010, ao governo do Distrito Federal.

Grato.

Leandro Fortes
CartaCapital (sucursal de Brasília)


Até agora, nenhuma resposta. Nem um e-mail. Nem um telefonema. Silêncio de rádio. Nada.

 

Pelo jeito, vai ter muita gente desgostosa com essa pauta, dentro e fora das redações de Brasília.



Escrito por Leandro Fortes às 19h03
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Direito de resposta - Rubens Valente

Reproduzo aqui mensagem a mim enviada pelo repórter Rubens Valente, da Folha de S.Paulo.

Olá Leandro. Sou o autor da matéria. Não faça isso: não elimine, ao informar os internautas, uma parte fundamental da matéria que escrevi. Eu escrevi que a própria atual gestão da Petrobras disse não ser possível nenhuma comparação entre os números das gestões Lula e FHC, já que entre 2001 e 2002 o país viveu um apagão histórico, o que gerou gastos sem licitação muito além do normal. Seria um erro tremendo comparar duas realidades incomparáveis. E a própria atual gestão da Petrobras concorda com isso (em casos de emergência, como um apagão, a lei 8.666 abre espaço para a dispensa da licitação). Essa informação está no meu texto original, mas vc omitiu-a do seu post. Apenas os leitores com senha do UOL poderão ver a íntegra. Criticar, fique à vontade. Mas não desse jeito. De qualquer forma, pode estar certo que continuo seu fiel leitor e até admirador.

Abraços, Rubens Valente.

Comentário: Caro Rubens, respeito, aliás, muitíssimo, a sua atuação profissional, mas minha crítica não foi à matéria publicada na versão impressa da Folha de S.Paulo, mas à versão digital colocada no portal do UOL, à qual milhões de internautas têm acesso. Naquela versão, depois retirada sem maiores explicações do site, as informações disponíveis apontavam um claro desequilíbrio da mensagem, obviamente manipulada na edição. Não é possível, dada a impossibilidade de a esmagadora maioria dos leitores da página inicial do UOL ter acesso à versão impressa da Folha, estabelecer um justo sistema de medidas na hora de se interpretar a notícia que por ali ficou estampada. O conjunto formado pelo título e pelo texto disponibilizado, sem outra interpretação possível, favorecia um lado em detrimento do outro. Tenho certeza que você, como repórter, sequer participa da edição on line do jornal. Não quis lhe ser injusto, muito menos debochar do seu trabalho. É uma honra tê-lo como leitor. Forte abraço.



Escrito por Leandro Fortes às 20h13
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Petrobrax para iniciantes

Eu estava mesmo querendo falar sobre essa incrível cruzada ao fundo do poço que a oposição, PSDB à frente, decidiu empreender contra a Petrobras, justo no momento em que a empresa se posiciona como uma das grandes do planeta. Sim, a inveja é uma merda, todo mundo sabe disso, mas mesmo a mais suntuosa das privadas tem um limite de retenção. Como não se faz CPI no Brasil sem um acordo prévio com publishers e redações, fiquei quieto, aqui no meu canto, com meus olhos de professor a esperar por um bom exemplo para estudo de caso, porque coisa chata é ficar perdido em conjecturas sem ter um mísero emblema para oferecer aos alunos ou, no caso, ao surpreendente número de pessoas que vem a este blog dar nem que seja uma olhada. Pois bem, esse dia chegou.

Assinante do UOL há cinco anos, é com ele que acordo para o mundo, o que não tem melhorado muito o meu humor matutino, diga-se de passagem. De cara, vejo estampada, em letras garrafo-digitais, a seguinte manchete:

Petrobras gastou R$ 47 bi sem licitação em seis anos

Teca, minha cocker spaniel semi-paralítica, se aninha nos meus pés, mas eu não consigo ficar parado. Piso nas patas traseiras dela, mas, felizmente, ela nada sente. A dedução, de tão lógica, me maltrata o ânimo. Se tamanha safadeza ocorreu nos últimos seis anos, trata-se da Era Lula, redondinha, do marco zero, em 2003, até os dias de hoje. Nisso, pelo menos, a matéria não me surpreende. Está lá:

Desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Petrobras gastou cerca de R$ 47 bilhões em contratos feitos sem licitação, informa reportagem de Rubens Valente, publicada na Folha desta quarta-feira (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

Pá-pá-pá. Preto no branco. Tiro à queima roupa. Um lead jornalístico seco como biscoito de polvilho. Desde que chegou ao Planalto, Lula deixou a Petrobrás gastar 47 bilhões de reais em contratos sem licitação. Vamos, portanto, à CPI. Nada de chiadeira. Demos e tucanos, afinal, têm razão. Bilhões delas. Dane-se o Pré-Sal e o mercado de ações. Quem for brasileiro que siga Arthur Virgílio!

Mas, aí, vem o maldito segundo parágrafo, o sublead, essa réstia de informação que, pudesse ser limada da pirâmide invertida do texto jornalístico, pouparia à oposição tocar a CPI sem o constrangimento de ter que bolar malabarismos retóricos em torno das informações que se seguem. São elas, segundo a Folha On Line:

Amparada por decreto presidencial editado por Fernando Henrique Cardoso em 1998 e em decisões do STF (Supremo Tribunal Federal), a petroleira contratou sem licitação serviços como construção, aluguel e manutenção de prédios, vigilância, repasses a prefeituras, gastos com advogados e patrocínios culturais, entre outros. O valor corresponde a 36,4% do total de gastos com serviços (R$ 129 bilhões) da petroleira de janeiro de 2003 a abril de 2009.

A prática não começou com Lula. Somente entre 2001 e 2002, sob a administração de Fernando Henrique (PSDB-SP), a petroleira contratou cerca de R$ 25 bilhões sem licitações, em valores não atualizados.

Parem as rotativas digitais! Contenham as massas! Abatam os abutres! Como é que é? Volto à minha sala de aula imaginária (só poderia ser, porque hoje eu nem dou aula). Vamos fazer uma análise pontual do texto jornalístico, menos pelo estilo, impecável em sua dureza linear, diria até cartesiana, mas pela colocação equivocada das informações. Depois caem de pau em cima de mim porque defendo a obrigatoriedade do diploma. Vamos lá:

 

1)   Na base da pirâmide invertida, há uma informação que deveria estar no lead e, mais ainda, no título da matéria. Senão, vejamos. Se entre 2001 e 2002 a Petrobras gastou 25 bilhões, “em valores não atualizados” (???), em contratos sem licitações, logo, a matéria deveria começar, em seu parágrafo inicial, com a seguinte informação: “Nos últimos oito anos, a Petrobras gastou R$ 72 bilhões (R$ 47 bilhões + R$ 25 bilhões, “em valores não atualizados”) em contratos sem licitações. Então, CPI nessa cambada! Mas que cambada? Sigamos em frente.

2)   O mesmo derradeiro parágrafo informa que a “prática” se iniciou “sob a administração” de Fernando Henrique Cardoso, aquele presidente do PSDB. Aliás, reflito, só é “prática” porque começou com FHC. Se tivesse começado com Lula, seria bandalha mesmo. Mas sou um radical, não prestem atenção em mim. Continuemos a trabalhar dentro de parâmetros técnicos e jornalísticos. Logo, a CPI tem que partir para cima do PT e do PSDB. Um pouco mais em cima do PSDB. Por quê? Explico.

3)   Ora, até eu que sou jornalista e, portanto, um foragido da matemática, sou capaz de perceber que se a Petrobrax de FHC gastou R$ 25 bilhões (em valores não atualizados!) em contratos sem licitação em apenas dois anos, e a Petrobras de Lula gastou R$ 47 bilhões em seis anos, há um desnível de gastos bastante razoável entre um e outro. Significa, por exemplo, que FHC gastou R$ 12,5 bilhões por ano. E Lula gastou R$ 7,8 bilhões por ano. Ação, segundo a reportagem da Folha, “amparada por decreto presidencial editado por Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e em decisões do STF (Supremo Tribunal Federal)”. Poderia até acrescentar que a Petrobras vale no mercado, hoje, R$ 300 bilhões, e que valia R$ 54 bilhões quando FHC deixou o governo. Mas é preciso manter o foco jornalístico, sem exageros.

4)   Temos, então, uma lógica primária. Com base em uma lei de FHC, amparada pelo STF, a Petrobras tem feito contratos sem licitações, de 2001 até hoje. A “prática” é irregular? CPI neles! Todos. Mas, antes, hora de refazer o título e o lead!

 

Petrobrás gastou R$ 72 bi em contratos sem licitação, em oito anos

Desde 2001, durante o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), até abril deste ano, a Petrobras gastou cerca de R$ 72 bilhões em contratos feitos sem licitação. Os gastos foram autorizados, em 1998, por um decreto presidencial assinado por FHC e, posteriormente, amparados por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre 2001 e 2002, a empresa, sob administração tucana, gastou R$ 25 bilhões em contratos do gênero, em valores não atualizados, uma média de R$ 12,5 bilhões por ano. No governo Lula, esses gastos chegaram a R$ 47 bilhões, entre 2003 e abril de 2009, uma média de R$ 7,8 bilhões anuais.

Bom, não sei vocês, mas eu adoro jornalismo. Em valores atualizados, claro.



Escrito por Leandro Fortes às 10h43
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Ladeira abaixo

Por Olímpio Cruz  Neto

A imprensa mundial está em crise. Como vêm apontando jornalistas, especialistas, estudiosos da mídia e até mesmo alguns veículos da imprensa, o jornal está perdendo leitores. Nos Estados Unidos, como indicou André Petry, correspondente da Veja nos Estados Unidos, os jornalões agonizam. Aqui, a perda de leitores é contínua, embora os donos de jornais não estejam de pires na mão. Ainda. É que o problema aqui é muito mais complexo do que a oferta abundante de notícias gratuitas pela internet.

Eugênio Bucci, que presidiu a Radiobras ainda no primeiro governo Lula e é um dedicado estudioso dos meios de comunicação, publica um longo artigo no Observatório da Imprensa, edição de 8 de maio. Aborda, a partir da entrevista publicada pelo Estadão com o veterano mestre Gay Talese, uma questão central: por que precisamos de jornais?

Segundo Talese, na entrevista concedida a Lúcia Guimarães, os jornais ainda são necessários. Eis a resposta de um dos pais do new journalism: “Porque no prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio. Há mentirosos nos jornais também, mas em menor número. Nos prédios do governo, nas escolas, nas instituições científicas, nos estádios de esporte, nas fábricas, a mentira circula num grau mais alto. Os jornais estão mais interessados na verdade, mesmo se cometem erros, às vezes, erros involuntários”, disse Talese. A resposta é lúcida, mas para explicar a realidade brasileira ainda está incompleta. O problema aqui é que, apesar das redações terem menos mentirosos, agora temos menos credibilidade.

No Brasil, os jornais vêm perdendo tiragem. De maneira vertiginosa. A Folha, nos anos 90, chegou a ter inacreditáveis 750 mil exemplares de tiragem aos domingos; hoje não tem 300 mil. Estadão caiu de 391 mil, há dez anos, para 217 mil em 2009. O Dia, do Rio, despencou de 261 mil para 91 mil em menos de uma década. Em Brasília, o Correio Braziliense, que nos anos 90 teve tiragem de quase 100 mil nos bons tempos de Ricardo Noblat, não chega agora a 53 mil. Os jornais ainda não agonizam, mas vêm perdendo força. Os números podem ser encontrados na edição 1356 de Meio & Mensagem, que circulou no final de abril com base nos relatórios do Instituto Verificador de Circulação (IVC).

(continue lendo: http://olicruz.wordpress.com/2009/05/08/imprensa-crise-e-credibilidade/#more-1098)



Escrito por Leandro Fortes às 15h15
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Back to Petrobrax

CPI da Petrobras: O objetivo é produzir manchetes para o Ali Kamel

por Luiz Carlos Azenha

Quando eu era repórter da Globo, entre 2005 e 2006, durante meses o Jornal Nacional dedicava de três a dez minutos diários à cobertura de três CPIs: a do Mensalão, a dos Correios e a do Fim do Mundo.

As reportagens registravam acusações, ilações e suposições geradas diariamente nos corredores do Congresso, a grande maioria delas desprovada mais tarde. Não importa. O objetivo óbvio era produzir fumaça e as manchetes que faziam Ali Kamel delirar. O capo da Globo ficou tão excitado que despachou para Brasília uma assistente pessoal, cuja tarefa diária era percorrer os bastidores do Congresso para passar e receber informações, além de monitorar os colegas de emissora.

Uma CPI como a da Petrobras fornece o argumento essencial para Kamel e seus asseclas: estamos apenas "cobrindo os fatos", argumentam. Já escrevi aqui ene vezes sobre 2006: capas da Veja alimentavam o Jornal Nacional, que promovia a devida "repercussão", gerando decisões políticas que alimentavam outras capas da Veja, que apareciam no JN de sábado e geravam indignação em gente da estirpe de ACM, Heráclito Fortes e Arthur Virgílio.

Só essa "indignação seletiva" é capaz de explicar porque teremos uma CPI da Petrobras mas nunca tivemos uma CPI da Vale ou das privatizações.

 

(continue lendo em: http://www.viomundo.com.br/opiniao/cpi-da-petrobras-o-objetivo-e-produzir-manchetes-para-o-ali-kamel/)



Escrito por Leandro Fortes às 12h07
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Dedada tucana

Leio uma notícia emblemática sobre o enterro que se aproxima do governo Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul. O advogado José Eduardo Alckmin sentou praça em Porto Alegre para preparar a defesa da governadora, esta suspeita de tudo e mais um pouco, inclusive de colocar um caraminguá de caixa dois no bolso para realizar o sonho da casa própria. Leio a biografia do nobre causídico em questão e me vem um soluço de risada. Alckmin, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral, teria sido escolhido “a dedo” pela cúpula do PSDB para defender Yeda. Os últimos governadores que foram defendidos pelo doutor Alckmin são, pela ordem, Cássio Cunha Lima, do PSDB da Paraíba, e Jackson Lago, do PDT do Maranhão. Ambos foram cassados.

Agora, pergunto eu: de quem é esse dedo?



Escrito por Leandro Fortes às 21h08
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